Allen Halloween no Iminente: «A fotografia tem de ser tirada por nós ou fica desfocada»

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Toda a canção tem uma pré-história que o refrão não confessa. Antes do compasso, uma rua; a preceder a rima, um quarto onde alguém escutou o que os outros deixavam escapar ; antes do nome artístico, uma família, uma língua, uma ferida e até uma festa. A pergunta de partida parecia inofensiva, mas rasurou depressa o rascunho de qualquer resposta fácil. Pode uma música separar-se do lugar onde nasceu? O território determina o que se cria? Quanto da identidade de um artista sobrevive quando ele muda de bairro, de vida ou de nome? E que sucede quando uma geração faz matéria artística daquilo que durante muito tempo foi apenas o som quotidiano da sua própria existência?Mineiro apontou à expansão do som em múltiplas conversas e dirigiu-se aos convidados com uma constatação geracional, dessas que datam uma época pela banda sonora: «As pessoas que nasceram nos anos 90 mudaram a visão que lhes ensinavam na escola com a música que vocês trouxeram.» Estava dado o mote. A escola ensinava um mapa, mas a música, entretanto, ia desenhando outro, a lápis de cera, nas margens do caderno.A fotografia tirada por nósAllen Halloween esteve anos associado a uma persona e a uma obra incontornável do rap português. Procura agora outros lugares para existir, entre eles Original Kappa, e a distância, longe de o esvaziar, deu-lhe uma tese de autoria. Perante a pergunta que hesita entre o biográfico e o político, a de saber até que ponto se é livre de abandonar aquilo que os outros já decidiram que somos, o artista respondeu por via da imagem. «A música vem do coração, normalmente quem nos representa não somos verdadeiramente nós», afirmou. A metáfora que escolheu é de oficina de retratista: «A fotografia normalmente tem de ser tirada por nós ou fica desfocada. O rap raiz é uma fotografia tirada por nós.»O desfoque tem, explicou, uma caligrafia conhecida: a do olhar alheio que entrega o retrato já emoldurado, com legenda e tudo. «Imagina um português de esquerda: na cabeça dele o africano é vítima, pobreza, perseguição policial, insucesso escolar.» É o estereótipo benévolo, o mais difícil de combater porque chega sem hostilidade, e por isso mesmo o mais eficaz na sua função de encurtar o horizonte. O contraponto de Allen Halloween é uma questão de alcance, quase de óptica: «Eu vejo mais longe. A poesia. A moda. São representativos.» Ao rap cabe a garatuja desse esboço, a emenda a tinta forte: «O rap destrói essa desumanização. Mostra os seus amores e não o contrário.»Antes do palco, a árvore genealógica, e Allen Halloween foi buscá-la à oralidade. «A origem da palavra griot é africana. Era um falar com tambores. Depois o toasting na Jamaica. O rap aparece no fim dos 80s.» A filiação que traça é a de uma cadeia de vozes, do cronista-cantor que na tradição da África Ocidental guardava a memória do grupo ao dj jamaicano que sobre o ritmo ia dizendo, em improviso, a crónica do dia. Uma escrita antes da escrita, portanto: literatura sem papel, feita de fôlego, de tambor e de comunidade.Só que a oralidade, ao chegar aos bairros, não encontrou balcões abertos. «Tentavam nos agarrar quando viam talento, mas 4/5 miúdos da periferia nem recibos sabiam preencher. Aí eram largados.» A frase é seca como um recibo por preencher, e diz quase tudo sobre o hiato entre a energia criativa e a literacia burocrática que a indústria sempre exigiu. Para gravar, alguns tinham de montar o próprio sistema, porque não lhes era permitido serem autênticos dentro de um estúdio alheio, e recomeçar tudo desde o princípio. A geração seguinte encurtou o caminho, dispensou a mediação e saltou os degraus: «Era ir diretamente da rua para a internet.»Mas o artista não poupou o próprio território, e é aqui que a conversa ganha a sua gravidade menos confortável. «As lideranças que passam pelos bairros fabricam uma ideia de que os miúdos são e serão sempre do bairro. Podem ter boas intenções, mas existe essa cultura. Mas os miúdos podem ambicionar mais.» Há quem queira investir em iniciativas, notou, «mas no final das contas não fica nada». O recado seguinte não tem entrelinhas: «O líder do bairro tem de abrir o olho.» E há a indústria, esse revisor implacável que corrige o texto até lhe tirar a voz: «Os estilos têm perdido a essência. Ficam sem o sal.» Por isso, diz, «hoje os rappers dão à indústria aquilo que não são». Sobra uma certeza de fim de parágrafo, dita sem ponto de exclamação: «Aqueles que representarem o povo estarão sempre na liderança.»Um dormitório cheio de talentoSe Allen Halloween discute a autoria, Cíntia Veiga discute a infraestrutura. Lembrou que a chamada cena raramente nasce só dos artistas que sobem ao palco: antes deles há