O Ibovespa engatou um pequeno rali nas últimas semanas, impulsionado pelo cenário eleitoral e pela queda dos juros no Brasil, e ignorou a piora do ambiente externo. Na visão de alguns participantes do mercado, o cenário mais provável é de Selic mais baixa no ano que vem, o que deve beneficiar a bolsa, embora alguns riscos persistam – entre eles o petróleo e o El Niño, e o eleitoral.“O cenário hoje é binário”, afirma Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton Brasil, sobre as expectativas do mercado entre a continuidade da atual política econômica e um ajuste fiscal mais profundo em caso de vitória da oposição. Ele enxerga oportunidades na bolsa, mas prega cuidado na seleção dos ativos. “Está tudo barato, hoje estamos bem amassados em relação aos fundamentos e já faz tempo”, diz.Se a relação preço-lucro das empresas voltasse à média histórica, ele aposta que o Ibovespa poderia subir dos atuais 186 mil pontos para 230 mil, alta de 24%. “Tem muita gordura para subir”, afirma. Se o ajuste fiscal não se confirmar, porém, o índice poderia recuar para perto dos 160 mil pontos, patamar anterior ao rali. “Estamos em uma situação 50%-50%”, avalia.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Confira o que movimenta Bolsa, Dólar e Juros nesta segundaÍndices futuros dos EUA avançam com petróleo em queda Ação de dividendo é bote salva-vidas em cenário de juro alto? Não é bem assimEstudo da XP mostra que a vantagem das boas pagadoras em ciclos de aperto vem da queda maior das empresas que distribuem pouco, e não da valorização das que distribuem muitoA bolsa brasileira também está descontada em relação aos pares da América Latina. “Hoje ela está negociando na faixa de 9 vezes o lucro, enquanto o Chile está em torno de 13 vezes, o Peru, 14, Colômbia, 10,6 vezes, estamos descontados em relação a todas”, diz o gestor.No curto prazo, Sampaio avalia que os múltiplos perto das mínimas históricas devem atrair investidores, sobretudo para empresas ligadas ao mercado doméstico, que se beneficiariam de uma mudança na política econômica. “Esse é o grande tema do momento”, diz.Ele alerta, no entanto, para os riscos. “Já vimos reviravoltas em eleições passadas, acidentes de avião, facadas, por isso as compras estão sendo feitas de forma gradual, com muito cuidado, medindo a temperatura”, afirma. “Hoje o mercado vai mudando à medida que saem pesquisas e notícias.”No longo prazo, a bolsa deve responder às medidas do próximo governo, especialmente na área fiscal. “Se os problemas brasileiros forem enfrentados, vamos ter um aumento do PIB potencial e aí podemos ter um céu de brigadeiro, pois a bolsa brasileira está muito largada”, diz Sampaio. “Essa é a foto de hoje, mas precisamos ver o filme daqui para frente.”Ele cita o exemplo da Colômbia, onde a bolsa subiu antecipando a troca de governo e passou por uma realização depois da vitória do candidato de direita. “Agora o mercado tem se recuperado e está andando mais em cima do fundamento”, explica.Nos fundos da Franklin Templeton, a preferência é pelas ações mais negociadas do mercado, as chamadas blue chips. A gestora as escolhe pela liquidez e “porque nesse cenário de maior incerteza está tudo muito descontado”. Ao mesmo tempo, evita setores mais alavancados ou dependentes de crédito, como o varejo.Entre as preferidas estão empresas financeiras ligadas ao mercado de capitais, como XP (XPBR31), B3 (B3SA3) e BTG Pactual (BPAC11), que se beneficiariam de juros mais baixos. A lista inclui também boas pagadoras de dividendos de setores regulados, como saneamento e energia, com retornos de 8% a 10% ao ano. Sampaio gosta ainda dos bancos, que estão baratos, com destaque para o Itaú Unibanco (ITUB4).“Gostamos também de Petrobras (PETR4), que tem toda uma questão política, mas com petróleo a US$ 105 o barril é uma grande geradora de caixa”, diz.Leia também: Ações de IA abriram janela geracional? Veja como se posicionarPara Leonardo Mendes, consultor financeiro da Manchester Investimentos, o mercado brasileiro teria piorado com a decisão do Federal Reserve (Fed) de subir os juros e sinalizar novas altas, se não fosse a eleição. Ele vê o mercado local guiado pela disputa e ainda sem direção definida, e espera um rali em caso de vitória da oposição.No médio e longo prazo, porém, Mendes acredita que a Selic vai cair independentemente de quem vencer. “A trajetória estrutural de juros daqui para frente é para baixo, e vai beneficiar a bolsa”, diz. A amplitude e a velocidade dos