É um dia de calor extremo em Lisboa e o verão já está mais próximo do fim do que do início. Enquanto a cidade derrete, e poucos se expõem ao sol, as ruas exibem-se vazias. Antes de chegarmos ao Mercado do Forno do Tijolo, na freguesia de Arroios, passamos por alguns novos espaços de brunch. Já as pastelarias antigas que serviam de ponto de encontro para conversar em português com os vizinhos praticamente deixaram de existir. Os cheiros já não são os mesmos e muitas casas ficaram ao abandono. É desta transformação, e de como travá-la sem a travar de todo, que fala Manuel Banza, Assessor para a Mobilidade, Economia, Habitação, Participação Cívica e Dados Urbanos na Junta de Freguesia de Arroios. Mas vamos ao início. Arroios é, segundo Banza, uma das zonas de Lisboa onde o efeito de ilha de calor mais se faz sentir. O edificado é antigo e não foi pensado para as temperaturas extremas que se tornaram frequentes. A resposta da Junta passa por renaturalizar o espaço público: mais árvores, mais sombra, e duas expressões que a equipa foi obrigada a criar para nomear o que está a fazer. «Estamos a inventar duas palavras: o descalcetamento e o despavimentar. O descalcetamento é retirar calçada, seja de cubos grandes, na estrada ou em certos passeios, porque essa é uma das suas vantagens, dá para retirar com relativa facilidade. O alcatrão já é diferente, a reciclagem desse resíduo tem um custo brutal», explica. A equipa identifica ruas onde é possível plantar sem tocar no estacionamento e, quando não é possível, não hesita: «Nós temos mesmo de arrefecer a cidade de forma rápida.» Banza dá um exemplo concreto: uma rua de 500 metros sem uma única árvore onde a Junta identificou espaço para doze, ao custo de dois lugares de estacionamento. «É um rácio ótimo», resume. Manuel Banza, no Mercado do Forno do Tijolo. Créditos: Leonor WickeAinda assim, entre o calor do asfalto e da pedra, reconhece que a pedonalização gera resistência inicial nos comerciantes, com receio de perderem clientes. É o caso do próprio Mercado. A proibição da circulação de carros, em vigor desde junho, faz com que o espaço que rodeia o comércio local esteja mais calmo e disponível para conviver. Apesar do calor, os toldos são sombra para quem entra e sai dos estabelecimentos, bebe um café, compra raspadinhas. Tânia Ribeiro é proprietária da Papelaria Alfacinha, que se encontra no interior do perímetro do Mercado do Forno do Tijolo. Não tem esta loja há muito tempo, só desde outubro passado, e as transformações de que o local está a beneficiar começaram pouco depois de ali assentar arraiais. «Para o meu tipo de cliente não acho que vá ter grande impacto, a maioria vive aqui perto», repara a lojista. Mas alerta que outros tipos de negócio podem ficar reféns de parquímetros. Vai mais longe quando sugere que «a chuva no inverno vai afastar alguma clientela que não pode estacionar», principalmente do supermercado que acaba por atrair clientes para as lojas envolventes. Tânia não se deixa ancorar no pessimismo e dá espaço ao futuro: «só o tempo dirá se foi ou não melhor para os negócios. Ainda é muito cedo para avaliar». Ainda assim, Manuel Banza cita exemplos da própria cidade: um inquérito realizado junto dos comerciantes de três ruas da Baixa, depois dos primeiros meses da intervenção, revelou que 78% estavam satisfeitos ou muito satisfeitos com o programa. Na Duque d’Ávila, obras concluídas em 2017 e inicialmente contestadas pelo comércio local também se traduziram, segundo análises da Câmara, num aumento das transações. Ao mesmo tempo, admite que Arroios enfrenta um problema distinto: a substituição de cafés e tascos tradicionais por negócios voltados para turistas e expatriados. «Perdemos muito negócio local, muitos cafés tradicionais, e abriu muita coisa vocacionada para um poder de compra que a maior parte dos fregueses não tem», diz. A solução, defende, passa por instrumentos de urbanismo comercial que hoje não existem no Plano Diretor Municipal de Lisboa, à semelhança do que Paris já pratica, inclusive comprando espaços comerciais para os alugar a preços simbólicos a negócios que faltam num bairro, como uma padaria. Há vários estabelecimentos de comércio local no Mercado. Créditos: Leonor WickePara Banza, a verdadeira inovação está muitas vezes em soluções de baixa tecnologia: mobiliário urbano construído em madeira, adaptado ao calor, em vez de estruturas metálicas pensadas para climas nórdicos; redes de sombra nas ruas; ou simplesmente plantar árvores. «É a maior tecnologia que temos para combater o calor», resume, evocando o ditado segundo o qual a melhor altura para plantar uma árvore foi ontem, e a segunda melhor é hoje. Aponta Copenhaga como referência de qualidade de vida, onde 66% das deslocações para o trabalho são feitas