As férias de fim de ano se aproximam e, com elas, cresce o número de famílias que decidem levar seu cachorro ou gato para a viagem.Porém, essa decisão não está isenta de riscos: viagens mal planejadas estão entre as principais causas de crises de ansiedade, enjoo, fuga e até quadros graves de hipertermia em pets. Leia mais Como o olfato canino é tão aguçado? Confira os pontos mais importantes sobre o olfato nos cães e se surpreenda Você não pode tratar o cachorro da mesma maneira que um gato: médica veterinária explica o perigo de achar que ambos são iguais Pizza e cerveja para cachorro? Conheça o mercado de rua que virou febre em Londres Para orientar tutores sobre o que realmente importa antes de colocar o animal no carro ou embarcar com ele em um avião, a CNN Brasil ouviu três médicos-veterinários especializados no tema.Planejamento começa semanas antes, não na vésperaO primeiro erro comum, segundo os especialistas, é tratar a viagem como um evento de última hora. O médico-veterinário Carlos Rabelo defende que o processo de habituação do animal à caixa de transporte e ao veículo precisa começar com antecedência, para que esses elementos sejam associados à segurança, e não à punição.Ainda segundo ele, também é essencial mapear a rota da viagem e ter à mão contatos de clínicas veterinárias de plantão no destino, além de atualizar o controle de pulgas, carrapatos e vermífugos conforme as doenças endêmicas da região visitada, como a leishmaniose ou a dirofilariose, conhecida como verme do coração.A médica-veterinária Juliana Mori, do Hospital Pet Stop Unaí, reforça que o planejamento também envolve verificar se o destino tem estrutura adequada para receber o animal, o que inclui hospedagens pet friendly que aceitam cães em quartos e áreas comuns.Já a médica-veterinária Pillar Gomide destaca que animais idosos, filhotes ou com doenças crônicas exigem atenção redobrada nessa fase inicial, já que o perfil de cada pet muda o nível de cuidado necessário durante o trajeto.Consulta veterinária e documentos exigidosOs três especialistas concordam que passar por uma consulta antes da viagem é recomendado, principalmente em deslocamentos longos, aéreos ou internacionais.Nesse atendimento, o veterinário avalia mucosas, hidratação e parâmetros gerais de saúde, confirma o controle parasitário e verifica se as vacinas, sobretudo a antirrábica, estão em dia. Animais cardiopatas ou com doenças respiratórias podem precisar de exames complementares, como raio-x ou ecocardiograma, para checar se há algum impedimento clínico para a viagem.A documentação varia conforme o tipo de deslocamento. Para viagens dentro do Brasil, cães e gatos costumam ser dispensados da Guia de Trânsito Animal, mas o tutor deve levar a carteira de vacinação atualizada e, quando exigido pela empresa de transporte ou pelo destino, um atestado de saúde emitido pelo veterinário.Já para voos internacionais, o processo é mais burocrático: exige a emissão do Certificado Veterinário Internacional pelo Ministério da Agricultura, microchipagem no padrão internacional e, dependendo do país, laudo sorológico de anticorpos da raiva solicitado com meses de antecedência. A especialista Pillar Gomide lembra ainda que o tutor pode cadastrar o pet gratuitamente no SinPatinhas, serviço do governo federal que emite uma carteirinha de identificação com QR Code, embora o documento não substitua a carteira de vacinação nem o atestado de saúde.Caixa de transporte precisa virar zona seguraA escolha do equipamento de contenção é outro ponto de convergência entre os especialistas. A regra prática é que o animal consiga ficar em pé, girar o corpo em 360 graus e se deitar sem encostar nas paredes da caixa.Para viagens aéreas, o equipamento precisa seguir as normas específicas de cada companhia, com travas metálicas e ventilação adequada; no carro, deve ficar fixado no assoalho ou no banco traseiro, e o cinto de segurança pet, quando usado, precisa ser