cortes, no entanto, dependerão do resultado das urnas.A recomendação do consultor é não se afastar muito do Ibovespa. “Achamos melhor fazer o arroz com feijão, e isso vai ser suficiente para ter bons retornos, até porque a bolsa sofreu muito com os juros altos por muito tempo”, afirma. “Por isso estamos mais vinculados a blue chips e empresas de commodities.”Mendes destaca a Petrobras. Embora esteja entre as empresas mais expostas ao cenário eleitoral, a estatal é “uma máquina de fazer dinheiro” com o petróleo em alta e o dólar valorizado pelos juros americanos mais altos. Ele cita ainda Vale (VALE3), CSN (CSNA3), outras mineradoras e bancos tradicionais, que devem manter os lucros. “É uma carteira com 60% replicando as 20 maiores ações do Ibovespa e 40% em algumas empresas pagando bons dividendos”, diz.Quem já está na bolsa, segundo Mendes, deve evitar grandes movimentações e esperar o resultado da eleição para rebalancear a carteira. Para quem ainda não está, é hora de começar a montar posição com horizonte de pelo menos cinco anos. “A Selic estruturalmente caindo significa bolsa para cima”, diz.Leia também: “Brasil é país high yield”: por que não investir lá fora é cada vez mais arriscadoCopo meio vazioA visão de alguns participantes, no entanto, é de copo meio vazio. Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP Investimentos, aponta que o cenário global piorou: o petróleo voltou a subir, o Fed está elevando os juros e as taxas longas nos Estados Unidos estão em alta, o que fortalece o dólar. No Brasil, pesam os efeitos do El Niño sobre a inflação e a expectativa de que o próximo governo, qualquer que seja, promova algum tipo de ajuste fiscal.Sá avalia, porém, que o desaquecimento da economia deve reduzir a inflação e permitir ao Banco Central seguir cortando a Selic, para 13,25% até o fim deste ano e 11,50% no próximo. “E ciclo de baixa de juros costuma ser historicamente positivo para a bolsa, seja por tornar mais atrativa a renda variável, seja pela reavaliação dos preços das ações por uma taxa de desconto menor”, diz. Juros menores também tendem a favorecer a economia no médio prazo, sobretudo as empresas mais ligadas ao crescimento.O risco, segundo ela, é que a queda dos juros pode vir acompanhada de uma desaceleração econômica mais grave, o que seria negativo para a bolsa e, em especial, para as empresas ligadas à economia local.Diante das incertezas, a XP adotou uma postura mais cautelosa na alocação em bolsa. “Estamos olhando setores e nomes de alta qualidade, bons pagadores de dividendos, com solidez financeira e caixa”, afirma Sá. Além das pagadoras de dividendos, ela cita setores menos expostos ao ciclo econômico, como commodities, utilities (energia e saneamento) e financeiro. “São historicamente mais defensivos.”A visão da XP para ações brasileiras está abaixo do neutro. “Não é para sair da bolsa ou ficar vendido, mas há espaço para estar menos alocado do que o modelo sugere”, diz. A alocação sugerida em bolsa é de 5% para o perfil moderado e de 15% para o sofisticado. Entre as top picks do mês da XP estão gigantes como Petrobras e Vale, mas também Prio (PRIO3), Gerdau (GGBR4), Embraer (EMBJ3), Axia (AXIA3) e Cury (CURY3).Sá não espera rali pré-eleitoral e cita um estudo da XP segundo o qual as classes de ativos não seguem um padrão nesses períodos. Por isso, o investidor não deve mexer na carteira pensando na eleição. “O importante é diversificação, com ou sem eleição, e focar no longo prazo, que é o que reduz a volatilidade”, diz. “Os desfechos de políticas econômicas diferentes podem afetar o cenário, mas isso não significa que vai mudar a alocação.”No BTG Pactual, a dúvida fez o time de alocação manter recomendação neutra para o Brasil na carteira para América Latina neste período pré-eleição. Em relatório a clientes, o banco lembra que o humor do mercado mudou diversas vezes nos últimos meses e, mais recentemente, reagiu bem a uma disputa mais acirrada, “quase um cara ou coroa”.Para o BTG, a incerteza favorece empresas de alta qualidade e liquidez, capazes de ir bem em qualquer cenário. Por precaução, o banco sugere evitar ações muito dependentes de uma melhora das contas públicas. As indicações são Itaú Unibanco, Axia, Petrobras, Embraer, Motiva (MOTV3), Sabesp (SBSP3), Eneva (ENEV3).Leia também: ETFs ganham 140 mil investidores no ano e já somam 862 mil CPFsThe post O que escolher em uma bolsa “amassada” antes das eleições? Veja apostas do mercado appeared first on InfoMoney.