Jovem de SP alerta sobre vício em caneta emagrecedora: "Não consigo parar"

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“É como um vício mesmo, eu não consigo parar”, relata Beatriz (a pedido da personagem, ela terá seu nome completo preservado), uma jovem de 20 anos que enfrenta o paradoxo de viver em busca de um corpo magro, tão cultuado nos tempos atuais, enquanto se torna emocionalmente dependente de uma droga criada pela indústria farmacêutica: as famosas canetas emagrecedoras.Moradora de Atibaia, interior de São Paulo, Beatriz partilha as dores impostas pela pressão estética. Ela conta que a ânsia pelo corpo magro sempre esteve presente em seu dia-a-dia. No entanto, a ideia de emagrecer do jeito convencional — ou seja, disciplinando seu cardápio — nunca pareceu simples, principalmente porque ela lidava com comportamentos compulsivos em relação à comida. Há cerca de um ano, a jovem encontrou o que parecia ser uma solução para seu caso: as canetas emagrecedoras do Paraguai.Beatriz começou a aplicar as primeiras doses nessa época, quando pesava 83kg. Atualmente, pesa em torno de 66kg. Apesar de ter atingido seu objetivo principal, a jovem relata que usar o medicamento também tem desvantagens. Ela reconhece que desenvolveu uma espécie de vício em canetas emagrecedoras, além de diversos problemas com a própria imagem.À reportagem, a jovem relatou como foi o processo de começar a usar o medicamento e como ele mudou sua vida — para o bem e para o mal.“Fecha a boca que você emagrece”Bia, como é conhecida, conta que iniciou o tratamento em 2025, junto com uma amiga, sem acompanhamento médico. Ambas viram uma conhecida anunciando nas redes sociais que estava vendendo canetas emagrecedoras vindas do Paraguai. O preço? Quatro doses por R$ 1 mil — valor abaixo dos medicamentos autorizados pela Anvisa no Brasil.A mulher que vendia as canetas, segundo Bia, não era médica, nem esteticista. As canetas também não continham nota fiscal, nem tinham a procedência revelada. “Ela [a vendedora] tinha 18 anos… E não tinha nota fiscal […] A moça viajava para o Paraguai, trazia na bolsa e vendia”, diz a jovem. O produto era similar ao Mounjaro, mas não tinha autorização para a comercialização no Brasil.Beatriz conta que, antes de começar a usar as canetas, sofria de compulsão alimentar e constantemente ouvia de familiares e amigos que era “só fechar a boca” que iria emagrecer. A pressão estética e os constantes comentários sobre seu corpo a encorajaram a começar o tratamento, mesmo que de forma indiscriminada.Efeitos psicológicosOs primeiros efeitos das canetas emagrecedoras ajudaram a cessar os pensamentos constantes sobre comida. Antes de tomar, Bia passava o dia todo planejando suas refeições. No entanto, após iniciar o tratamento com doses menores, esses pensamentos foram interrompidos. “Eu já sou uma pessoa que acorda pensando no que eu vou almoçar, no que eu vou jantar. O medicamento corta esse pensamento”, conta.Esse efeito imediato encantou Beatriz que, ao menor sinal de que a sensação de fome estava voltando, aumentava a dose com medo de engordar. A primeira fase do tratamento durou 8 meses, com períodos em que ela chegou a tomar doses consideradas muito altas. Nessa época, ela perdeu 17 kg.Apesar da grande perda de peso, a jovem disse não enxergar diferença em seu corpo — foi então que ela  percebeu que estava ficando “viciada”. Beatriz se olhava no espelho e continuava se enxergando com o peso antigo, o que intensificava a vontade de continuar aplicando o medicamento. “Cada hora que eu me olhava, eu pensava: ‘Estou gorda ainda’. Então eu queria mais e mais remédio. Cada vez que eu subia na balança, já começava a chorar”, relata. Especialistas ouvidos pelo Metrópoles alertam para os riscos do vício nesse tipo de medicamento, da dependência emocional e da distorção da percepção corporal (veja no final da reportagem).Mesmo quando estava sem dinheiro para comprar as canetas, Beatriz fazia empréstimos e dívidas com cartão de crédito para continuar usando o produto e evitar o ganho de peso. Em determinado