Os reflexos da ascensão da direita na América Latina na eleição do Brasil

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A ascensão da direita na América Latina nos últimos anos criou um novo ambiente político na região e colocou pautas como segurança pública, combate ao crime organizado e defesa de valores conservadores no centro do debate eleitoral.No Brasil, esse movimento pode influenciar a disputa de 2026, mas não significa uma transferência automática de votos.Atualmente, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru são governados por líderes de direita, centro-direita ou extrema-direita. Juntos, esses países representam cerca de 58,3% da população sul-americana.Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em América Latina, o avanço da direita está relacionado ao esgotamento da capacidade dos governos tradicionais de responder às demandas sociais e econômicas.“É muito natural a gente ver alternância de poder, ideológica, e isso acontece quando as demandas socioeconômicas são acumuladas”, afirma.PautasFim do ciclo das commodities, pandemia e desindustrialização ampliaram a crise de representatividade na América Latina;Segurança pública e combate ao crime organizado ganharam força e impulsionaram líderes como Bukele e Noboa;Vitórias da direita vizinha influenciam mais o discurso político do que o comportamento direto do eleitor brasileiro;No Brasil, pautas conservadoras podem ganhar força, mas fatores internos devem pesar mais na eleição de 2026.Crise econômica e de representatividadeSegundo Bressan, o fim do ciclo das commodities, que beneficiou países como Brasil e Venezuela no início do século, reduziu a capacidade dos governos de promover crescimento e redistribuição de renda. O cenário foi agravado pela pandemia e por um processo de desindustrialização em parte da região.O resultado, avalia a professora, foi uma crise de representatividade dos partidos tradicionais, considerados incapazes de oferecer respostas para a estagnação econômica.Ao mesmo tempo, a violência passou a ocupar espaço central no debate político. “O que mais está contando, assim, na América Latina no geral, é os índices de violência. Então, violência urbana”, diz.Quadro atual na América do Sul:Bukele vira referênciaO combate ao crime se tornou uma das principais bandeiras de líderes conservadores. Em El Salvador, na América Central, Nayib Bukele consolidou sua popularidade com uma política de encarceramento em massa e repressão às gangues. No Equador, Daniel Noboa também adotou uma postura de endurecimento contra organizações criminosas.Para Bressan, esse tipo de experiência pode influenciar o debate brasileiro, principalmente pela sensação de insegurança vivida pela população.“A questão da securitização da ordem pública, a questão da segurança e o combate à criminalidade” são, segundo ela, algumas das pautas com maior potencial de repercussão no Brasil.A influência, porém, não ocorre pela simples transferência do eleitorado de um país para outro. “A influência direta dos pleitos dos vizinhos tem um alcance muito limitado”, afirma.Influência é mais discursivaNa avaliação da especialista, o principal efeito das vitórias da direita na região é a legitimação de determinados discursos. O sucesso de líderes como Bukele e Javier Milei, na Argentina, demonstra a viabilidade eleitoral de propostas conservadoras e pode estimular candidatos brasileiros a adotarem estratégias semelhantes.“Não existe uma influência tão direta, mas eu poderia dizer que a influência vai acontecer na medida em que existe a legitimação do discurso”, explica.Essa influência também não significa que exista uma onda homogênea de direita na América Latina. Cada país enfrenta problemas próprios.Na Bolívia, por exemplo, a eleição de Rodrigo Paz em 2025 representou uma ruptura com quase duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), mas não reproduziu necessariamente a mesma guinada conservadora observada em outros países.Brasil tem dinâmica própriaPara Bressan, o cenário regional pode favorecer candidatos brasileiros alinhados ao bolsonarismo ao fortalecer pautas conservadoras, mas há limites para esse efeito.“Existem forças dentro do território que estão subordinadas à nossa conjuntura macroeconômica, à governabilidade legislativa e à própria capacidade de atração dos extratos eleitorais mais moderados”, afirma.A existência de programas abrangentes de transferência de renda também dá maior resiliência aos governos brasileiros, segundo a professora.Assim, a experiência dos países vizinhos deve funcionar mais como referência para discursos e estratégias eleitorais do que como um fator capaz de determinar o voto brasileiro.Em 2026, segurança, economia e valores conservadores podem ganhar força com o respaldo de experiências regionais, mas o resultado dependerá, sobretudo, das condições políticas e econômicas internas.