‘Ost gegen West?’ A extrema-direita vence no Leste e a esquerda patriótica reaparece na Alemanha

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A Alternative für Deutschland (AfD) conquistou 43,8% dos votos nas eleições de domingo, mais do que duplicando o resultado obtido em 2021 e ficando apenas a três lugares da maioria absoluta no parlamento regional, num resultado que constitui a maior vitória de sempre do partido num estado alemão e o coloca, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, diante da possibilidade concreta de participar na governação de um Land. A CDU do chanceler Friedrich Merz, pelo contrário, caiu para 16,9%, depois de ter conquistado 37,1% há cinco anos, enquanto SPD, Verdes e Die Linke ficaram todos abaixo dos 10%.A vitória que mudou o mapa políticoO número mais importante, porém, talvez não seja sequer os 43,8% da AfD. É a distância que passou a existir entre a primeira força política e todas as outras. A CDU, que governava a Saxónia-Anhalt e durante anos representou a ideia de estabilidade naquele estado, perdeu mais de metade do seu eleitorado; a social-democracia sobreviveu com 9,1%; os Verdes chegaram aos 8,8%; a Linke ficou nos 8,4%. E, no meio desta fragmentação, uma pequena formação criada por uma mulher que abandonou a esquerda tradicional alemã encontrou novamente espaço para entrar no parlamento: o Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW) obteve 5,2%.É aqui que a história se torna mais interessante. Porque a eleição da Saxónia-Anhalt conta a história de uma Alemanha em que o protesto contra o centro político está a ser disputado por duas forças que, embora colocadas em extremos diferentes do espectro ideológico, partilham algumas das mesmas perguntas: quem beneficia da globalização? Quem controla as fronteiras? Até onde deve ir a Alemanha na guerra da Ucrânia? O que aconteceu às comunidades que perderam população, indústria e jovens? E, talvez acima de tudo, quem fala ainda pelos alemães que sentem que o país mudou demasiado depressa e que eles próprios ficaram para trás?O Leste que nunca deixou de ser diferenteO resultado da AfD é, por isso, inseparável do lugar onde aconteceu. A Saxónia-Anhalt pertence à antiga Alemanha de Leste, a República Democrática Alemã que desapareceu em 1990 e cuja integração na República Federal continua, 36 anos depois, a deixar marcas que não cabem numa simples comparação entre salários ou taxas de desemprego.A economia do Leste aproximou-se substancialmente da do Oeste desde a reunificação, mas as diferenças permanecem. A região continua a sofrer com o envelhecimento populacional, a saída dos jovens, a escassez de trabalhadores e níveis de rendimento e produtividade inferiores aos do Oeste. Na Saxónia-Anhalt, a proporção de pessoas em idade de reforma é uma das mais elevadas do país; a perda demográfica não é uma abstração estatística, mas uma experiência quotidiana em localidades onde escolas fecham, serviços desaparecem e os jovens partem para Berlim, Hamburgo, Munique ou para o estrangeiro. A Reuters descreveu precisamente esta combinação de declínio demográfico, escassez de mão de obra e sentimento persistente de abandono como uma das razões que ajudam a explicar a força da AfD no Leste.No Oeste, a AfD também cresce. Mas cresce sobre um terreno diferente. Ali, a imigração, a segurança, a insatisfação com o Governo e a erosão do poder de compra têm um peso considerável, enquanto no Leste estas questões se cruzam com uma memória histórica específica: a sensação de que a reunificação foi, para muitos, menos uma fusão entre iguais do que uma transformação em que instituições, elites e modelos económicos do Oeste foram simplesmente transplantados para territórios que tiveram de aprender a viver dentro de uma nova Alemanha. O Leste não se vê necessariamente como uma região pobre da Alemanha, mas muitas vezes como uma região que ainda não é plenamente reconhecida pelo próprio país.Como a AfD transformou ressentimento em votosÉ nesse