Os resultados da economia na primeira metade deste ano vieram dentro da expectativa. O ritmo de crescimento do PIB tem desacelerado gradualmente, o que já era esperado diante dos esforços do Banco Central para conter a inflação ainda elevada. O que preocupa é que essa tendência de enfraquecimento continua e os riscos associados a esse ambiente merecem bastante atenção, em particular no mercado de crédito.O crescimento do PIB acumulado ao longo de 4 trimestres, que chegou a atingir 3,6% no início de 2025, tem recuado a cada trimestre, atingindo 1,9% no segundo trimestre deste ano. Se compararmos este último trimestre com o mesmo período do ano passado, a leitura não se altera, com alta de 2,0%.Contudo, a história fica mais interessante ao analisar o que aconteceu na margem, ou seja, de um trimestre para o subsequente. No primeiro trimestre, o crescimento foi quantitativamente favorável, com alta de 1,1%, e qualitativamente também. A demanda doméstica, composta pelo consumo das famílias, governo e investimentos, contribuiu integralmente para essa aceleração. No segundo trimestre, a dinâmica mudou bastante. A contribuição da demanda doméstica foi nula. O crescimento de 0,5% no trimestre serviu basicamente como uma recomposição de estoques. Setorialmente, apenas a agropecuária teve um ritmo mais expressivo, de 2,8%. Indústria e serviços tiveram ritmo levemente acima de zero.Os estímulos do governo ao crescimento, com a isenção de IR, redução da fila do INSS, expansão de programas de auxílio-gás e auxílio-energia, entre outras transferências e precatórios, tiveram sua maior contribuição justamente no último trimestre, mas não foram suficientes para impulsionar a demanda doméstica.Isso fica mais claro quando se observa os subsetores da indústria e dos serviços, com desempenho muito concentrado em segmentos pontuais.No caso da indústria, a única atividade a crescer foi a indústria extrativa, resultado da melhor produção de minérios e, principalmente, de petróleo, beneficiada pelas tensões no Oriente Médio. Em 12 meses, acumula crescimento de 12,2%.Entre os serviços, o único destaque foi o setor de Informação e Comunicação, que compreende investimentos e Inteligência Artificial e Digitalização, e depende pouco da capacidade de consumo das famílias. Em 12 meses, acumula crescimento de 7,1%. Os demais setores tiveram crescimento bem abaixo e também não apresentam taxas expressivas no acumulado de um ano.Olhando à frente, os sinais apontam para uma continuidade desse enfraquecimento. Números de julho e agosto sugerem que o terceiro trimestre deve ser ainda mais fraco, mesmo mantendo um montante elevado de estímulos fiscais e parafiscais ao crescimento econômico.A maior dificuldade, no entanto, está no fato desta desaceleração acontecer em uma situação de superendividamento de governos, empresas e famílias. Quanto ao governo, as dificuldades fiscais e a trajetória de elevação da dívida vão, inevitavelmente, impor restrições à continuidade da expansão dos gastos no ritmo atual.As empresas não apenas enfrentarão as incertezas de um quadro econômico menos pujante, mas terão um cenário de crédito mais restrito e pressões de custos advindas da implementação da reforma tributária. Não apenas a inadimplência tem subido, como os empréstimos nas faixas de maior risco também.Por fim, os consumidores, em níveis de endividamento recordes, têm visto a parcela da renda comprometida subir juntamente com um menor crescimento da renda quando descontada a inflação.Se o espaço para cortes de juros seguir limitado pelos riscos inflacionários, é grande a chance dessa situação se agravar de tal forma que seus efeitos seriam difíceis de antecipar, mas que certamente levariam a um quadro recessivo no próximo ano.