de bicicleta, não por opção ideológica, mas porque a cidade foi desenhada para isso. «Smart city é uma palavra quase distópica, que está sempre a falar do futuro. Nós temos é de falar do presente. Eu não aguento estar em Lisboa com 36 graus e não faz sentido», diz. Prefere, por isso, o termo «cidades verdes», ou «cidades vivas». «Isso sim é inovação», garante. Os comerciantes têm de estar do nosso lado e são os primeiros que devemos envolver. Um tema inevitável e intrínseco a todas estas questões é a crise de habitação da cidade. Banza acrescenta que Arroios é das freguesias de Lisboa com mais imóveis devolutos, entre propriedade de fundos, heranças por dividir e habitação pública. A resposta óbvia, a construção de mais habitação pública, esbarra na falta de orçamento camarário. Por isso defende um caminho alternativo, já testado em Viena, Zurique, Copenhaga ou Barcelona: a habitação cooperativa, algumas com cedência do terreno por até 90 anos. «O que hoje está caro é o terreno, não tanto a construção. Se tirarmos o terreno da equação, fica muito mais barato construir e ter uma casa», explica. O modelo impede a especulação: quem vive na casa não pode vender a habitação no mercado livre, apenas devolver o direito de uso à cooperativa. Banza recorda que cerca de 40% da habitação em Viena é, na verdade, social, e uma parte relevante dela cooperativa, com rendas fixadas pela própria autarquia. Em Portugal, lembra, o maior processo participativo de arquitetura da história recente foi o SAAL, em 1976. «Nós só temos de replicar o SAAL, mas aprender com os erros que aconteceram», afirma, defendendo que o património público não deveria ser vendido, mas cedido para construção de habitação cooperativa. Sem isso, teme, Arroios continuará a perder sobretudo os mais jovens, que já não conseguem lá viver. Sem solução à vista, a crise da habitação é a problemática central de quem vive em Lisboa. Maria do Rosário Partidário, Professora de Planeamento do Urbanismo e Ambiente no Instituto Superior Técnico, descreve-a mesmo como um «um descontrolo total do ponto de vista político e económico». Apesar de ser uma realidade transversal a vários países da Europa, a situação em Lisboa é especialmente aguda. Para a docente, trata-se «de uma insuficiente e má gestão», uma vez que a oferta existe, mas não é regulada e «está dirigida a setores mais elevados da economia, designadamente estrangeiros.» O investimento estrangeiro traz «consequências sobre a cidade do ponto de vista funcional», uma vez que esses investidores, por norma, «ficam de fora de tudo o que é infraestruturas e da própria vivência da cidade.» «Há um grave problema político que não está a ser tratado», acrescenta. Maria do Rosário Partidário, Professora de Planeamento do Urbanismo e Ambiente no Instituto Superior Técnico. Créditos: Ciência Viva Criar fluidez entre ciência e decisão para que as cidades sejam para todos Maria do Rosário Partidário nasceu em Lisboa e tem acompanhado as mudanças da cidade, «umas positivas e outras nem tanto». Tem havido capacitação de espaços verdes, criação de corredores, canais verdes (vegetação e arborização) e azuis (recursos hídricos). Também o problema das inundações tem melhorado, com o grande investimento no plano de drenagens que está a ser levado a cabo. A revitalização de espaços como a baixa lisboeta é outro sinal positivo – ainda que de uma perspetiva mais turística do que habitacional – mas que está a devolver vida à cidade. «Tem de haver uma estratégia mais evidente. As coisas deixam-se andar até ao limite das possibilidades, sem haver grande controlo. O Elevador da Glória é um exemplo. A mentalidade tem sido ‘Depois de casa roubada, trancas à porta’», explica. A professora considera que o planeamento é feito para o dia seguinte e não para a década seguinte. E esse planeamento faz falta para criar uma verdadeira cidade para as pessoas. Uma cidade do futuro tem de ser fluida em todos os aspetos. Fluida em pessoas, em mobilidade, em arejamento, na economia, uma cidade viva, dinâmica e pujante!Também entre a ciência e os decisores políticos existe pouca fluidez. Maria do Rosário denota uma «dificuldade de diálogo, por vezes até por razões semânticas, que está entre a investigação e a implementação». A falta de priorização faz com que mais falhas de comunicação existam: ou a investigação avança sem ver as restrições que existem e as dificuldades de implementação, ou não se fazem perguntas à ciência. Tudo isto «dificulta a ligação» e cria «problemas entre a comunicação e a prática.» Na raiz estão «problemas financeiros e burocráticos.» Mas entre planeamento, ciência e decisões políticas, a professora teme que estas cidades não sejam para todos, «um dos maiores problemas com que a sociedade se depara no século