Pastor, padre, mãe de santo e missionário são termos que, em 2026, aparecerão menos nas urnas. O número de candidatos que usam títulos religiosos no nome de urna caiu no Distrito Federal: são 17 candidaturas neste ano, contra 23, em 2022.Ter um título religioso no nome de urna, porém, não significa que a atividade religiosa seja a ocupação principal do candidato. Das 17 candidaturas do DF que adotam títulos religiosos em 2026, apenas quatro declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a atividade religiosa como profissão. As demais informaram outras profissões, como empresário, recepcionista e psicólogo, embora também atuem como lideranças religiosas. Em 2022, a proporção era ainda menor: só três dos 23 candidatos com título religioso tinham a atividade como ocupação principal.Entenda o porquêA queda não é um fenômeno isolado do Distrito Federal: no Brasil inteiro, o número de candidatos com termos religiosos no nome de urna recuou 42%. Para Matheus Pestana, cientista político e pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER), ainda é cedo para apontar uma causa única. Para ele, o fenômeno tem várias explicações possíveis e é tema de debate há anos. Uma das hipóteses é a de que os candidatos estejam mudando de estratégia eleitoral.“Talvez o título religioso tenha sido muito importante para determinados candidatos, em momentos de expansão e consolidação das suas bases. Mas pode deixar de ser considerado necessário quando aquela liderança já possui o reconhecimento público ou quando a sua campanha já é focada no público religioso”, disse.Para Pestana, a decisão também pode vir do interesse em ampliar o número de votos, buscando aceitação de diferentes grupos de eleitores. “Eu suspeito que seja por uma estratégia de maximização de votos. Por vezes a pessoa vê que o candidato coloca o nome de pastor e talvez não vote. Se não tem pastor, mas ele concorda com as ideias, ainda que a pessoa seja pastora, o eleitor pode fazer esse cálculo racional”, afirmou.Já para Christina Vital, professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense e coordenadora do LePar/UFF, os números não revelam, por si só, que a identidade religiosa perdeu relevância eleitoral. Segundo ela, usar a identidade religiosa como chamariz eleitoral não é mais novidade, e isso ajuda a explicar por que o recurso perdeu força com o tempo. A professora aponta, ainda, outros fatores por trás da queda, como o crescimento de candidatos ligados a outras pautas, caso da Segurança Pública e Justiça.“Outra questão diz respeito ao cansaço em torno do debate política e religião exaurindo, principalmente, a relação de evangélicos neste ambiente, que eram os que mais propagavam essa identidade religiosa nas campanhas em relação a católicos e afro religiosos, por exemplo. Foi deixando de ser tão estratégico, nesse sentido. Outro elemento é que no debate público, a questão da segurança foi se tornando cada vez mais presente e a identidade laboral das áreas de sistema de justiça e segurança cresceram, sobretudo desde 2018”, explicou.Já o cientista político Leandro Gabiati afirma que o uso do cargo religioso no nome de urna funciona como um sinal para o eleitor, e que não usá-lo também comunica algo. A decisão não é aleatória e pode ter relação com o capital político do candidato, ou seja, com a reputação e a confiança popular que ele já detém independentemente do título religioso.“Estudos sobre candidaturas evangélicas mostram exatamente essa função de sinalização ao eleitor. A decisão de não usar o título, por outro lado, pode sinalizar uma de duas coisas: ou o candidato já detém um capital político suficiente por outras vias, como mandato prévio, notoriedade midiática, sobrenome de família política, e não precisa do título identitário; ou ele calcula que o rótulo religioso pode limitar seu apelo a um espectro menor do eleitorado, restringindo-o a um nicho específico. Ou seja, a referência religiosa pode ser uma estratégia com retorno garantido, mas também com teto de crescimento”, afirmou o cientista. SubnotificaçãoOs números levantados a partir dos dados do TSE captam apenas a superfície. Segundo Pestana, a presença da religião na política vai muito além do nome de urna, e muitas vezes de forma sutil, uma vez que a força eleitoral das igrejas não depende diretamente de quantos candidatos se apresentam publicamente como lideranças religiosas.