Esses números não significam que o Brasil esteja simplesmente “perdendo a batalha”. O país acumula resultados importantes, entre eles a redução da mortalidade por Aids e, mais recentemente, a eliminação da transmissão vertical do HIV. Também ampliou o acesso à testagem, ao tratamento e à profilaxia pré-exposição, a PrEP. O que os dados mostram é algo mais complexo: ter políticas e tecnologias eficazes não garante, por si só, que elas serão utilizadas por quem pode se beneficiar delas.Quando prevenção existe, mas não vira rotinaÉ nessa distância entre aquilo que a medicina oferece e aquilo que as pessoas efetivamente incorporam à vida que está uma das grandes questões da prevenção contemporânea. O Brasil, inclusive, vem ampliando o acesso à PrEP. Mais de 234 mil pessoas tiveram pelo menos uma dispensação da profilaxia nos 12 meses anteriores, segundo dados do Ministério da Saúde. O número mostra que a prevenção já alcançou uma escala importante no país. Por outro lado, quase 84 mil abandonaram o tratamento. Isso levanta uma questão menos confortável: por que as pessoas não conseguem seguir com um uso adequado e efetivo da prevenção, dentro de suas necessidades?Costumamos falar em “adesão” quando pensamos em HIV. Mas talvez seja hora de ampliar o significado dessa palavra. Adesão não é apenas tomar um comprimido corretamente. É reconhecer uma possibilidade de exposição, aceitar que a prevenção pode fazer sentido para aquela pessoa, procurar informação, fazer o teste, conversar com um profissional e escolher uma estratégia que possa ser mantida. Parece simples, mas, na realidade, as decisões sobre saúde sexual envolvem rotina, relacionamentos, percepção de risco, medo de julgamento e estigmas. A melhor estratégia preventiva do mundo não será útil se for difícil demais de incorporar ao cotidiano.O risco de achar que HIV é “coisa dos outros”Há ainda um obstáculo mais básico: a velha ideia de que o HIV acontece com “os outros”. Durante décadas, a prevenção foi comunicada a partir da identificação de grupos considerados de maior risco. A epidemiologia continua mostrando que determinadas populações são desproporcionalmente afetadas e, portanto, precisam de políticas específicas. Mas transformar essa informação em uma etiqueta pode produzir um efeito perverso: quem não se reconhece naquele grupo pode concluir que a prevenção não é para ela. O desafio é conseguir direcionar recursos para quem está mais vulnerável sem transformar a prevenção em algo que pareça destinado exclusivamente a uma parcela da população.Mais portas de entrada para o cuidadoÉ justamente por isso que a chamada Prevenção Combinada, preconizada pelo Ministério da Saúde, é tão importante. A resposta brasileira não se baseia em uma única estratégia, mas na combinação de medidas biomédicas, comportamentais e estruturais. A PrEP oral, por exemplo, é uma ferramenta de alta eficácia quando utilizada adequadamente, e o Ministério da Saúde prevê diferentes formas de uso, conforme indicação clínica e perfil de exposição. O ponto não é convencer todo mundo a usar PrEP. É garantir que quem precisa dela saiba que ela existe, consiga acessá-la e, principalmente, encontre uma forma de prevenção compatível com a sua própria vida.Isso também significa pensar menos em um único lugar para a prevenção. O SUS continua sendo essencial, e a ampliação da oferta pública é uma das bases da resposta brasileira, mas ampliar o acesso significa também reduzir barreiras e criar diferentes portas de entrada para o cuidado. A existência de PrEP oral no mercado privado e sua disponibilidade em farmácias acrescentam uma possibilidade para quem busca prevenção, sem substituir a política pública. Quanto mais simples for chegar à informação, à avaliação profissional e ao método adequado, menor tende a ser a distância entre saber que a prevenção existe e efetivamente utilizá-la.Talvez essa seja a principal lição que os números atuais nos trazem. O problema do HIV já não é apenas descobrir se temos ferramentas capazes de prevenir novas infecções. Temos. O desafio é fazer com que essas ferramentas sejam acessíveis, conhecidas e, sobretudo, possíveis de incorporar à vida real. A ciência conseguiu tornar a prevenção mais eficaz; agora precisamos torná-la mais próxima. Se queremos acelerar a queda das novas infecções no Brasil, talvez a pergunta mais importante não seja mais “qual é a próxima tecnologia?”, mas uma bem mais incômoda: o que ainda estamos fazendo de errado para que pessoas que poderiam se prevenir continuem sem se prevenir?Precisamos tratar a sexualidade como parte da atenção básica à saúde. As pessoas procuram médicos para cuidar do coração, dos pulmões e da pele; por que não deveriam receber o mesmo cuidado com a sua saúde sexual? Falar de prevenção também passa por acolher desejos, dúvidas e dificuldades sem julgamentos, reconhecendo que sexualidade, prazer e qualidade de vida merecem atenção em todas as fases da vida.Dr. Vinícius Borges – CRM 202114 | RQE 76676Médico infectologista