XXI.» «Há um fosso cada vez maior. Embora a situação de pobreza, do ponto de vista estatístico, tenha melhorado, a vivência e oportunidades pioraram para um grupo cada vez maior de pessoas», explica. Esta questão é sentida principalmente nas cidades, com o acesso à tecnologia, infraestruturas e habitação cada vez mais limitado. A própria ciência encontrou nomes para estes fenómenos, tais como green gentrification e starbucks effect. De acordo com um estudo, o preço por metro quadrado em Marvila subiu na ordem dos 124,9% desde o primeiro trimestre de 2018 até ao quarto trimestre de 2022, em parte graças à Prata Riverside Village e a todo o espaço envolvente, recuperado e mais verde do que nunca. O autor reforça que este é um exemplo de como os espaços verdes podem ser instrumentalizados pelas vontades de projetos imobiliários destinados aos mais ricos, potenciais compradores com um budget e estilo de vida que não vão de encontro ao perfil da população que já lá reside. A reabilitação acaba por não ser acessível a todos, uma vez que apenas quem pode pagar irá usufruir da melhoria dos espaços naturais. Também o comércio segue as pisadas desta gentrificação, criando o starbucks effect: serviços que encarecem para se inserirem no novo perfil que agora os usa.Se muitos destes problemas são transversais a outras cidades europeias, para a professora é impensável copiar modelos. «Lisboa não se pode tornar Copenhaga, nós não somos dinamarqueses! É muito bom que Lisboa tenha a sua própria cultura», explica. Considera que se deve aprender com boas práticas, mas reconhecer o que já existe cá e trabalhar com isso. Valorizar e enaltecer a inovação nacional, o que aqui se produz. «Uma das coisas que falta a Portugal é a melhoria da nossa autoestima. Não vamos ter uma cidade green nem smart se não melhorarmos o respeito por nós próprios e acreditarmos que somos capazes», defende. Projetos como a AI², a nova Agência para a Investigação e Inovação em Portugal, criada a partir da fusão entre a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e a Agência Nacional de Inovação (ANI), podem mudar este paradigma e colocar as vozes da ciência e da investigação no centro da decisão. Além de vontade política, esse caminho é construído com altos níveis de educação. E isso, sim, deve ser copiado do Norte da Europa, «para sabermos julgar, decidir com consciência e estarmos bem informados.» «Há muitos velhos do Restelo e isso precisa de ser arrumado», conclui. O império dos sentados Já no Campo dos Mártires da Pátria, as árvores dão sombra a várias pessoas: idosos, turistas, estrangeiros. Alguns idosos conversam num banco, entre eles estão António Lança e António Luís, que têm algumas coisas em comum: são alentejanos, reformados e encontram-se praticamente todos os dias naquele banco de jardim. «Somos amigos», diz um deles. Para António Luís, o único dos dois que mora na freguesia, «nada mudou». Vive na Calçada do Moinho desde 1966. Lamenta, no entanto, a distância camarária, tanto em metros como nas necessidades dos cidadãos. Para ele, a sua voz não é ouvida e as reuniões onde se tomam decisões acontecem sem fregueses. Nas casas afastadas da câmara ou das sedes, faltam expositores com os horários das reuniões e informação sobre o que acontece no bairro, algo que antes abundava. António Lança e António Luís convivem no Campo dos Mártires da Pátria diariamente. Créditos: Leonor WickeAntónio Lança é mais hostil com quem coordena os destinos do povo. Vive na freguesia das Avenidas Novas, mas diz conhecer bem os cantos da capital. Apesar do jardim mostrar limpeza e até certo ponto laivar algum luxo, o reformado alarma para o que não é observável: «há muita miséria escondida», destaca. Com vários temas na ponta da língua, nota-se bem que tem muito para dizer e talvez pouca gente que o escute. Fala sobre tempos idos, deambula sobre alegados namoros e casos afetuosos entre líderes das freguesias e lança algumas gargalhadas sempre com o linguajar antigo, embora próximo. É naquele jardim que convivem diariamente, mas pedem mais e melhor: os bancos são poucos e estão em más condições. No geral, faltam espaços para conviver, passeios aptos para quem tem mobilidade reduzida e «um bar onde se possa beber uma bica a preços decentes.» O pedido de António Luís é perentório: mais espaços públicos, mais crianças a brincar, menos carros. António Lança é o primeiro a levantar-se. Contraria a terra que o viu nascer e que declara como ‘o império dos sentados’. Para os Antónios e outros moradores faltam lugares sentados neste pequeno império lisboeta. A reportagem prossegue numa segunda parte que será publicada no dia 28 de setembro.Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. 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