Uma em cada cinco famílias com mais de um filho escolhe repetir a mesma letra inicial ao escolher os nomes das crianças. O costume é antigo, mas perdura até os dias atuais, como mostrou o levantamento da plataforma BabyCenter com mais de 129 mil núcleos familiares.Exemplos famosos são os herdeiros de Kris Jenner, socialite que repetiu a letra K até mesmo entre crianças de diferentes casamentos (Kendall, Kim, Kylie, Kourtney), até as três filhas de Neymar e Bruna Biancardi (Mavie, Mel e Mariah). Por que esta tradição perdura, e o que ela significa para os pais e os filhos que compartilham a semelhança? Leia Mais Guilherme, Henrique e Isabel: por que traduzimos nomes da realeza para o português? "Paulista", "carioca" ou "capixaba": como funciona a classificação de gentílicos dos estados brasileiros? Morango do amor é coisa do passado? Nova versão de fruta que recebe nomes diferentes a depender do local do Brasil é criada; veja qual As combinações mais comunsO app BabyCenter tem mais de 33 milhões de usuários no mundo todo, e um de seus usos mais populares é para pesquisa e registro dos nomes de seus filhos. Em 2025, o aplicativo analisou as 128.686 famílias com mais de duas crianças registradas entre agosto de 2020 e julho de 2024 para identificar os nomes e combinações mais populares.A similaridade mais comum é a repetição de iniciais: Liam e Levi, Olivia e Oliver, Liam e Lily, Santiago e Sebastian são alguns dos pares que mais se repetem. Também são frequentes nomes que rimam, como “Olivia”, “Amelia” e “Sophia”.Por que repetir?As motivações por trás deste costume variam. Para a psicóloga infantil Marcelle Alfinito, pós-graduada em Psiquiatria e Psicanálise da criança e do adolescente, “a escolha de nomes pode estar relacionada a fatores como preferência estética, tradição familiar, homenagem, valores culturais ou simplesmente ao desejo de criar uma sensação de pertencimento e continuidade entre os irmãos”.Sabrina Pani, psicóloga infantojuvenil e doutora pela USP (Universidade de São Paulo), acrescenta o desejo por uma “identidade familiar única” e gerar a “sensação de coesão”.Mesmas iniciais contribuem para confusão entre irmãosUm estudo de 2013 questionou 334 indivíduos sobre a gafe clássica cometida pelos pais: chamar um irmão pelo nome do outro. Os participantes que tinham letras iniciais ou finais iguais às dos irmãos afirmaram ter seu nome confundido com maior frequência; outros fatores associados incluem gênero, aparência ou idades similares.Portanto, pais e mães podem estar criando mais oportunidades para confusão ao escolher nomes parecidos para seus filhos. Mas isto não quer dizer que eles enxerguem menos a individualidade de cada um: pode ser, de fato, apenas uma falha de linguagem.“Uma coisa é chamar eventualmente uma criança pelo nome do irmão. Outra é um padrão relacional no qual a criança é frequentemente comparada, ou ambos são tratados como se fossem iguais”, diz Marcelle.Parecidos, mas únicos“Não existe uma relação de causa e efeito entre o nome e a percepção dos pais a respeito da identidade”, defende Sabrina. “Pode ser só uma tradição carinhosa, sem prejuízo para a construção do ‘eu’ da criança”.Marcelle Alfinito acrescenta que, ao longo da vida, os nomes parecidos não importarão tanto quanto outros aspectos da criação. “Uma família pode escolher nomes muito semelhantes para os filhos e, ainda assim, validar profundamente as diferenças entre eles”, diz. “Da mesma forma, irmãos com nomes completamente diferentes podem ser tratados de maneira excessivamente comparativa.”Do lado dos pais, é importante perceber se o desejo por coesão e identidade familiar não está ultrapassando o desejo por nutrir e conhecer a personalidade única da criança. Um nome parecido, por si só, não acende o alerta; mas pode ser um dos blocos em um padrão de comportamento maior.