Chegar primeiro não basta: em cripto, vence quem se adapta

Wait 5 sec.

Construir uma empresa tradicional já é extremamente difícil. No Brasil, cerca de 60% fecham nos primeiros cinco anos. Isso acontece, mesmo quando as leis são claras, os concorrentes são conhecidos, com produto já validado e em mercados com décadas de histórico de dados à serem analisados para diminuir os riscos.Agora vamos comparar com o mercado cripto. As regras mudam o tempo todo, evolução tecnológica extremamente rápida, novas ideias disruptivas o tempo todo, além de uma concorrência mundial e não só no comércio local do bairro. Empreender no mercado cripto é um desafio absurdo.Por isso, o chamado First-mover advantage (vantagem de ser o primeiro), não é tão comum assim. Pois não basta você ser o pioneiro, é preciso conseguir se manter no topo.Capitalização de mercado, tempo de vida e uma comunidade engajada importam, mas essas vantagens competitivas podem desaparecer se o projeto parar no tempo, pois novos concorrentes vão resolver alguns problemas que ele ignorou.Por se tratar de um mercado extremamente disruptivo, com aplicações em diversas áreas, a principal característica do setor não é a inovação, isso as startups tradicionais já fazem. O que mais importa aqui é a capacidade de adaptação.Não vence aquele projeto que teve a melhor ideia, pois como esse é um mercado de código aberto (open source), ela pode ser copiada e implementada rapidamente. Vence aquele que conseguir manter a rede segura, operando continuamente em momentos de estresse, corrigir erros o mais rápido possível, absorver inovações dos concorrentes e continuar construindo quando o entusiasmo da narrativa desaparece.O pioneirismo dá vantagem, mas não garante a liderançaComo diz o velho ditado popular: quem chega primeiro bebe água limpa. É claro que os primeiros projetos que surgiram de cada setor, certamente possuem vantagens competitivas difíceis de serem copiadas rapidamente, como:Maior número de usuários ativos;Maior volume de negociação, justamente porque tem mais usuários;Maior Valor Total Depositado (Total Value Locked – TVL);Maior depósito em Staking;De forma geral, mais desenvolvedores construindo ou interessados em participar;Maior reconhecimento da marca, devido ao tempo de mercado;Histórico de segurança;Provavelmente mais descentralizado.Esse é o chamado Efeito de Rede. Quanto mais pessoas usam uma plataforma, mais útil ela tende a se tornar. E quanto mais útil, maior a chance de atrair novas pessoas. Quanto mais investidores, mais segura a rede fica. Vamos pegar como exemplo, uma exchange descentralizada (DEX). Ela oferece melhores rendimentos nas suas pools, justamente porque tem mais investidores negociando. Quanto maior o número de negociações, mais eficiente ela é na troca de ativos. Isso atrai mais usuários. Quanto mais usuários, mais eles realizam depósitos nas pools. Quanto maior o TVL, mais segura ela fica. Parece uma barreira intransponível. Mas não é.Por que alguém iria para um projeto menor, rendendo menos, pouco eficiente e com risco maior?Precisamos saber que nenhum projeto é perfeito. Todos vão ter alguns pontos de crítica. Cada um escolhe o risco que quer correr. Muitas vezes, no final das contas, alguns projetos acabam sendo mais populares mesmo não possuindo as melhores características. Por exemplo, muitos preferem rendimento do que liquidez.No mercado cripto, concorrentes menores podem adotar estratégias extremamente agressivas, simplesmente porque têm menos a perder. Eles são responsáveis por testar novas soluções, oferecer incentivos mais agressivos, distribuir airdrops, cobrar taxas menores, distribuir parte das taxas para os detentores dos tokens, criar uma experiência do usuário mais simples, ser mais transparente e assim, atacam diretamente algumas limitações dos líderes.Isso acontece em todos os setores, seja nos NFTs, nas memecoins, Staking, inteligência artificial, DEX ou RWAs. Diversos projetos cresceram nesses mercados, pois encontraram uma estratégia de atração de usuários, construíram comunidades e ofereceram incentivos financeiros.Por isso, no mercado cripto, não basta ser disruptivo. É preciso acertar o produto, o timing de mercado, a narrativa e até mesmo a estratégia. Chegar primeiro ajuda, mas o poder de adaptação é que decide quem fica na liderança.Os maiores projetos aprendem com os menoresPor outro lado, nem toda inovação derrota os pioneiros. Justamente porque os maiores projetos podem absorver as melhores ideias dos menores, antes que eles consigam ameaçar sua posição. Isso é possível porque os líderes têm mais capital para investir, um grande time de desenvolvedores, uma comunidade engajada e infraestrutura para implementar a solução rapidamente.O Ethereum é um bom exemplo. A rede passou por uma das maiores atualizações da história do mercado cripto quando fez a transição do modelo de prova de trabalho (Proof-of-work) para prova de participação (Proof-of-Staking). Além da mudança de modelo de mineração para validação, a rede começou a retirar de circulação parte dos ETH pagos em taxas, copiando artificialmente a escassez do BTC. Para otimizar as taxas, passou a tratar as redes de segunda camada (Layer 2) como parte central de sua estratégia de escalabilidade, ponto fraco atacado constantemente pelos concorrentes.O case da Solana (SOL) também mostra como a agilidade na adaptação é importante. Depois de enfrentar travamentos críticos recorrentes nos últimos anos, a rede passou a ser