Como startups de saúde estão competindo diretamente com planos tradicionais no Brasil

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StartupiComo startups de saúde estão competindo diretamente com planos tradicionais no BrasilCom aumentos anuais superiores a 10% e a inteligência artificial quebrando barreiras de custos fixos, as operadoras de planos de saúde tradicionais começam a enfrentar um novo tipo de concorrência: as healthtechs que replicam o modelo dos “Planos Alternativos de Saúde” (AHPs) americanos. Em um cenário onde os planos coletivos empresariais cobrem aproximadamente 50 milhões de pessoas no Brasil e o aumento dos custos com saúde é de 2 a 3 vezes superior à inflação, startups de atenção primária estão reformulando a forma de oferecer cobertura corporativa, trocando a lógica de financiamento e gestão de sinistros por prevenção e monitoramento constante.________________O tema das AHPs é o foco da matéria especial “A revolução silenciosa dos planos de saúde: por que o mercado corporativo está prestes a trocar os gigantes de sempre“, publicada na Gazeta Mercantil Digital (GZM) e que você pode acessar clicando aqui._________________Mas, o que nos distingue não é apenas a tecnologia, é também a estrutura. E ao invés de contar com um grande grupo de segurados para cobrir os custos elevados de alguns, os planos de saúde tradicionais funcionam usam um modelo em que todos pagam para que alguns não precisem. Já as healthtechs, por outro lado, se concentram em manter seus membros saudáveis desde o começo, em um modelo que busca diminuir os custos operacionais, personalizando o atendimento e, principalmente, proporcionando ao beneficiário uma experiência totalmente distinta daquela oferecida pelos planos tradicionais. A questão que atualmente impulsiona o mercado é: quanto tempo essas empresas desafiadoras levarão para conquistar uma parte considerável do mercado corporativo?Um modelo de escala aceleradaA Alice Saúde é um exemplo dessa transformação. A operadora, que foi criada há pouco mais de dez anos com o objetivo de reinventar a atenção primária, viu seu número de membros aumentar de 674 em dezembro de 2020 para cerca de 10 mil em 2022. O CEO e cofundador, André Florence, organizou o modelo em quatro pilares: ênfase na atenção primária e na coordenação do cuidado, monitoramento detalhado de todas as necessidades de saúde do cliente, uso extensivo de tecnologia e pagamento aos prestadores com base na satisfação do cliente e nos resultados clínicos obtidos. “Nosso objetivo é tornar a saúde mais humana e eficiente para nossos membros”, declarou o executivo em reportagem ao portal Estadão. O resultado: 75% dos atendimentos da Alice são digitais, com custo por vida estimado em 30% a 50% menor que o de planos tradicionais.Já na Sami Saúde, que pode ser considerada outra referência e que teve início em 2018 com uma proposta voltada para uma plataforma digital integrada que já conta com mais de 10 mil beneficiários, a inovação reside no modelo de “Time de Saúde” como porta de entrada única, que classifica casos com apoio de inteligência artificial antes de encaminhar para especialistas. Mais de 75% dos clientes que contrataram seus serviços não possuíam plano de saúde antes, segundo dados da empresa, um indicativo de que as healthtechs estão atraindo exatamente aqueles que deixaram o modelo tradicional devido a custos ou insatisfação.Outro exemplo é a Cuidas, que obteve investimentos da SoftBank e da GFC Global e que foca exclusivamente na atenção primária à saúde no setor corporativo. O investimento por vida é de 5% a 20% do custo de um plano tradicional, garantindo cobertura total sem abrir mão da qualidade. Os fundadores, Deborah Alves, João Henrique Vogel e Matheus Silva, criaram a solução após analisar modelos de países que possuem sistemas de saúde bem equilibrados. E o acompanhamento a longo prazo foi idealizado para compreender o contexto pessoal de cada colaborador e sugerir mudanças de hábitos, minimizando desperdícios no sistema.João Henrique Vogel, Matheus Silva e Deborah Alves, fundadores da startup de saúde Cuidas: “Por meio da atenção primária, conseguimos ensinar nossos clientes a utilizarem de maneira correta o plano de saúde, evitando os desperdícios tradicionais do mercado”, diz João Henrique Vogel, CEO da empresa.O ecossistema que se desenvolve nas lacunas do modelo tradicionalDe acordo um levantamento feito por duas instituições conectadas com o ecossistema, a Liga Ventures e a Unimed Fesp, o cenário atual das startups do setor no Brasil conta com 536 empresas de saúde em operação, categorizadas em 35 tipos diferentes. As subcategorias que se destacam são bem-estar físico e mental (10%), planos e financiamentos (10%), buscadores e agendamentos (8%) e inteligência de dados (8%). A Telemedicina é a tecnologia que mais se aplica (23%), seguido de Data Analytics (22%) e Inteligência Artificial (17%). Esses números indicam a maturidade do ecossistema, mas a presença geográfica ainda é bastante