espaço de ressentimento que a AfD construiu uma máquina política extraordinariamente eficaz. O partido, criado em 2013, começou como uma força eurocéptica e transformou-se progressivamente num movimento nacionalista e anti-imigração, endurecendo o discurso sobre identidade, fronteiras e cultura e apresentando-se como a única alternativa aos partidos que, segundo a sua própria narrativa, governaram a Alemanha durante demasiado tempo sem resolver os problemas fundamentais do país. A estrutura regional da AfD na Saxónia-Anhalt está classificada pelas autoridades de segurança alemãs como de extrema-direita, e o partido continua isolado pelo chamado ‘Brandmauer’, o cordão sanitário que impede CDU, SPD, Verdes e Linke de formarem governos com ele. O sucesso eleitoral nasceu também da capacidade de transformar a frustração em proximidade. Ulrich Siegmund, o candidato da AfD, 35 anos, construiu uma imagem mais sorridente e acessível do que aquela habitualmente associada às figuras nacionais mais polémicas do partido, combinando uma presença forte nas redes sociais com uma campanha profundamente local e uma mensagem simples: a Alemanha precisa de mudança, as elites falharam e os alemães devem voltar a sentir que o país lhes pertence. A estratégia permitiu-lhe apresentar a AfD como uma força de protesto e de governo. O próprio Siegmund declarou que o resultado representava um «novo começo» e apresentou a eleição regional como um primeiro passo para a conquista do poder nacional em 2029.A campanha incluiu propostas para restringir fortemente a imigração, alterar políticas culturais e educativas, limitar a presença de símbolos LGBT nas escolas, reforçar uma identidade nacional alemã e reduzir o apoio às energias renováveis, ao mesmo tempo que defende uma mudança profunda na relação com a Rússia e o fim do apoio militar à Ucrânia.A Rússia como nova linha de fraturaA Rússia, aliás, é outra das linhas que separam o Leste do Oeste. Na antiga Alemanha de Leste existe uma relação histórica com Moscovo que não desapareceu completamente com o fim da RDA. Décadas de presença soviética produziram, em parte da população, uma familiaridade que não corresponde necessariamente a simpatia pelo regime russo, mas que pode traduzir-se numa menor disposição para aceitar a ideia de que a Rússia é simplesmente um inimigo que deve ser enfrentado. A Reuters encontrou, antes das eleições, eleitores que descreviam precisamente essa diferença: para uma parte do Leste, a questão não é ser «pró-Rússia», mas não querer uma política baseada na confrontação permanente.É uma posição que colide frontalmente com a estratégia de Friedrich Merz, que tem defendido uma Alemanha mais musculada militarmente e um reforço do apoio europeu à Ucrânia.E então reaparece Sahra WagenknechtE é aqui que entra Sahra Wagenknecht. Durante muito tempo, a esquerda alemã pareceu ter perdido a capacidade de falar para este eleitorado. Wagenknecht percebeu que existia um espaço político entre a esquerda cosmopolita e a direita nacionalista e tentou ocupá-lo com uma combinação pouco habitual: defesa do Estado social, crítica ao capitalismo e à desigualdade, oposição a uma imigração que considera excessiva, defesa de uma política económica mais protecionista e oposição ao apoio militar à Ucrânia.O BSW é, neste sentido, uma espécie de esquerda patriótica, embora a expressão seja deliberadamente desconfortável para uma tradição política alemã que durante décadas associou patriotismo e nacionalismo a memórias particularmente pesadas. A sua entrada no parlamento da Saxónia-Anhalt, com 5,2%, é pequena em termos eleitorais, mas pode tornar-se enorme em termos políticos porque a AfD conquistou 39 dos 83 lugares e precisa de parceiros para governar.O paradoxo é quase perfeito: a extrema-direita venceu, mas pode precisar de uma formação de esquerda para chegar ao poder.O Der Spiegel já tinha identificado este problema antes das eleições, questionando se o BSW poderia transformar-se na Königsmacherin, a «fazedora de reis» da Saxónia-Anhalt, caso conseguisse ultrapassar a barreira dos 5%.A ‘Brandmauer’ está a ser testadaPor agora, a situação continua aberta. A AfD não tem maioria absoluta e a CDU rejeita oficialmente qualquer cooperação. Merz reafirmou a Brandmauer, enquanto os restantes partidos procuram uma fórmula que impeça a extrema-direita de chegar ao Governo regional. A própria AfD, contudo, já começou a pressionar os conservadores e a procurar uma solução que lhe permita transformar os 43,8% dos votos em poder executivo.O mais importante é que o problema já deixou de ser exclusivamente regional. A AfD é actualmente a força mais popular nas sondagens nacionais, com cerca de 28%, e a CDU encontra-se muito atrás. A eleição da Saxónia-Anhalt surge, portanto, como uma espécie de ensaio geral para aquilo que poderá acontecer nas eleições federais de 2029: uma direita radical já não confinada ao protesto, mas suficientemente forte para disputar o centro do poder, obrigando os conservadores a escolher entre manter o cordão sanitário ou começar a negociar com uma força que durante anos prometeram manter fora das instituições de Governo.Uma Alemanha diferente à atenção da EuropaÉ também por isso que o resultado interessa tanto ao resto da Europa. Uma Alemanha politicamente instável é uma Alemanha diferente daquela que durante décadas funcionou como âncora do projecto europeu. A AfD defende uma relação diferente com a União Europeia, uma aproximação à Rússia e uma política migratória muito mais restritiva, e a sua ascensão acontece num momento em que a Alemanha tenta simultaneamente recuperar a economia, financiar uma enorme modernização das infraestruturas e aumentar a despesa militar. A Reuters alertou já para o risco económico de longo prazo de uma AfD cada vez mais forte, sobretudo se a incerteza política começar a afectar investimento e confiança empresarial.Mas reduzir tudo isto a uma revolta dos «perdedores da globalização» seria demasiado fácil.A participação eleitoral subiu para 74,2%, quase 14 pontos acima de 2021. Isso significa que não estamos perante uma eleição determinada apenas por uma minoria radical mobilizada enquanto o resto da população fica em casa. Na verdade, mais eleitores foram votar e uma parcela muito significativa escolheu a AfD.O fim da velha Alemanha política?É essa normalização que talvez seja a verdadeira notícia. Durante décadas, a política alemã assentou numa espécie de acordo implícito: depois do nazismo, certas fronteiras políticas não seriam ultrapassadas; depois da reunificação, a integração europeia e a estabilidade económica seriam os grandes consensos; depois da Guerra Fria, a Alemanha procuraria equilibrar o seu peso económico com uma certa contenção política. Esse mundo está a desaparecer. Esse fim, levanta uma questão: o que acontece quando uma parte cada vez maior dos alemães deixa de considerar que os partidos tradicionais representam o futuro e começa a procurar, à direita ou à esquerda, forças que prometem devolver-lhes uma sensação de controlo sobre o próprio país?No Leste, essa procura encontrou a AfD e, em menor escala, o BSW. No Oeste, a mesma insatisfação começa também a ganhar terreno, embora ainda encontre barreiras políticas e culturais mais fortes. A diferença entre as duas Alemanhas permanece, mas está a a mudar de natureza. A experiência histórica continua a pesar, mas a fractura política alemã também se alimenta de uma divergência mais contemporânea: entre quem vê a abertura ao mundo como condição para o futuro do país e quem sente que, nesse processo, a Alemanha perdeu demasiado da identidade, segurança, controlo e a sensação de ser escutado.«Ost gegen West?» Talvez não seja exactamente isso. Leste e Oeste começam, por razões diferentes, a fazer a mesma pergunta. Quanto tempo mais será possível governar como se nada tivesse mudado?O conteúdo ‘Ost gegen West?’ A extrema-direita vence no Leste e a esquerda patriótica reaparece na Alemanha aparece primeiro em Revista Líder.