A JBS está usando Florianópolis como uma das bases de sua estratégia para transformar biotecnologia em uma nova frente de negócios. O centro criado pela companhia na capital catarinense foi estruturado para pesquisar proteínas funcionais, nutrição de precisão, saúde animal e novas aplicações para matérias-primas que hoje têm menor valor dentro da cadeia de produção.Durante o Bradesco BBI Agro Summit, o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, afirmou que o projeto nasceu inicialmente a partir das pesquisas relacionadas à carne cultivada, mas avançou para uma agenda mais ampla de desenvolvimento de proteínas e ingredientes.Segundo o executivo, a companhia percebeu que o conhecimento adquirido com pesquisas sobre células, DNA e RNA poderia ser aplicado a diferentes etapas da cadeia de alimentos. Leia Mais JBS NV cria joint venture com fundo da Indonésia e aporte de US$ 2,5 bi Saiba quem é Wesley Batista Filho, novo CEO global da JBS BBI mantém recomendação para JBS com potencial de alta de 80% nas ações “Não tem nada a ver com carne. Tem a ver com proteína. Proteína cultivada. Ninguém vai conseguir fazer carne e você pode usar isso para enriquecer o seu shake, você pode usar isso numa barrinha de cereais”, afirmou Tomazoni.Valor agregado das proteínas A lógica da JBS é aumentar o valor extraído de cada matéria-prima. O executivo citou como exemplo proteínas que atualmente são destinadas à alimentação animal e que poderiam passar a ser utilizadas na produção de ingredientes com aplicações em nutrição funcional.“Como é que a gente pode pegar essas proteínas que hoje nós destinamos para ração animal e identificar nelas peptídeos ou aminoácidos que vão ajudar a gente a fazer uma alimentação de precisão?”, disse.A companhia inaugurou em abril a JBS Biotech, em Florianópolis, com mais de 4 mil metros quadrados e mais de 20 laboratórios especializados. Até o fim de 2026, o investimento previsto no centro é de US$ 37 milhões. A estrutura fica no Sapiens Parque e reúne áreas que vão da biologia molecular à engenharia, análise de dados e validação de tecnologias.A estratégia ocorre em meio a uma mudança no comportamento do consumidor, que passou a prestar mais atenção não apenas à quantidade de proteína consumida, mas também à qualidade, digestibilidade, aminoácidos e benefícios específicos associados aos alimentos.Para Tomazoni, essa transformação abre uma avenida de negócios para a indústria de proteínas. O executivo afirmou que o objetivo da JBS é desenvolver produtos que possam atender desde a alimentação convencional até aplicações de maior valor agregado, como nutrição funcional e personalizada.“Como é que a gente tira maior valor? Se eu consigo extrair maior valor daquilo que hoje eu estou dando um destino diferente daquele que eu dou hoje, permite que a gente possa ser muito mais competitivo”, afirmou.A empresa também vê espaço para transformar subprodutos e matérias-primas da cadeia de proteína em ingredientes de maior valor econômico. A estratégia, segundo Tomazoni, pode aumentar a rentabilidade da cadeia ao mesmo tempo em que cria novas opções para consumidores interessados em alimentação funcional.Da carne cultivada à biotecnologiaTomazoni disse que a pesquisa em carne cultivada teve papel importante para abrir uma nova fronteira tecnológica dentro da companhia.O executivo afirmou que o trabalho permitiu aprofundar o conhecimento sobre diferenciação celular, multiplicação de células e processos biológicos que podem ser aplicados em outras áreas.A partir daí, a JBS passou a trabalhar com diferentes plataformas, incluindo cultivo celular, fungos, bactérias e outras tecnologias em escala experimental.“Por isso, resolveu fazer um centro de biotecnologia que trabalha com fungos, trabalha com bactérias, trabalha com vírus, tudo em minifábricas, trabalha com cultivo celular, trabalha com sanidade animal”, afirmou.A unidade também deverá atuar em soluções relacionadas à produtividade da pecuária e à saúde animal, ampliando o alcance do investimento para além do desenvolvimento de alimentos destinados diretamente ao consumidor.Florianópolis como polo de inovaçãoA escolha de Florianópolis para receber o centro também está relacionada à disponibilidade de mão de obra especializada e ao ambiente de inovação da cidade.Tomazoni afirmou que não bastava instalar equipamentos de pesquisa. Para a companhia, era necessário estar próxima de profissionais capazes de desenvolver as tecnologias.“Não adianta fazer um investimento e trazer equipamentos. Nós temos hoje talvez um dos melhores centros de biotecnologia do mundo em termos de equipamentos, mas precisava trazer gente que pudesse ter conhecimento. Por isso, Florianópolis foi uma das escolhas estratégicas”, afirmou.