acoplado a um peitoral, nunca diretamente à coleira.Segundo Pillar, o processo de adaptação à caixa não deve começar no dia da viagem: o ideal é deixá-la disponível em casa por alguns dias, com petiscos, brinquedos ou um tecido com o cheiro do animal dentro dela. “Essa familiaridade reduz o estresse e melhora muito a experiência durante o deslocamento”, explica a veterinária.Alimentação, hidratação e enjoo de movimentoSobre a alimentação, a orientação é evitar refeições grandes nas horas anteriores à viagem, sobretudo para animais com histórico de enjoo, e priorizar porções leves oferecidas com antecedência.A hidratação, por outro lado, deve ser mantida, com pequenas quantidades de água oferecidas nas paradas. Em casos de cinetose, o enjoo relacionado ao movimento, os veterinários desaconselham receitas caseiras e recomendam o uso de antieméticos específicos, prescritos individualmente e, em alguns casos, administrados horas antes do embarque, conforme orientação profissional.Paradas no trajeto e o risco de deixar o pet sozinho no carroEm viagens de carro, a recomendação geral é fazer paradas a cada duas ou três horas, para que o animal beba água, se movimente e faça suas necessidades sempre sob controle, com peitoral e guia dupla.O ar-condicionado ajuda a evitar a hipertermia, risco especialmente alto em raças braquicefálicas, como buldogues, e as janelas devem permanecer fechadas ou apenas entreabertas, sem que o animal coloque a cabeça para fora.Outro ponto de alerta que os especialistas destacam é deixar o pet sozinho dentro do veículo, mesmo por poucos minutos. A temperatura interna de um carro pode ultrapassar os 50°C rapidamente, mesmo em dias amenos, o que pode levar a quadros de hipertermia, desidratação, edema pulmonar e falência de múltiplos órgãos. “Inclusive, pode ser considerado maus-tratos deixar um pet sozinho dentro do veículo”.O que muda em viagens de avião?Cada companhia aérea define suas próprias regras de peso, dimensões da caixa e número de animais permitidos por voo, além de decidir se o transporte pode ser feito na cabine ou apenas como carga.Muitas empresas restringem o transporte de raças braquicefálicas no compartimento de carga, pela maior sensibilidade à hipóxia e estresse térmico. A recomendação dos veterinários é priorizar voos diretos, evitar conexões longas e escolher horários mais frescos do dia, além de comunicar a tripulação sobre a presença do animal no porão como reforço de segurança.Para voos internacionais, a documentação sanitária do país de destino pode incluir exame de titulação da raiva, cartão de vacinação, microchip e o Certificado Veterinário Internacional, com prazos que variam conforme a rota. O planejamento dessa etapa costuma exigir pelo menos 90 dias de antecedência.Sinais de alerta e o risco da automedicaçãoRespiração ofegante fora do padrão, salivação excessiva, tremores, vômitos e tentativas de fuga são sinais de que o animal não está lidando bem com o deslocamento.Nesses casos, a orientação é parar o veículo em local seguro, reduzir estímulos sonoros e visuais e garantir ventilação adequada; se os sintomas persistirem ou as mucosas ficarem pálidas ou arroxeadas, o atendimento veterinário de emergência é necessário.Sobre o uso de calmantes, o consenso é que a automedicação deve ser evitada a todo custo. Sedativos tradicionais bloqueiam a movimentação do animal sem eliminar o pânico e podem causar queda de pressão e perda de controle térmico, especialmente arriscados em voos.Alternativas como moduladores comportamentais, florais, fitoterápicos e feromônios sintéticos costumam ser indicadas para casos de agitação ou latido excessivo, sempre com prescrição individualizada. “O fato de um medicamento funcionar para um animal não garante segurança para outro, o que reforça a necessidade de avaliação veterinária antes de qualquer intervenção medicamentosa”, finaliza Pillar.Pet internado? Confira quatro dicas do que fazer nesses casos