famílias, bairros, festas, associações, produtores, redes informais que preparam o solo onde a semente cai. A sua versão da origem é doméstica, feita de cozinha e de sala: «A música vem de algo que nos é transmitido, começa pela família. A música vem muito deste lugar de partilha.» Uma transmissão, note-se, sem manual nem editora, à maneira dos ofícios que se aprendem de mão em mão.Dessa partilha nasceu um festival na Serra das Minas, e com ele o mapa de uma ausência. «A linha de Sintra está cheia de talento, mas não conta para a maioria. Não tem eventos culturais, nada. É um dormitório.» A palavra pesa pela sua exatidão urbanística: o território que serve para dormir e mais nada, onde a vida cultural é uma exportação para a capital. A relação com o poder local tem o ritmo de um parágrafo truncado: «Quando chegamos ao poder local duvidam de nós e limitam os processos.» Começaram a trabalhar com a junta, mas os recursos são escassos e há espaços vedados, a começar por aqueles onde a legitimidade se consagra.A conclusão é geográfica e simples, e por isso mesmo radical: «Se a música vem da periferia também se deve deslocar para lá.» Sem ilusões de idílio, porque, acrescentou, «há outra dificuldade que são as rivalidades de cada zona». A cena, afinal, não é um bloco: é um arquipélago de vizinhanças que ora se ajudam ora se vigiam, e a tarefa de quem organiza é a de quem constrói pontes entre ilhas sem lhes apagar as marés.O Atlântico não pediu licençaNa prática de Xullaji, que cruza música, investigação e intervenção cultural, a origem tem algo de anatomia. «Veio logo da barriga da minha mãe. De uma casa no Cais do Sodré que ela limpava. Dos braços e força do trabalho do meu pai. Vem com eles e com elas.» Há, nesta enumeração, uma genealogia do trabalho: a música como herança material, transmitida em esfregona e em ombros cansados antes de o ser em acordes. A cronologia oficial, essa, desfaz-se: «A música não veio nos anos 70 de Nova Iorque. Tinha ficado no Atlântico. E vai-se configurando nos lugares onde se fixa.»A frase desloca o eixo da história do género. Onde o relato corrente ata um começo a uma cidade e a uma década, Xullaji propõe uma travessia: a música como coisa que viajou, ficou, se depositou e se reconfigurou conforme o cais onde aportou. Também a centralidade é, neste olhar, um palimpsesto, camada sobre camada de raspagens: «As músicas que compõem o centro de Lisboa hoje já nós ouvíamos há muito tempo», disse, situando a fonte «num sítio de resistência de se autoexplicar». Quem ouviu sempre não precisa de ser descoberto; precisa, quando muito, de ser citado com rigor.Sobre a tecnologia, recusou o adjetivo fácil. A internet ajudou e deu, reconhece, «uma possibilidade incrível», mas não democratizou a criação. A memória que invoca é artesanal: «Nós antes íamos aos bairros buscar caixas de samples e sons.» Era um trabalho de garimpo, de porta em porta, de ouvido em riste. Hoje a facilidade do acesso não faz sinonímia com liberdade: «Mas não é sinónimo de democratização. A tecnologia é subvertida. As big techs dominam os meios de produção. Para onde a queremos levar?» A interrogação final fica no ar como uma nota sustentada: quem detém a oficina, detém a gramática.O bairro, avisou, também é mercado, e sair dele outro. «Sair do bairro é um mercado. Vamos sair de 500 anos de colonialismo e mais de 200 de capitalismo. Faz parte do projeto separar todas as pessoas. Dividir para reinar, até à separação intergeracional.» O velho preceito do divide et impera surge aqui ao serviço de uma leitura de longa duração, a de que a fragmentação entre gerações, zonas e vizinhos não é acidental, mas método. A resposta que propõe é de ofício diplomático e paciente: «Temos de continuar a construir pontes. Fazer essas diplomacias.» Pontes, como as de Cíntia Veiga; olhos abertos, como os de Allen Halloween. Um coro sem ensaio.E o preço de existir fora do guião é dito sem eufemismo: «se fizeres uma coisa que não é suposto vão-te dizer que o dinheiro é deles.» Antes de fechar a conversa, deixou o veredicto sobre a cidade onde tudo isto se ouve: «Lisboa cospe as pessoas. E depois chupa o que criam.»Uma geografia invisívelO estilo das ruas transporta um lugar sem precisar de lhe dizer o nome. Reconhece-se uma cidade num ritmo, uma infância numa voz, uma época numa produção, uma comunidade numa maneira de cantar. Debaixo da canção há quase sempre outra coisa, uma geografia invisível, feita de pessoas e de tempo. Uma música nunca chega sozinha: traz sotaques, referências, conflitos e afetos, e pode nascer num bairro e acabar num palco internacional, ou partir de uma experiência íntima e ficar como memória coletiva. O conteúdo Allen Halloween no Iminente: «A fotografia tem de ser tirada por nós ou fica desfocada» aparece primeiro em Revista Líder.