momento, seu pai percebeu o problema e a encaminhou a um nutricionista, para que fosse realizado o “desmame” (interrupção planejada e gradual do medicamento). Beatriz ficou 4 meses sem usar canetas, mas voltou a ter comportamentos compulsivos, chegando a ganhar 6 kg. Apesar dos distúrbios alimentares, Beatriz nunca buscou ajuda médica por medo de se sentir julgada.Em vez de ajuda profissional, a persistência da dismorfia corporal e a solidão do processo a levaram a recorrer à inteligência artificial como confidente. Bia compartilhava com o chatbot suas dores, seus comportamentos não saudáveis e suas preocupações em relação ao uso das canetas. Ela conta que a IA se tornou “sua melhor amiga” durante esse processo.9 imagensFechar modal.1 de 9Jovem de SP alerta sobre vício em caneta emagrecedora: "Não consigo parar"Imagem cedida ao Metrópoles2 de 9Jovem de SP alerta sobre vício em caneta emagrecedora: "Não consigo parar"Imagem cedida ao Metrópoles3 de 9Matthew Horwood/Getty Images4 de 9Jovem de SP alerta sobre vício em caneta emagrecedora: "Não consigo parar"Imagem cedida ao Metrópoles5 de 9Com porções muito menores no prato, é fundamental incluir vitaminas e fibras para garantir a ingestão de nutrientes e proteger a musculaturaMagnific6 de 97 de 9Estudante de Medicina é alvo da PF por vender "canetas emagrecedoras"PF/Divulgação8 de 9Canetas emagrecedorasGetty Images9 de 9O tratamento baseado em insulina pode ser administrada por canetas, seringas ou bombas de infusão contínuaGetty ImagesSegunda fase de usoApós perceber o peso e a compulsão voltando, Bia relatou que sentiu falta da sensação que o remédio causava, mesmo com os efeitos adversos, como sonolência, mau humor e enjoos. Portanto, assim que viu a vendedora anunciando novos lotes, a jovem comprou as canetas e voltou a fazer as aplicações em maio deste anoÀ reportagem, ela revela que se sente presa aos efeitos do medicamento e não consegue interromper o uso. Para Beatriz, engordar é um dos seus maiores medos e, apesar de pensar em um dia parar de aplicar as canetas emagrecedoras, não enxerga esse cenário como algo próximo. “Eu penso em parar, mas é tipo uma droga, é um vício. Eu sempre fiquei pensando em como as pessoas se viciam em maconha, em cigarro eletrônico… Nunca entendi. Mas agora, do jeito que eu estou, eu entendo o que é um vício. Porque eu penso que, se eu parar de tomar, vou engordar tudo de novo. Então eu já penso: ‘Não, não posso parar'”, conta.Agora, tomando uma dose considerada alta, Bia conta que chegou a ficar 24 horas sem comer, pois os efeitos colaterais foram muito fortes.  Questionada sobre como enxerga o uso do medicamento de forma indiscriminada e sobre os efeitos colaterais, Beatriz diz que é importante que todos saibam dos lados negativos antes de injetar as canetas. Além disso, reforça que o acompanhamento psicológico é um dos fatores mais importantes nesse processo. “O remédio não trabalha a cabeça. Você tem que preparar o seu psicológico e aprender a comer… Porque se você não aprende, os desejos voltam absurdamente fortes”, continua.Apesar de todas as controvérsias, Bia afirma que não se arrepende de ter tomado a medicação, mas ainda teme efeitos adversos mais complexos, como a pancreatite, principalmente depois que a amiga com quem começou a usar as canetas desenvolveu a doença. Além disso, a jovem afirma que o uso desse tipo de medicamento é muito comum no seu círculo social, com pessoas usando as canetas com e sem prescrição médica.O que dizem os especialistas?PhD em neurociências e com formação em neuropsicologia, a especialista Leninha Wagner afirma que a caneta deixou de ser percebida só como um recurso terapêutico e passou a representar uma promessa de pertencimento a partir da perda de peso. E isso não é por acaso. Segundo ela, a internet e a constante associação da magreza com sucesso são fatores essenciais ao analisar essa mudança.