«Ter dinheiro parado num depósito à ordem significa perder poder de compra todos os dias», explica Miguel Ferreira, professor na Nova SBE

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É neste contexto que ganham particular peso os resultados do programa Finanças para Todos, estudado junto de mais de dez mil participantes: dez horas de formação foram suficientes para produzir mudanças concretas nos comportamentos, com menos recurso ao crédito ao consumo, sobretudo às modalidades mais caras, mais poupança e maior planeamento da reforma. Distinguido pelo PRME Education Award 2026 das Nações Unidas, o programa mostra que aprender a lidar com o dinheiro pode transformar decisões.Em entrevista à Líder Magazine, Miguel Ferreira, coordenador científico do Finanças para Todos e professor da Nova SBE, explica o impacto da formação financeira, identifica os erros mais comuns dos portugueses e defende que escolas, universidades, empresas, Estado e sistema financeiro têm de assumir um papel mais ativo na preparação financeira da população. O que é que dez horas de formação conseguem realmente mudar na relação de uma pessoa com o dinheiro?Dez horas de formação em finanças pessoais permitem cobrir várias dimensões das finanças das pessoas e, desta forma, contribuir de forma integrada para um melhor bem-estar financeiro. Por um lado, permitem tratar o orçamento familiar e a sua gestão. Por outro, falar de produtos financeiros e de seguros, de forma a que as pessoas compreendam melhor os serviços financeiros disponíveis. Depois, os dois grandes tipos de produtos financeiros que as pessoas utilizam: o crédito — ao consumo, mas também à habitação — e qual é a melhor escolha para cada situação. E, finalmente, a poupança: como investir melhor de acordo com o objetivo que se tem, com destaque para o planeamento da reforma e o investimento adequado a longo prazo. Com estes vários pilares consegue-se cobrir, de forma global, as finanças pessoais de uma pessoa ou de uma família e contribuir para a melhoria do seu bem-estar financeiro.Qual foi o resultado que mais o surpreendeu neste estudo?Destaco dois resultados distintos. O primeiro: o Finanças para Todos está aberto a qualquer pessoa adulta, com dezoito anos ou mais, é gratuito e de inscrição voluntária. Uma primeira constatação que nos surpreendeu foi que quem se inscreve voluntariamente não são as pessoas com menos conhecimentos financeiros, menos qualificações académicas ou menores rendimentos, mas sim, pelo contrário, pessoas que já têm mais conhecimentos financeiros, mais qualificações — uma licenciatura — e mais rendimentos. Isso mostra que, para chegarmos ao outro grupo, o mais vulnerável, são necessárias estratégias de divulgação e de comunicação diferentes, para além da inscrição voluntária. Outra coisa que também nos surpreendeu: quase setenta por cento das pessoas que se inscrevem são mulheres — há uma procura muito maior por parte delas do que por parte dos homens.Um segundo resultado que distingo é que conseguimos que as pessoas tenham melhores comportamentos financeiros, nomeadamente uma melhor relação com o crédito. Depois de fazer as formações, e de forma relativamente rápida, nos seis meses seguintes as pessoas passam a utilizar bastante menos crédito ao consumo, em especial as formas mais caras, com taxas mais altas — os cartões de crédito e o crédito pessoal. Isso acontecia muitas vezes porque não tinham perceção real dos custos e, com frequência, nem sequer necessitavam de usar esse crédito de forma tão extensiva, porque tinham depósitos à ordem ou a prazo com rendimentos muito baixos, que normalmente nem permitem compensar a inflação. O melhor comportamento financeiro é usar menos crédito ao consumo e recorrer antes aos depósitos que não estão a dar qualquer remuneração.Até que ponto as más decisões financeiras resultam da falta de conhecimento e até que ponto resultam de baixos rendimentos e da falta de alternativas?Os conhecimentos financeiros são uma barreira importante e está amplamente demonstrado. Mas há outras barreiras mais difíceis de ultrapassar. No que respeita a poupanças e investimentos, uma barreira importante é que os níveis de rendimento são baixos face ao custo de vida em Portugal, em várias zonas do país mas principalmente nas grandes cidades. Isso dificulta a poupança das pessoas e explica também porque é que Portugal tem taxas de poupança abaixo da média europeia.