Inteligência artificial vai substituir empregos? Estudo revela quem já sente o impacto

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A inteligência artificial (IA) vai acabar com empregos? A resposta curta é: não em massa, pelo menos até agora. A tecnologia está sobretudo a transformar tarefas, competências e processos, mantendo-se o emprego próximo de máximos históricos nas economias desenvolvidas.Contudo, esta estabilidade esconde diferenças importantes. Os trabalhadores mais jovens, os profissionais em início de carreira e algumas funções ligadas ao desenvolvimento de software e apoio ao cliente estão entre os primeiros a sentir os efeitos.As conclusões pertencem ao estudo On the threshold: AI, the future of work and the rise of hybrid labor markets, desenvolvido pelo The Adecco Group e pela Altermind. Em suma, o que revela o estudo sobre IA e emprego?O emprego nos países da OCDE permanece próximo de máximos históricos;A IA transforma tarefas mais depressa do que elimina profissões;Cerca de 1,9 milhões de empregos ligados à IA terão sido criados entre 2023 e 2025;O emprego relativo caiu 16% entre jovens dos 22 aos 25 anos em determinadas profissões expostas;Os profissionais com competências de IA podem beneficiar de um prémio salarial de 56%;Apenas cerca de 23% das tarefas expostas são atualmente rentáveis de automatizar.A inteligência artificial está a eliminar empregos?Os dados agregados ainda não sustentam um cenário de substituição generalizada. Nos 38 países da OCDE, a taxa de emprego situa-se nos 72,1%, enquanto o desemprego permanece próximo de mínimos históricos, nos 4,9%.Uma das explicações está na diferença entre tarefas e profissões. Um emprego reúne várias atividades: algumas podem ser automatizadas, outras melhoradas com recurso à tecnologia e outras continuam a depender de julgamento, criatividade, contexto, confiança ou interação humana.Até agora, a IA tem funcionado principalmente como complemento do trabalho. Pode preparar documentos, analisar informação, identificar padrões ou executar processos repetitivos, mas a interpretação e a responsabilidade pela decisão continuam, frequentemente, nas mãos das pessoas.O papel dos profissionais está, porém, a mudar. Outro estudo concluiu que 47% já passam mais tempo a orientar e rever a IA do que a executar determinadas tarefas autonomamente.Que empregos estão mais expostos à IA?Ao contrário de anteriores vagas de automação, que atingiram sobretudo tarefas industriais e manuais, a IA generativa apresenta uma exposição mais elevada entre profissões cognitivas e qualificadas.Funções que envolvem análise estruturada de informação, produção de conteúdos padronizados, atendimento ao cliente ou programação básica podem sofrer alterações mais rápidas. Já as profissões associadas aos cuidados, serviços presenciais, trabalhos especializados e atividades realizadas em ambientes físicos continuam mais protegidas pela complexidade do contexto.Ainda assim, exposição tecnológica não significa automatização imediata. Segundo o estudo, somente cerca de 23% das tarefas expostas à IA são atualmente rentáveis de automatizar, quando considerados os custos de implementação, integração e supervisão.Leia também: IA para procurar emprego já não é tabu e 80% dos empregadores portugueses aceitam Porque estão os jovens a sentir primeiro o impacto?Nos Estados Unidos, o emprego relativo entre profissionais dos 22 aos 25 anos caiu 16% em determinadas profissões expostas à IA desde o final de 2022, particularmente no desenvolvimento de software e no apoio ao cliente.Dados empresariais citados no relatório indicam igualmente que os salários iniciais diminuíram 6,3% entre as contratações juniores e 5,9% nos níveis intermédios nas empresas mais expostas à tecnologia. Entre os profissionais seniores, os salários permaneceram estáveis.Parte da explicação poderá estar nas tarefas atribuídas aos trabalhadores em início de carreira. Pesquisa, síntese de informação, produção de documentos, programação básica e apoio administrativo estão entre as atividades que podem ser realizadas mais rapidamente com IA.O risco não passa apenas pela eliminação de posições. Se as empresas automatizarem as tarefas através das quais os jovens aprendem, podem também enfraquecer os percursos que permitem adquirir experiência e progredir profissionalmente. A utilização da IA no recrutamento e na procura de emprego exige, por isso, novos modelos de integração, acompanhamento e mentoria. IA terá ajudado a criar 1,9 milhões de empregosA transformação tecnológica não está apenas a eliminar ou alterar tarefas. Também está a criar novas oportunidades. Dados do LinkedIn citados no relatório sugerem que, entre 2023 e 2025, a IA terá contribuído para gerar aproximadamente 1,3 milhões de empregos diretos e 600 mil indiretos.Estes valores não representam um saldo líquido global entre empregos criados e eliminados. Demonstram, contudo, o aparecimento de atividades relacionadas com o desenvolvimento, implementação, supervisão, segurança e integração dos sistemas.A escassez destas competências já se reflete nos salários. Uma análise da PwC, baseada em quase mil milhões de anúncios de emprego, estima um prémio salarial de 56% para profissionais com competências de IA, mais do dobro do observado no ano anterior.Esta valorização não se limita ao domínio técnico. Ética, comunicação, criatividade, adaptabilidade e pensamento crítico estão entre as competências humanas mais valorizadas pelas empresas.Porque algumas empresas conseguem ganhar mais com a IAUma investigação citada no estudo encontrou uma associação entre maior adoção de IA e resultados empresariais superiores: 12% mais produtividade, 31% mais vendas, 42% mais lucros e 11% mais remuneração média.Os próprios autores alertam que estes resultados representam associações, não uma relação causal comprovada. As empresas maiores, mais produtivas e com trabalhadores mais qualificados também tendem a adotar tecnologia mais cedo.O relatório deixa, ainda assim, uma mensagem clara: comprar ferramentas não chega. As organizações que conseguem gerar valor são as que apostam em redesenhar processos e modelos de trabalho, definindo que tarefas devem pertencer às pessoas, à IA ou a uma combinação das duas.Como devem as empresas preparar-se?O estudo antecipa um mercado de trabalho formado por pessoas, agentes digitais, sistemas automatizados e robôs. Neste novo modelo, o planeamento deixa de começar pela pergunta «quantas pessoas são necessárias?» e passa a perguntar «que trabalho precisa de ser realizado e qual é a melhor combinação de pessoas, competências e tecnologia?».As empresas terão de:Analisar as funções ao nível das tarefas;Criar mecanismos de supervisão humana;Investir em requalificação e mobilidade interna;Proteger as oportunidades de aprendizagem dos profissionais juniores;Avaliar o retorno efetivo da tecnologia;Garantir segurança, transparência e responsabilidade.A aprendizagem e a capacidade de adaptação tornam-se, assim, elementos centrais da empregabilidade. A IA poderá não estar a acabar com o trabalho, mas já está a pôr em causa carreiras lineares, descrições rígidas de funções e organizações que não conseguem evoluir. O maior risco identificado pelo estudo não é uma substituição imediata das pessoas pelas máquinas. É a incapacidade das empresas para reorganizarem o trabalho enquanto a tecnologia continua a avançar.O conteúdo Inteligência artificial vai substituir empregos? Estudo revela quem já sente o impacto aparece primeiro em Revista Líder.