“As redes sociais transformaram o corpo em uma vitrine permanente. O problema não é apenas ver corpos magros. É aprender, repetidamente, que determinados corpos parecem receber mais aprovação, visibilidade, desejo e pertencimento […] Para um adolescente, cuja identidade ainda está em construção, isso pode ser especialmente potente”, diz Leninha.Essa mudança de motivação para injetar o remédio colabora para o aumento de comportamentos punitivos e restritivos com a própria aparência. Leninha reitera que canetas emagrecedoras ajudam a reduzir a urgência de comer e facilitam escolhas mais organizadas e saudáveis. No entanto, elas não ensinam a lidar com o peso de uma mente corroída pela cobrança estética. “Se a pessoa construiu sua autoestima sobre a aparência, emagrecer pode trazer alívio, mas também aumentar a vigilância: “Quanto perdi?”, “Quanto falta?”, “Será que vou engordar novamente?”. É possível, portanto, que o corpo diminua enquanto a insatisfação permaneça”, afirma.“Não é correto olhar apenas para o peso. Mas, sim, investigar a história da pessoa com o corpo, a comida, as dietas e o emagrecimento. Afinal, para alguns indivíduos, emagrecer significa saúde; para outros, significa finalmente sentir-se aceito, desejável ou suficientemente bom. Essa diferença é decisiva. Medo intenso de recuperar peso, restrição excessiva, pesagens compulsivas, exercício como punição, culpa ao comer e preocupação constante com a aparência são sinais que merecem investigação. Antes de perguntar quanto alguém quer emagrecer, precisamos compreender o que esse emagrecimento representa psicologicamente”, continua a neuropsicóloga.Por fim, a especialista considera que, para um tratamento seguro, é essencial passar por uma avaliação médica, nutricional e psicológica que considere a pessoa como um todo, indo além do peso na balança. ‘Não basta perguntar “quanto você emagreceu?’. É preciso perguntar: ‘Como você está se relacionando com seu corpo agora?‘ O objetivo é favorecer um sujeito mais saudável, funcional e livre de uma relação persecutória com a comida e com a própria imagem. Porque existe uma diferença enorme entre emagrecer para cuidar de si e precisar emagrecer para conseguir gostar de si” finaliza Leninha.Mas e sobre o vício? Será que é possível se viciar, de fato, em canetas emagrecedoras? O professor Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e pesquisador do tema, afirma que o comportamento vicioso é algo muito comum nos usuários do medicamento. Contudo, o vício não é exatamente químico, mas emocional. A dependência, nesse caso, vive no controle emocional ilusório que a caneta traz como sintoma. O nome para essa falsa autonomia é heteronomia farmacológica, diz o especialista.“Não se trata de uma dependência típica das drogas que agem na dopamina gerando um vício neuroquímico. É uma dependência afetiva e psicológica […] A pessoa se sente muito bem ao usar a caneta — não pelos sintomas, que às vezes trazem efeitos adversos —, mas porque rapidamente se acostuma com o que chamam de ‘corpo de aluguel’, expressão também comum para o uso de esteroides anabolizantes”, diz Bruno.“Aquele controle da fome é maravilhoso no primeiro momento para quem sempre brigou com o peso, mas é um controle externo, provocado pela droga. Quando ocorre o desmame, boa parte dos benefícios vai embora, e a pessoa se sente realmente esvaziada pela falta da caneta. No artigo em que estou trabalhando para trazer esses dados à luz, usamos o termo ‘heteronomia farmacológica’, que é o oposto da autonomia. Enquanto a indústria do bem-estar vende a promessa de autonomia e do corpo desejado, o que ela entrega, na verdade, é o oposto: a dependência e o assujeitamento a essa tecnologia“, afirma o professor.Se você apresenta comportamentos condizentes com os relatados nesta reportagem e/ou tem passado por problemas relacionados à alimentação, autoimagem e autoestima, procure profissionais de saúde mental e nutrição.Você pode buscar atendimento especializado na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou no CAPS mais próximo da sua residência. Para apoio emocional gratuito, sigiloso e disponível 24h por dia, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) ligando para o número 188 ou acessando o chat em cvv.org.br.