O diploma pode abrir a porta, mas os estudantes nem sempre sentem que os prepara para aquilo que vão encontrar do outro lado. Quando convidados a avaliar a afirmação de que a educação prepara os alunos para os desafios do mercado de trabalho, os participantes num novo estudo atribuíram-lhe uma pontuação média de apenas 2,18 numa escala de um a cinco.A conclusão consta da investigação Students and employers perceptions differential on soft skills: An analysis for university students, publicada em 2026 na revista científica Industry and Higher Education. O trabalho é assinado por Margarita Carvalho, Mónica Azevedo e Luís Pacheco, investigadores da Universidade Portucalense e do REMIT – Research on Economics, Management and Information Technologies.O estudo analisou as respostas de 384 estudantes de cursos de Economia e Gestão daquela Universidade. Estudantes sentem-se aquém das exigências das empresasOs participantes avaliaram 22 soft skills, ou competências comportamentais, comparando as capacidades que acreditam que os empregadores procuram com aquelas que reconhecem em si próprios.Em média, as expectativas atribuídas às empresas receberam uma classificação de 4,40 em cinco, enquanto a autoavaliação dos estudantes ficou nos 4,08. Quando questionados sobre até que ponto correspondem ao perfil procurado pelos empregadores, o valor desceu para 4,04.Os resultados apontam, assim, para um desalinhamento estatisticamente significativo entre aquilo que os jovens acreditam que o mercado exige e a preparação que sentem possuir. Esta perceção acompanha outros dados sobre a entrada dos diplomados no mercado de trabalho, num contexto em que conseguir emprego não significa necessariamente encontrar uma função adequada à formação adquirida.As diferenças mais expressivas surgem nas competências profissionais, gestão do tempo, pensamento estratégico e capacidade de apresentação. Os estudantes reconhecem que estas capacidades são valorizadas pelas organizações, mas mostram menor confiança no seu próprio domínio.Também a liderança, a resolução de problemas e as competências tecnológicas apresentam diferenças relevantes entre a procura que os estudantes atribuem às empresas e a preparação que reconhecem em si próprios. O pensamento crítico assume particular importância num mercado em que a inteligência artificial consegue produzir respostas, mas continua a exigir capacidade humana para as avaliar.Em sentido contrário, os participantes classificaram-se de forma particularmente positiva em competências como empatia, trabalho em equipa, ética e autoconsciência. Os investigadores consideram que esta diferença pode revelar uma valorização excessiva das capacidades relacionais face a competências mais diretamente associadas ao desempenho profissional. É no trabalho que se aprendem as competências humanas?Para 89,7% dos estudantes, o local de trabalho é o principal espaço para desenvolver competências comportamentais. A escola surge em segundo lugar, indicada por 73,6%, seguida das experiências no estrangeiro, escolhidas por 71,8%.A família foi referida por 61,8% dos participantes e os amigos por 61,1%. Apenas 46,3% consideram que a interação com desconhecidos pode ajudar a desenvolver estas capacidades.Os resultados reforçam a importância da experiência prática. Os estudantes que já tinham passado pelo mercado de trabalho avaliaram-se de forma mais positiva em várias áreas, nomeadamente comunicação, pensamento crítico e estratégico, planeamento, criatividade e capacidade de apresentação. A diferença mais acentuada surgiu ao nível das competências profissionais.A experiência não parece alterar substancialmente aquilo que os estudantes pensam que as empresas procuram. O seu principal efeito está no aumento da confiança e da perceção de preparação. Para os investigadores, esta conclusão justifica uma maior integração de estágios, projetos com empresas, simulações e aprendizagem baseada em problemas reais nos programas de ensino superior.Num mercado que valoriza cada vez mais a capacidade de aprender e adaptar-se, o contacto com o contexto profissional pode funcionar como uma ponte entre o conhecimento académico e a sua aplicação. Quem se sente mais preparado está mais disposto a investirO estudo identifica ainda um aparente paradoxo: os estudantes que avaliam mais positivamente as próprias competências são também os que mostram maior disponibilidade para pagar por formação adicional.Entre o grupo com a autoavaliação mais baixa, 49% aceitariam investir financeiramente no desenvolvimento das suas soft skills. No grupo com a avaliação mais elevada, a percentagem sobe para 59%.Em contrapartida, a proporção dos que não estão dispostos a pagar desce de 35% para 23%. Os autores sugerem que uma maior confiança pode estar associada a uma consciência mais clara do valor estratégico destas competências e a uma maior motivação para continuar a desenvolvê-las. Universidades e empresas precisam de trabalhar em conjuntoApesar de os estudantes reconhecerem a importância das competências comportamentais nas entrevistas de emprego, mostram-se pouco convencidos de que a formação académica os prepare para os desafios profissionais.Os investigadores defendem uma aproximação entre instituições de ensino superior e empregadores, através de currículos construídos com maior atenção às necessidades do mercado, mecanismos regulares de feedback, orientação de carreira, mentoria e instrumentos que permitam avaliar competências comportamentais.O objetivo não deve ser substituir o conhecimento técnico, mas garantir que os diplomados conseguem aplicá-lo, comunicá-lo e adaptá-lo a diferentes contextos. Esta complementaridade ganha relevância quando as empresas admitem estar dispostas a pagar mais por determinadas competências.Os resultados devem, contudo, ser interpretados com prudência. A investigação analisou apenas estudantes de Economia e Gestão de uma instituição privada e não recolheu respostas diretamente junto dos empregadores. O que está em causa é, portanto, a comparação entre a autoavaliação dos estudantes e aquilo que estes pensam que as empresas esperam — não uma medição direta das competências nem das exigências reais dos recrutadores.Ainda assim, o estudo deixa um alerta para o ensino superior: num mercado em rápida transformação, formar profissionais tecnicamente competentes pode já não ser suficiente. É necessário criar oportunidades para experimentar, colaborar, comunicar, decidir e aprender com situações reais antes de entrar definitivamente no mundo do trabalho.O conteúdo Mercado de trabalho: estudantes sentem que não têm as competências procuradas pelas empresas aparece primeiro em Revista Líder.