É importante conseguir poupar, por um lado, para fazer face a emergências — um bom comportamento financeiro é as pessoas conseguirem constituir um fundo de emergência que cubra pelo menos três a seis meses das despesas mensais.E, por outro, poupar para a reforma, porque é sobejamente conhecido que as pensões daqui a vinte ou trinta anos vão ser mais baixas comparativamente ao último rendimento. Esse comportamento financeiro é difícil de adotar quando as pessoas não têm rendimentos suficientes para fazer essas poupanças, seja para um fundo de emergência, seja para a reforma.Isso significa que a literacia financeira é uma ferramenta fundamental de combate à desigualdade?A literacia financeira é importante porque há normalmente uma correlação entre as duas coisas: as pessoas com menos conhecimentos financeiros são também, muitas vezes, as pessoas com menos rendimentos. As duas coisas estão associadas.Mas uma pessoa pode saber muito sobre finanças e, ainda assim, tomar más decisões?Sim, é possível acontecer. O olhar é, às vezes, muito emocional. Nem sempre as pessoas tomam decisões racionais. Há enviesamentos comportamentais nas decisões financeiras que, muitas vezes, os conhecimentos na área não são suficientes para ultrapassar. Por isso, nas formações, para além dos conhecimentos, tentamos ir mais além, através de exemplos práticos, para dotar as pessoas de ferramentas que lhes permitam passar à ação e alterar realmente os comportamentos financeiros. As formações não são simplesmente teóricas: têm uma parte conceptual, importante para as pessoas conhecerem os conceitos básicos, mas depois são muito focadas na parte prática — como podemos alterar os nossos comportamentos financeiros para tomar melhores decisões — e em alertar as pessoas para enviesamentos comportamentais conhecidos. Se as pessoas estiverem alerta para esses desvios, é menos provável que os cometam.As plataformas digitais tornaram investir muito mais fácil, mas também tornaram mais fácil cometer erros.É mais fácil investir, está à distância de um clique, mas há muita escolha e muita oferta, e é importante as pessoas perceberem em que é que faz sentido investir, tendo em conta o objetivo que têm.Se estão a poupar para um fundo de emergência, esse dinheiro deve ser investido em produtos financeiros de curto prazo e relativamente líquidos, para que, em caso de emergência, consigam mobilizá-lo sem custos.Mas se estiverem a investir para a reforma, pelo contrário, devem investir em produtos diferentes, que dão maior retorno e têm mais risco, mas, a longo prazo, esse risco é minimizado, porque as flutuações de curto prazo dos mercados de capitais tendem a ser esbatidas, havendo uma tendência de crescimento e maior retorno.Não será pedir demasiado ao cidadão comum que compreenda produtos financeiros cada vez mais complexos?Essa é uma realidade que as pessoas têm de enfrentar, e a melhor forma de a enfrentar é investir em formação. Porque continuamos a ensinar tão pouco sobre dinheiro nas escolas, quando é uma das competências que mais determina a nossa vida quando somos adultos?Até hoje, o dinheiro e a educação financeira eram pouco ensinados nas escolas — era perfeitamente possível fazer todo o ensino oficial até ao 12.º ano sem que esses conhecimentos fossem ministrados. Isso tem consequências, e a que conhecemos é que o nível médio de conhecimentos financeiros da população portuguesa é baixo, bastante abaixo da média europeia. Estamos entre os piores países da Europa a este nível, o que depois tem consequências ao nível dos comportamentos. Felizmente, no ano passado foi tomada uma decisão importante: passou a ser obrigatório lecionar literacia financeira e finanças pessoais desde o primeiro até ao 12.