O pedágio sem barreiras (free-flow) deixou de ser promessa e virou rotina em corredores estratégicos de transporte de cargas no Brasil. Pórticos substituem praças físicas, a passagem fica mais fluida e o fluxo logístico ganha velocidade. Um novo levantamento da ANTT/ABCR já aponta que 3% das rodovias concedidas no país já operam ou têm cronograma definido para funcionar em modelo free-flow até 2027. O que poucos notam é que cada pórtico não é apenas um ponto de cobrança: é um ponto de coleta de dados. Cada passagem registra localização, horário, veículo e, indiretamente, a operação inteira daquela carga, como rota, janela de entrega e padrão de deslocamento. Multiplicado por milhares de veículos e viagens, esse fluxo de dados se torna um retrato detalhado e em tempo real da logística de um país. A maioria das transportadoras e embarcadoras ainda trata esse volume de dados como um problema de TI – algo a ser resolvido com firewall e backup. É um erro de categoria. Quando um dado revela onde uma carga de alto valor vai estar, em que horário e por qual rota, ele deixa de ser um ativo de tecnologia e passa a ser um ativo de segurança física, com o mesmo peso estratégico que a escolta armada ou o rastreador do veículo. O caminho entre uma falha digital e um prejuízo físico é curto. O vazamento de rotas e horários amplia a exposição a roubos de carga; a indisponibilidade de uma plataforma compromete o acompanhamento da frota em tempo real; a adulteração de um dado de telemetria pode levar uma equipe a interpretar errado uma situação de risco. Segundo o 2025 Global Cargo Theft Report, elaborado pela BSI Consulting e o TT Club, o cruzamento entre tecnologia e crime físico disparou: os casos facilitados por vazamento de informações e envolvimento interno já respondem por 22% dos roubos de carga globais, evidenciando que a vulnerabilidade cibernética se tornou a principal porta de entrada para o crime. Essa mudança de categoria exige uma mudança de mentalidade. Não basta proteger os sistemas depois que já estão em operação: criptografia, controle de acesso, autenticação e monitoramento precisam nascer junto com a arquitetura da solução — e a superfície de risco não termina no servidor. Veículos, sensores, câmeras, APIs e fornecedores terceiros também fazem parte dela. Segurança, porém, não significa compartilhar menos dados, visto que o transporte moderno depende da circulação de informação para ganhar eficiência. O desafio real é compartilhar o dado certo, com quem precisa dele, para uma finalidade específica. Processamento na borda, por exemplo, permite analisar informações localmente e enviar à nuvem apenas os eventos relevantes, reduzindo a exposição sem abrir mão da inteligência operacional. Com o avanço da inteligência artificial nas operações de frota, esse cuidado ganha uma segunda camada: não basta impedir o roubo de dados, é preciso garantir a integridade deles. Sistemas que apoiam decisões de forma cada vez mais autônoma só são confiáveis se os dados que os alimentam não puderem ser falsificados ou manipulados, ao mesmo tempo em que informações sensíveis de motoristas, como CNH e dados pessoais, seguem 100% protegidas. Quanto mais conectado o transporte se torna, menor é a distância entre uma vulnerabilidade digital e um impacto físico. Proteger dados já não é uma questão de privacidade ou de tecnologia: é parte da segurança da carga, do motorista e da própria operação. Rony Neri é diretor-executivo da Platform Science na América Latina* Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.