Eu sei o que você fez no mandato passado

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A quem recebeu meu voto, encontrei seu sorriso no meio da calçada. Estava preso a um totem disputando espaço com postes, lixeiras, mesas, placas, bicicletas e outras tralhas autorizadas a permanecer onde o pedestre deveria passar. Desviei de você. Apesar da idade, ainda consigo. Não sei por quanto tempo. Você parecia descansado. Mais jovem, talvez. Quatro anos fizeram muito bem à sua imagem.É muito provável que você não se lembre de mim. É compreensível. Na eleição passada, apertou tantas mãos, abraçou tantas senhoras, carregou tantas crianças no colo e ouviu um mundaréu de histórias que seria impossível guardar todos os rostos e falas — foi um verão tórrido, lembro-me até do suor na sua mão colando na minha. Eu, ao contrário, lembro-me de você.Votei em você.Depois, procurei-o algumas vezes. Não exatamente o senhor da fotografia, sempre disponível, mas aquele que deveria existir atrás da porta de um gabinete que, por sinal, insistia em manter-se fechada. A promessa ficou no discurso da campanha.Esta semana, ao esbarrar novamente em seu sorriso, resolvi puxar-lhe a capivara. Não se ofenda com a expressão. Não o segui. Não esperei diante de sua casa nem vasculhei suas gavetas. Fiz algo muito mais inquietante: busquei informações públicas. Seu mandato estava cheio de números. Encontrei presenças, emendas, projetos, discursos e votações. Li tudo o que consegui. Para alguém tão bem remunerado, trabalhar duro seria o mínimo; produzir alguma mudança na vida de quem paga a conta seria o esperado.Minha vida, entretanto, continuava cheia dos mesmos problemas.Ando por calçadas que me expulsam para a rua, espero ônibus que não chegam e atravesso avenidas cujo sinal fecha antes de meus passos alcançarem o outro lado. Sei que você não constrói calçadas nem organiza linhas de ônibus. Isso é assuntos de prefeito e vereador. Pesquisei, então, os projetos que apresentou, as leis que apoiou e os recursos que ajudou a destinar à mobilidade, à acessibilidade e ao transporte público. Eu envelheço, mas, a cidade, não. Ela continua planejada para um habitante jovem, veloz e capaz de saltar buracos, subir degraus e correr quando o semáforo manda. Procurei sua atuação na defesa de políticas nacionais que preparem as cidades para os muitos envelhecimentos do país. Quis saber se, ao votar o orçamento, você se lembrou de que circular, morar e participar da vida pública não podem ser direitos provisórios.Procurei também o que você fez pela educação. Não me interessavam as guerras de palavras que rendem discursos acalorados, aplausos e repostagens nas redes sociais. Busquei propostas, votos e recursos destinados a formar jovens capazes de ler o mundo, trabalhar, criar negócios e melhorar os existentes. Jovens que possam construir a própria vida sem depender eternamente de promessas nem de auxílios destinados a remediar uma pobreza que a política não conseguiu superar.Procurei sua atuação nas políticas de moradia e desenvolvimento regional. Quis encontrar metas, orçamento e fiscalização; iniciativas capazes de reconhecer que renda não explica, sozinha, as necessidades de uma família ou de uma comunidade. Procurei idosos que vivem sós, mulheres solteiras com filhos, pessoas com deficiência, moradores em situação de rua e trabalhadores empurrados para longe dos empregos. Procurei indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras e comunidades de matriz africana. Busquei políticas de permanência e adequação aos diferentes modos de viver, não de deslocamento e padronização. Não encontrei todos eles em seu folder. Provavelmente não fossem fotogênicos.Procurei suas decisões sobre clima, saneamento, energia, proteção das florestas e adaptação das cidades. Quis saber quanto do orçamento você ajudou a destinar à prevenção e quanto continuou reservado para reparar tragédias. O clima não espera a próxima eleição. Tampouco distingue partidos antes de entrar nas casas.Comparecer não é necessariamente estar presente. Protocolar não significa transformar. Discursar não é responder. Destinar uma emenda isolada não equivale a construir uma política pública. Uma política precisa de modelagem técnica, diagnósticos, metas, recursos, fiscalização e continuidade suficiente para sobreviver aos retratos pendurados nos postes.Você deve estar se perguntando o que foi que descobri e quando.Eu sei onde você estava naquele dia.Eu sei como você votou.Eu li o seu discurso.Sei também quando você se absteve. O silêncio não aparece no material de campanha, mas deixa registro institucional.Não foi difícil encontrá-lo. Comecei por percorrer os arquivos públicos e a reunir aquilo que o cidadão costumava esquecer. Ele conhece votações, propostas, discursos e encontrei os dias em que não estava e as ocasiões em que preferiu silenciar-se.Observo que seu sorriso parece um pouco tenso agora, na fotografia.Não precisa responder a esta carta. Em breve, você virá pedir novamente o meu voto.Aguarde…Atenciosamente,uma eleitora que se lembrou.