“A gente tem menos candidatos explicitamente religiosos, apontados diretamente pela igreja, mas ao mesmo tempo a gente tem uma maior eficácia política dessas igrejas. O contrário também é verdade, né? Muitos membros das comunidades religiosas podem concorrer individualmente, óbvio, né, sem que exista uma estratégia institucional das suas igrejas por trás dessas candidaturas”, explicou.Para Christina Vital, essa lacuna nos números é, em parte, uma escolha estratégica dos próprios candidatos e instituições.“Um elemento fora desse radar é que candidaturas religiosas são realmente muito mais numerosas do que são possíveis de serem contabilizadas por nome de urna. E as instituições evangélicas, algumas delas, investem pesado em nomes que são trabalhadas na base como religiosas, em eventos públicos de campanha, mas que não exigem essa identificação pública atraindo um eleitorado não necessariamente religioso. Assim, as instituições fortalecem a dimensão religiosa de seus candidatos estrategicamente quando lhes interessa, junto a suas bases, e podem angariar votos na sociedade mais ampla através da produção de outras identificações em torno de seus candidatos preferenciais”, afirmou.Os números reforçam essa leitura: a proporção de candidaturas com título religioso no nome de urna não mudou entre as duas eleições — 2,57% do total de candidaturas no Distrito Federal, tanto em 2022 quanto em 2026. A queda no número absoluto acompanha, na verdade, a redução geral de candidaturas no período.Para Leandro Gabiati, essa estabilidade na proporção é reveladora: mesmo com menos candidatos usando títulos religiosos, isso não significa um recuo da identificação religiosa como estratégia eleitoral, ela permanece presente, ainda que por outros caminhos.“Não houve uma retração relativa desse tipo de candidatura. Em outras palavras, podemos concluir que há menos candidatos religiosos com título na urna porque há menos candidatos em geral, e não porque essa forma de identificação perdeu espaço dentro da oferta eleitoral”, disse. Leia também Distrito FederalEleições 2026: veja propostas dos candidatos ao GDF para proteger mulheres Distrito FederalIgape/Record: veja pesquisa de intenção de voto para deputado federal no DF Distrito FederalMenos mulheres na política: candidaturas femininas caem 26,9% no DF Evangélicos são a maioria dentre as candidaturas religiosasSegundo Christina Vital, os evangélicos usam mais a identidade religiosa como nome de urna porque, historicamente, se posicionam como um movimento “desafiante” diante de uma suposta hegemonia católica, e isso também pode estar ligado a um interesse institucional.“Devemos entender que instituições evangélicas são interessadas na eleição de candidatos próprios que vão conseguir benefícios políticos junto ao poder público. A Igreja Católica não precisa pleitear isso nessa mesma medida. Em primeiro lugar, porque já foi grandemente beneficiada pelo Estado e, em segundo, porque faz acordos entre Estados, como no caso Brasil Santa Sé. A eleição de parlamentares católicos é grande e a militância parlamentar deles tem aumentado, mas ocorre mais em um plano cultural do que institucional”, afirmou.Já para Leandro Gabiati, a presença histórica de nomes evangélicos nas urnas está ligada à expansão evangélica na política, que passou por várias etapas dentro do jogo político brasileiro até ser incorporada de vez.Os dados permitem falar em estabilização do uso explícito da identidade religiosa no nome de urna no DF, mas não necessariamente em estabilização da influência política evangélica. “Importante destacar que são coisas diferentes. A expansão evangélica na política brasileira já passou por várias etapas: crescimento demográfico, organização institucional das igrejas, lançamento de candidaturas, formação de bancadas e incorporação de pautas religiosas por candidatos que nem sequer são lideranças religiosas”.“Podemos apontar que a religião esteja se tornando menos dependente do título eclesiástico para exercer influência eleitoral. Estudos sobre campanhas mostram, por exemplo, que referências a Deus, Bíblia e valores religiosos aparecem também fora das candidaturas formalmente apresentadas como ‘pastor’”, explicou.