Em um país de apostas, quando chega setembro, parece que todos os participantes dos grupos de estudo resolvem arriscar um palpite sobre o tema da redação do Enem ao mesmo tempo. O problema é que a coisa quase sempre fica no terreno da aposta, e raramente alguém acerta quando a prova chega.Para Renato Júdice, diretor pedagógico da plataforma de educação COC, esse talvez nem seja o melhor caminho. Em vez de tentar adivinhar a próxima proposta, ele sugere olhar para as questões que estão movimentando a sociedade. “A manchete envelhece rapidamente; a tensão social que existe por trás dela permanece”, afirma à CNN Brasil. Leia mais IA melhora o processo de aprendizagem ou apenas entrega respostas prontas? Privacidade é barreira ao uso de plataformas digitais em escolas Educação está atrasada frente às competências de trabalho, afirma professor Uma enchente, por exemplo, pode ser bem mais do que a notícia de um desastre: revela escolhas de planejamento urbano, desigualdade habitacional e a capacidade de resposta do poder público. É o que está por trás do noticiário, e não a manchete em si, que costuma virar proposta de redação.A lógica se repete na avaliação de Cristiane Imperador, coordenadora do 9º ano e do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo. Para a professora de Produção Textual, a redação funciona menos como exercício de escrita e mais como espaço para formar leitores do mundo e desenvolver pensamento crítico.Os dois educadores montaram suas listas separadamente, sem que um conhecesse as escolhas do outro. Ainda assim, três temas apareceram nas duas. Mais do que uma aposta, essa coincidência talvez revele quais debates estão fortes o suficiente para atravessar diferentes leituras sobre o que pode chegar à redação do Enem em 2026.Quais assuntos apareceram nas duas listas?A IA lidera as coincidências entre os educadores, do uso em sala de aula aos vieses dos sistemas • MagnificA primeira coincidência é inteligência artificial. Júdice a coloca dentro de um eixo mais amplo, de tecnologia e sociedade, ao lado de proteção de dados, economia da atenção e responsabilidade das plataformas. Cristiane sugere dois recortes diferentes: a IA na aprendizagem e os vieses dos sistemas.A segunda coincidência é inclusão. A educadora destaca os desafios de uma educação inclusiva para pessoas neurodivergentes, discussão que passa pelas diferentes formas de aprender e produzir conhecimento. Júdice amplia esse campo para outras questões, como capacitismo e desigualdades raciais, territoriais e de gênero.A terceira é a confiança na informação. Para Júdice, deepfakes e desinformação eleitoral colocam em xeque aquilo que circula, sobretudo em ano de eleição. Cristiane, por sua vez, aposta na descolonização do pensamento, conceito que questiona a dominação cultural, científica e filosófica e abre espaço para culturas e saberes que ficaram à margem.Fora desses pontos de encontro, cada um segue por caminhos próprios. Júdice acrescenta emergência climática, democracia e geopolítica, futuro do trabalho, direitos das juventudes e cultura. Cristiane inclui na lista os efeitos da cultura da velocidade sobre a atenção, o letramento de futuros — capacidade de imaginar diferentes cenários possíveis — e o papel da inteligência emocional.Onde vale aprofundar o estudo?Estudar em profundidade poucos temas rende mais do que percorrer muitos superficialmente • MagnificSe pudesse escolher, Júdice colocaria três assuntos no pódio — e o primeiro deles é a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. O tema reúne quase tudo o que atrai uma banca: é atual, urgente e afeta um grupo vulnerável. Completam o pódio a adaptação climática e a integridade da informação.O Brasil aprovou em 2025 o chamado ECA Digital, que regulamenta de forma mais específica a proteção desse público na internet, e a pesquisa TIC Kids Online Brasil apontou que 65% das crianças e adolescentes ouvidos já usavam IA generativa. “Não estamos mais discutindo se os jovens entrarão nesse mundo, mas em que condições”, resume Júdice.Outro tema que ele considera pouco explorado é o dos estudantes com altas habilidades. Para o educador, o assunto abre espaço para discutir uma dimensão da educação inclusiva que costuma receber menos atenção, e pode render questões sobre identificação desses alunos e formas de garantir que seu potencial seja desenvolvido.Cristiane, por sua vez, volta à cultura da velocidade e seus impactos sobre a capacidade de atenção e concentração. O tema abre espaço para examinar o que a aceleração da rotina e o excesso de estímulos estão fazendo com a leitura, o estudo e as relações pessoais.Seja qual for o recorte, diz a professora, o repertório é ferramenta, não enfeite. “A originalidade não está em usar uma referência nunca mencionada, mas na capacidade de estabelecer relações inesperadas, pertinentes e inteligentes entre conhecimentos diferentes”, conclui. Entre milhares de textos sobre a mesma proposta, o diferencial acaba sendo mesmo o olhar de quem escreve.*Com apuração de Maria Paula Giacomelli, em colaboração para a CNN BrasilReta final do vestibular: por que estudar mais nem sempre ajuda