pressionada a evoluir e agora, consegue “consertar o carro em movimento”.Recentemente, os participantes da rede também votaram para acelerar a desinflação do SOL, o que favorece sua escassez. A comunidade aprovou uma redução na emissão do ativo, mas rejeitou uma proposta que aumentaria a queima de SOL, baseado nas taxas de transação, semelhante ao citado anteriormente na Ethereum.A discussão mais importante aqui, não é se a decisão foi positiva ou negativa para o preço dos ativos. O que eu quero mostrar é que até mesmo as maiores infraestruturas de contratos inteligentes do mundo perceberam que não poderiam permanecer exatamente igual se quisessem permanecer redes relevantes.O grande desafio é equilibrar os interesses dos usuários, do time de desenvolvedores, dos investidores em geral e reforçar as principais características de cada rede, já que nenhuma será perfeita. Quanto maior o projeto, mais difícil será mudar a rota no futuro, dando mais oportunidade para os concorrentes.A disputa não acontece apenas entre blockchainsA lógica vale para todos os setores do mercado cripto. O SandBox (SAND) superou o Decentraland (MANA) ao dar uma aplicação para o metaverso. A ZCash (ZEC) superou a Monero (XMR) nas transações de privacidade.A Hyperliquid (HYPER), por exemplo, mostrou que ainda há espaço para desafiar grandes exchanges descentralizadas (DEX), como a líder absoluta, Uniswap, ao criar uma experiência mais próxima das plataformas centralizadas, especialmente para os derivativos. Até mesmo nas stablecoins, a USDT e USDC construíram posições muito fortes porque chegaram cedo, conquistaram distribuição global e se tornaram parte essencial da liquidez dos criptoativos.Essa presença cria uma vantagem enorme, mas o surgimento da Open USD (OUSD), mostra que até mesmo esse setor, está aberto a novos modelos. O projeto reúne mais de 140 empresas, incluindo nomes como Visa, Mastercard, BlackRock, Google, Coinbase e grandes bancos. Sua proposta inovadora é distribuir os rendimentos das reservas, com todos os parceiros, além de operar com uma governança mais colaborativa (quase que descentralizada).Ainda é cedo para saber se a OUSD terá adoção relevante. Mas o projeto ataca uma fragilidade importante das stablecoins atuais: a USDT e USDC concentram os ganhos financeiros gerados pelo lastro. A distribuição dos rendimentos ataca esse ponto crítico e isso pode alavancar sua adoção. Entretanto, basta as duas darem a ignição para essa estratégia, que isso deixará de ser uma vantagem competitiva.A lição que fica é, que um novo concorrente não precisa destruir o líder imediatamente. Basta encontrar uma parte mal resolvida do modelo atual, diminuir as margens e oferecer incentivos melhores para atrair rapidamente usuários, empresas e distribuidores.O teste real acontece quando o mercado esfriaÉ nos períodos de baixa como o atual, que a diferença entre projetos sólidos e aqueles baseados no hype, aparece com mais clareza.Isso porque, quando os preços sobem, quase toda promessa parece convincente. A liquidez aumenta de forma generalizada, os investidores toleram riscos maiores e qualquer narrativa nova pode atrair atenção por vários meses.Mas quando o mercado esfria, o cenário muda. É nesse momento que os projetos precisam provar que conseguem:Atrair e reter os desenvolvedores;Preservar a liquidez do ativo;É o momento ideal para realizar atualizações da rede com baixo risco;Aprender e identificar o motivo do fracasso dos concorrentes;Evitar que usuários migrem para alternativas mais consolidadas, com menor risco;Encontrar utilidade além da especulação (como aconteceu com os airdrops, memecoins e NFTs).Quem passou pelo teste do tempo, de pelo menos duas temporadas de baixa, já superou uma série de ideias que pareciam revolucionárias. Isso cria uma vantagem competitiva relevante, mas não uma garantia eterna. No fim, liderar a aplicação, é saber defender o seu lugar.A principal vantagem é continuar construindoOs projetos que conseguirem atravessar momentos difíceis, manter a segurança, reter usuários e seguir se desenvolvendo enquanto quase todo mundo foi embora terão mais chance de se destacar no próximo ciclo.Isso não significa que todo projeto antigo sobreviverá para sempre. Nem que todo projeto novo fracassará inevitavelmente. Mas significa que o investidor precisa olhar além da narrativa do momento. Por isso, a pergunta mais importante, não é qual setor está em alta no momento. E sim quais protocolos estão se tornando mais úteis, mais seguros, mais líquidos e mais difíceis de serem substituídos.No mercado cripto, para sobreviver não basta se agarrar ao que funcionou no ciclo anterior. Você precisa entender que o ambiente muda rápido, que os concorrentes aprendem rápido e que nenhuma vantagem dura para sempre sem evolução.Chegar primeiro, apenas abre caminho, testa a aplicação, valida o produto. Continuar na liderança exige visão de futuro e disposição para mudar. Aqueles que conseguem identificar as melhores características do mercado e se adaptam o mais rápido possível à mudança (antes da ideia se tornar o padrão do mercado) certamente possuem maiores chances de sobreviver.Sobre o autorThales Inada é especialista de criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Atua profissionalmente no mercado cripto desde 2017, com passagem pelas maiores exchanges do Brasil e do mundo.O post Chegar primeiro não basta: em cripto, vence quem se adapta apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.