marcante no Sudeste: 38% das healthtechs ativas estão em São Paulo, com Rio de Janeiro e Belo Horizonte (7% cada) logo em seguida.E não é apenas uma questão de quantidade. A qualidade dos financiamentos é outro indicativo de que o setor está amadurecendo: em 2023-2024, foram 83 transações que totalizaram cerca de R$ 1 bilhão em investimentos em saúde. Fundos de investimento renomados, como Goldman Sachs, General Atlantic e Softbank, estão participando de rodadas de financiamento da série A e B, o que indica que o mercado acredita na possibilidade de que operações digitais-first substituam completamente setores inteiros do modelo tradicional.Por que motivo agora?O momento não é por acaso. De acordo com a matéria apontada como referência e publicada pela GZM, três fatores estão convergindo: a economia do benefício em um limite insustentável, a crescente exigência de experiência do consumidor e a IA que está derrubando barreiras de custos fixos em subscrição, análise de sinistros e navegação de cuidado. Em terras brasileiras, um quarto fator se intensifica: a judicialização e a rápida adoção de tecnologias caras por parte das operadoras tradicionais aumentam a sinistralidade, permitindo a entrada de novos concorrentes mais eficientes.É o caso da Pipo Saúde, uma corretora digital de nova geração, que apresenta uma perspectiva diferente: ao invés de atuar como uma operadora, ela fornece tecnologia para que empresas e departamentos de recursos humanos possam reformular a escolha de planos de saúde. A inteligência de dados da Pipo possibilita que uma empresa compare não apenas os preços, mas também o custo total de cuidados, saúde mental, prevenção e a satisfação dos beneficiários, métricas que, historicamente, permaneciam ocultas durante as negociações. E isso tem gerado pressão de mercado, mas também regulatória, sobre as operadoras que ainda não são transparentes em sua gestão.Ainda assim, existem limites estruturais (por enquanto)A GZM traz a informação de que a mutualidade é a dúvida que rondava o modelo americano (e agora o brasileiro também). Uma healthtech que atende 300 beneficiários não possui massa crítica suficiente para lidar com um caso sério: se um membro sofrer um acidente grave e precisa de cuidados intensivos por um longo período, o reajuste será extremamente alto, já que o custo será distribuído entre um número reduzido de pessoas. E é buscando alternativas para este desafio que as healthtechs brasileiras estão buscando organizar os conjuntos de risco, resseguros ou colaborações com operadoras maiores para endereçar as eventuais distorções. Um dos exemplos é a Nilo Saúde, que levantou R$ 55 milhões em uma rodada série A e que encontrou uma solução parcial para o problema ao disponibilizar um software que possibilita a qualquer participante do setor de saúde (como clínicas, redes e operadoras tradicionais) estabelecer divisões de atendimento digital contínuo. Em vez de competir como uma operadora pura, a empresa capacita os players já estabelecidos a se modernizarem. Entre os clientes estão o Grupo NotreDame Intermédica, a Porto e a Leve Saúde.A perspectiva de 2026 para o diretor de RHApesar de informações e resultados já consistentes, a transformação que estamos presenciando não é gradual, mas sim disruptiva. Nos próximos anos, qualquer executivo de RH que esteja lidando com a negociação de planos de saúde corporativos terá que escolher entre três opções: (1) continuar com uma operadora tradicional e exigir inovações na atenção primária e na gestão de dados; (2) fazer a migração para uma healthtech pura, aceitando uma menor escala, mas ganhando mais controle sobre o custo total e a experiência; ou (3) adotar um modelo híbrido que combine telemedicina e atenção primária por meio de uma healthtech com uma rede de especialistas e hospitais operando através de uma operadora. Cada decisão implica compromissos, mas a vantagem competitiva se inclinará cada vez mais para aqueles que optarem por monitorar, e não apenas financiar, a saúde de seus colaboradores. Nesse cenário, o Brasil parece que se encontra em uma situação favorável: segue a mesma lógica dos Estados Unidos, mas pode tirar lições dos erros dos grandes. E a próxima fase pode ser de consolidação, com fusões entre healthtechs, investimentos de private equity e uma regulação mais clara da ANS sobre operadoras digitais, o que irá determinar se essas startups continuarão a ser segmentos especializados ou se realmente se transformarão em uma indústria paralela que impulsiona a transformação das empresas tradicionais do setor. Mesmo parecendo um grande desafio, os desafiantes nunca estiveram numa posição tão favorável. E as respostas devem chegar rápidas, pois o próximo round já começou.O post Como startups de saúde estão competindo diretamente com planos tradicionais no Brasil aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Almir JuccaO post Como startups de saúde estão competindo diretamente com planos tradicionais no Brasil apareceu primeiro em Startupi.