O Dia Mundial Sem Carro, celebrado em 22 de setembro, vai além do gesto simbólico de deixar o automóvel na garagem. No Brasil, a data chama atenção para um desafio maior: reduzir a dependência do transporte individual em um país em que carros e motos já representam quase 80% da frota rodoviária.Dados do Observatório Nacional de Transporte e Logística (ONTL), com base na Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), mostram que a frota brasileira passou de cerca de 64,8 milhões de veículos em 2010 para 124 milhões em 2024. Apenas entre 2023 e 2024, o país incorporou aproximadamente 4,7 milhões de veículos. No mesmo período, automóveis e motocicletas chegaram a 97,8 milhões de unidades, sendo 63,3 milhões de carros e 34,5 milhões de motos.Esse avanço da motorização ajuda a explicar por que a discussão ambiental também envolve planejamento urbano. Mesmo com a chegada de veículos elétricos, híbridos e modelos menos poluentes, a quantidade de automóveis em circulação segue pressionando o espaço viário, os congestionamentos e a demanda por estacionamentos e infraestrutura.Para Miguel Angelo Pricinote, mestre em Transporte e fundador do Mova-se Fórum de Mobilidade, o debate precisa colocar o transporte coletivo no centro da estratégia. “A transformação da mobilidade urbana exige encarar o transporte coletivo não como um serviço assistencial, mas como um indutor de desenvolvimento econômico, qualidade de vida e sustentabilidade. A renovação da frota, com veículos mais confortáveis, conectados e menos poluentes, ajuda a romper o estigma de que o ônibus é um transporte de segunda classe e pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de redução da dependência do automóvel”, afirma.Mobilidade urbana e a lógica além do carroA substituição de veículos convencionais por modelos de menor emissão representa um avanço ambiental importante. No entanto, ela não resolve sozinha os efeitos da dependência do transporte individual. Um carro elétrico, por exemplo, reduz emissões no escapamento, mas continua ocupando espaço nas vias e contribuindo para os congestionamentos.Além disso, o crescimento da frota de automóveis não veio acompanhado de uma evolução equivalente do transporte coletivo. Segundo o Anuário NTU 2025-2026, o número de passageiros transportados em nove capitais brasileiras caiu 2,3% em 2025, de cerca de 404,3 milhões para 395 milhões, ainda abaixo dos 530,6 milhões registrados em 2018.“Não adianta simplesmente pedir que as pessoas deixem o automóvel em casa. É preciso oferecer uma alternativa que funcione para a vida real. Segurança, conforto, frequência, previsibilidade, informação e integração entre os modais são fatores que determinam se o transporte coletivo será percebido como uma escolha ou apenas como uma necessidade”, explica Pricinote.O especialista também destaca que a distribuição do espaço urbano segue no centro do problema. Quanto maior a dependência do automóvel, maior a pressão por vias e estacionamentos. Por outro lado, modos que transportam mais pessoas ocupando menos espaço precisam ganhar prioridade no planejamento das cidades.Transporte coletivo e mobilidade ativa ganham espaçoA redução da dependência do automóvel não significa eliminar carros das cidades. O objetivo, segundo especialistas, é diminuir sua centralidade e ampliar as possibilidades de deslocamento. Nesse cenário, o transporte coletivo exerce papel fundamental, porque leva mais pessoas usando menos espaço por passageiro.A transição energética também começa a alcançar o transporte público. Segundo a NTU, o Brasil chegou a 2.235 ônibus urbanos elétricos a bateria, trólebus e veículos movidos a biometano em circulação em 2026. Ainda assim, Miguel Angelo Pricinote ressalta que a mudança energética não substitui a eficiência operacional. “Um ônibus elétrico continua dependendo de corredores adequados, prioridade no trânsito, integração com outros modais, frequência e previsibilidade para se tornar uma alternativa efetiva ao automóvel”, destaca.A bicicleta e os deslocamentos a pé também fazem parte da solução, sobretudo em trajetos curtos. Para isso, cidades precisam investir em ciclovias conectadas, bicicletários, calçadas acessíveis, travessias seguras e integração com terminais e estações.Em vez de disputar espaço entre carros, ônibus, bicicletas e pedestres, o desafio é construir uma rede complementar de mobilidade. Assim, uma pessoa pode caminhar até uma estação, usar o transporte coletivo e concluir o percurso de bicicleta, por exemplo.“A questão não é saber quantas pessoas conseguem ficar um dia sem carro, mas quantas poderiam escolher não o utilizar com mais frequência se tivessem alternativas adequadas. Quando uma cidade oferece transporte coletivo eficiente, boas condições para caminhar e uma rede cicloviária conectada, deixar o carro em casa deixa de ser um sacrifício e passa a ser uma possibilidade real”, finaliza o fundador do Mova-se Fórum de Mobilidade.O post Dia Mundial Sem Carro expõe desafio da mobilidade urbana no Brasil apareceu primeiro em Mobilidade Sampa.