º ano. Isto obviamente não vai acontecer de um dia para o outro — não basta decidir que se vai ensinar, é preciso capacitar os professores para ensinarem finanças pessoais, e esse processo demora tempo. Mas foi dado esse primeiro passo importante e tenho esperança de que, estando também a ser dada formação aos professores, daqui a algum tempo tenhamos os nossos estudantes com esses conhecimentos financeiros.E quem deve assumir essa responsabilidade — Estado, bancos, empresas, universidades?Todos os atores têm um papel. Em primeira instância, o Estado, através das escolas públicas e também das privadas, tornando a literacia financeira parte obrigatória do currículo do ensino oficial. As universidades, porque é necessário continuar para além do ensino oficial, têm também essa responsabilidade. As empresas, porque há muitas pessoas já no mercado de trabalho que não adquiriram estes conhecimentos na escola, e uma forma de chegar até elas é através das empresas promoverem formação internamente. E, por fim, o sistema financeiro, que pode ter aqui um papel importante, colaborando também nestes programas educativos de literacia financeira.A literacia financeira deve também fazer parte das políticas de bem-estar dos trabalhadores?Sim, é muito importante, por duas razões. Primeiro, porque, mesmo que estes conhecimentos sejam lecionados no ensino oficial, as pessoas tendem a esquecê-los ao longo do tempo. É necessária uma atualização, um reforço desses conhecimentos no momento em que as pessoas vão tomar decisões financeiras importantes, o que não acontece na escola, mas sim já na vida ativa: comprar um carro, comprar uma casa, começar a planear a reforma. É importante que esse reforço aconteça nas empresas, precisamente nesta fase da vida em que se tomam as decisões financeiras mais relevantes. E, por outro lado, porque a maioria das pessoas que estão hoje no mercado de trabalho não tem estes conhecimentos, por não lhes terem sido ministrados na escola, sendo preciso fazer essa recuperação já na vida ativa, junto da população adulta.Acredita que uma pessoa financeiramente preocupada ou endividada é, inevitavelmente, também uma pessoa menos disponível para o trabalho?Sim, e há já estudos que o confirmam: as pessoas em situação de stress financeiro têm um impacto muito significativo na produtividade e na performance profissional, o que pode depois ter impacto na carreira e nos rendimentos. Acaba por se criar um ciclo vicioso.Qual é o erro financeiro que os portugueses mais cometem sem sequer perceberem que o estão a cometer?Um dos maiores erros é o volume de poupanças que está em depósitos à ordem, com remuneração zero. Ter dinheiro parado num depósito à ordem significa perder poder de compra todos os dias, porque há inflação e os preços dos bens vão subindo — se as poupanças têm remuneração zero, nem chegam a compensar a inflação, pelo que a pessoa está a perder dinheiro diariamente.Grande parte das restantes poupanças das pessoas está em certificados de aforro ou depósitos a prazo, que têm remuneração, mas, em média, semelhante à inflação — ou seja, o único retorno é compensar a inflação, sem qualquer ganho real em termos de poder de compra. É importante, tendo em conta os objetivos para os quais se poupa, sobretudo a longo prazo, não manter essas poupanças apenas em depósitos à ordem, depósitos a prazo ou certificados de aforro. É preciso investir no mercado de capitais, em obrigações e também em ações, mas de forma diversificada, não necessariamente em ações individuais, mas em produtos cuja performance está ligada a índices de ações, porque a diversificação permite reduzir o risco deste tipo de investimento.Depois de estudar mais de dez mil pessoas e perceber como o conhecimento altera comportamentos, o que passou o Miguel Ferreira a fazer de diferente com o seu próprio dinheiro?Com o meu próprio dinheiro, penso que não precisei de mudar muita coisa. Felizmente, já tinha estes conhecimentos desde cedo e, à medida que fui conseguindo poupar, comecei a investir as poupanças de forma mais eficiente, de acordo com os meus objetivos. Um aspeto importante aqui é que, quanto mais cedo se começa, maiores são os ganhos. O tempo funciona a nosso favor, por via do efeito de capitalização dos juros quando investimos. Para tirar partido disso, é preciso começar a investir o mais cedo possível. O conteúdo «Ter dinheiro parado num depósito à ordem significa perder poder de compra todos os dias», explica Miguel Ferreira, professor na Nova SBE aparece primeiro em Revista Líder.