A partir de 2027, a relação entre o agronegócio brasileiro e o mercado europeu entrará em uma nova fase. Depois de anos de debates, adiamentos e ajustes regulatórios, o Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, começará a produzir efeitos concretos sobre cadeias importantes para o Brasil.A regra alcança produtos associados a sete commodities: bovinos, cacau, café, óleo de palma, borracha, soja e madeira, desde que estejam enquadrados nos produtos e códigos previstos no regulamento. Seu objetivo é impedir que produtos associados ao desmatamento ou à degradação florestal entrem no mercado europeu.Embora frequentemente apresentada como uma obrigação dos produtores, a EUDR funciona de maneira um pouco diferente. Na situação mais comum, o produtor brasileiro não será diretamente responsável perante a autoridade europeia. A obrigação de realizar a due diligence recai principalmente sobre o operator definido pela legislação europeia. Mas, para que esse operador consiga demonstrar a conformidade do produto, precisará receber informações de quem está na origem da cadeia.É aí que a EUDR chega à fazenda.O produtor poderá ser chamado a demonstrar onde a commodity foi produzida, quando foi produzida, qual sua relação com aquela área e se a produção atende à legislação brasileira aplicável.O desafio brasileiro, portanto, não é apenas ambiental. É também um desafio de organização, interoperabilidade e transmissão de informações. E o país já dispõe de uma quantidade considerável delas.Do CAR à EUDR: o problema não é necessariamente falta de informaçãoO Brasil construiu, nas últimas décadas, uma extensa infraestrutura pública de informações relacionadas à produção agropecuária e ao território rural. CAR (Cadastro Ambiental Rural) e SICAR (Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural), GTA (Guia de Trânsito Animal) e sistemas estaduais de defesa agropecuária, SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária), SNCR (Sistema Nacional de Cadastro Rural), PRODES (Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite), DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real) e outros bancos de dados registram diferentes dimensões da propriedade, da produção e de sua situação ambiental.Entretanto, nenhum desses sistemas, isoladamente, resolve a EUDR.O CAR, por exemplo, pode ser extremamente útil para identificar o imóvel e seu perímetro ambiental declarado, mas não é título de propriedade e tampouco representa, sozinho, uma certificação de conformidade. O próprio fato de um CAR ainda não ter sido validado pelo órgão ambiental não significa que suas informações sejam inúteis para a due diligence.Da mesma forma, na pecuária, a GTA é importante para reconstruir a movimentação dos animais entre estabelecimentos, mas não constitui, isoladamente, um sistema completo de rastreabilidade para a EUDR.A oportunidade está justamente em conectar essas informações. É nesse contexto que plataformas públicas brasileiras podem assumir importância muito maior a partir de 2027.Plataformas públicas podem ajudar na preparação para a EUDRUma das iniciativas mais promissoras é o Agro Brasil + Sustentável (AB+S), plataforma pública, gratuita e voluntária do Governo Federal. A ferramenta integra informações de diferentes bases oficiais e permite ao produtor consultar dados sobre seu estabelecimento e gerar relatórios de qualificação socioambiental, inclusive para apoiar o atendimento a requisitos de mercados externos.Para a EUDR, isso pode ser especialmente útil. Em vez de o produtor ter de buscar informações em diferentes sistemas, a AB+S pode ajudar a reunir e organizar dados que já existem. A plataforma também pode auxiliar na habilitação de áreas de produção destinadas à exportação e na geração de informações geoespaciais dos talhões, facilitando a identificação da área onde a commodity foi efetivamente produzida.Em São Paulo, o Rotas Rurais, criado pelo Instituto de Economia Agrícola do Estado (IEA), por meio do Endereçamento Rural Digital (ERD), pode cumprir uma função complementar. O programa facilita a localização dos estabelecimentos rurais e sua conexão com outras bases públicas, além de apoiar ações de assistência técnica e orientação aos produtores.As duas iniciativas mostram um caminho interessante. O Brasil já possui grande quantidade de dados sobre seus imóveis e sua produção rural. O desafio para a EUDR é tornar essas informações mais fáceis de organizar, conectar e transmitir ao longo da cadeia. Nesse sentido, plataformas federais e estaduais podem reduzir a complexidade para o produtor sem criar mais uma camada de cadastros e obrigações.O Brasil não precisa criar um “certificado EUDR”Existe, entretanto, um risco nessa discussão: procurar uma solução única que declare a propriedade e o produtor aptos para o EUDR. A lógica do regulamento europeu é mais sofisticada. A due diligence envolve coleta de informações, avaliação de risco e, quando necessário, medidas de mitigação.Por isso, nenhuma plataforma brasileira deveria ser apresentada como substituta da due diligence. Nem o CAR, nem o Agro Brasil + Sustentável, nem o Rotas Rurais, nem uma certificação privada podem, isoladamente, garantir que determinado produto atende à EUDR. A responsabilidade pela conclusão permanece com o operador submetido à legislação europeia. Mesmo quando utiliza plataformas, certificações ou informações de fornecedores, o operator continua responsável pela conformidade.A função das plataformas brasileiras pode ser outra — e talvez economicamente mais importante: reduzir o custo de demonstrar conformidade.2027 pode transformar dados ambientais em infraestrutura comercialDurante muitos anos, CAR, monitoramento por satélite, cadastros fundiários e sistemas de rastreabilidade foram discutidos principalmente como instrumentos de política ambiental, sanitária ou fundiária.A EUDR acrescenta uma nova dimensão: acesso a mercado. Quanto mais facilmente uma cadeia conseguir demonstrar a origem do produto, relacioná-lo à área de produção e fornecer evidências confiáveis ao comprador, menor tende a ser o custo de transação associado à due diligence.Nesse cenário, a vantagem competitiva brasileira pode não estar em criar mais um cadastro. Pode estar em fazer os cadastros existentes conversarem.O Agro Brasil + Sustentável aponta uma direção em âmbito federal. O Rotas Rurais mostra, em São Paulo, como infraestruturas estaduais de localização e conexão de informações podem aproximar o produtor desse novo ambiente. CAR, GTA, PRODES, DETER, SIGEF e outras bases completam um ecossistema que já é consideravelmente sofisticado.A EUDR não exige que o Brasil construa um sistema europeu dentro do país. Ela cria, porém, um incentivo econômico para que o país transforme a enorme quantidade de informação que já produz em uma infraestrutura de confiança para suas cadeias exportadoras.Quando as novas exigências começarem efetivamente a chegar aos produtores em 2027, a pergunta talvez deixe de ser se o Brasil possui dados suficientes. A pergunta será: conseguiremos fazer esses dados chegarem, de maneira simples, confiável e barata, da fazenda até quem precisa comprovar a conformidade no mercado europeu?Essa pode ser a diferença entre tratar a EUDR apenas como uma nova barreira comercial — ou transformá-la em uma oportunidade para que a infraestrutura socioambiental brasileira se torne também uma vantagem competitiva.