A Bracell tem colocado a eficiência logística no centro da estratégia para reduzir emissões e aumentar a competitividade do negócio, especialmente no transporte de eucalipto até as unidades industriais. A empresa avalia alternativas como a eletrificação de caminhões de grande porte e o uso de biometano para descarbonizar uma operação que envolve dezenas de milhares de viagens ao longo do ano.Segundo Márcio Nappo, vice-presidente de Sustentabilidade e Comunicação Corporativa da Bracell, a logística florestal é atualmente o principal ponto de atenção da companhia em relação às emissões.O executivo afirma que, apesar de a operação industrial já apresentar um nível elevado de descarbonização, o transporte da matéria-prima ainda representa um desafio relevante. Leia Mais Produção de biometano deve saltar no Brasil até 2032 com novas plantas Biometano e ferrovia reduzem emissões no transporte de açúcar Eficiência operacional como motor imediato da descarbonização no transporte “Temos, ao longo do ano, dezenas de milhares de viagens para o transporte de eucalipto para nossa operação industrial, feito por caminhão. Com isso, há um desafio bastante importante que é a descarbonização da frota logística”, disse à CNN Brasil.A companhia já testa alternativas para enfrentar esse desafio. A Bracell foi, segundo Nappo, a primeira empresa do Brasil a realizar testes com caminhões elétricos de grande porte, com mais de 30 toneladas. A tecnologia, porém, ainda enfrenta limitações relacionadas à autonomia, principalmente pelas distâncias percorridas pela frota. “Estamos falando de trajetos de 200, 300, 400 quilômetros. Então, a questão da bateria acaba sendo um elemento central nesse processo”, afirmou.Diante dessas limitações, o biometano aparece como uma alternativa que vem ganhando espaço nas avaliações da empresa. De acordo com o executivo, a Bracell tem analisado diferentes soluções para reduzir as emissões do transporte florestal e considera o combustível renovável uma possibilidade promissora.“Temos olhado várias opções, desde a eletrificação da frota. E uma que está se colocando de maneira bastante promissora é a questão do uso de biometano para essa logística florestal”, afirmou.A busca por eficiência logística faz parte de uma estratégia mais ampla da companhia, que passou a incorporar metas ambientais diretamente à operação. O programa Bracell 2030, lançado em 2023, reúne 14 compromissos relacionados à biodiversidade, questões sociais, produção sustentável e mudanças climáticas.Entre as metas estão a redução de 47% do consumo de água por tonelada de celulose produzida até 2030, a diminuição de 90% dos resíduos sólidos enviados a aterros e o corte de 75% das emissões por tonelada de celulose. Para Nappo, essas metas funcionam também como instrumentos de eficiência operacional.“Nos últimos anos, temos traduzido vários dos nossos compromissos ambientais em alavancas para melhorar a eficiência operacional, a circularidade dos materiais, a redução de custos e riscos e a resiliência do negócio”, destacou.Outra frente de geração de eficiência está na produção de energia. A operação da Bracell em São Paulo, responsável por mais de 85% da produção total da companhia, foi projetada para operar sem combustíveis fósseis. A unidade utiliza resíduos e subprodutos da fabricação de celulose, principalmente o licor negro, para produzir energia.Em 2025, a estrutura teve capacidade de gerar até 330 MW (megawatts) de energia limpa e renovável. Parte é consumida pela própria operação e o excedente, estimado pelo executivo entre 100 MW e 150 MW, é destinado à rede nacional.“O volume é suficiente para que a planta opere totalmente livre de combustíveis fósseis e ainda sobra um excedente que temos exportado para o grid nacional. Portanto, na Bracell, não só avançamos na descarbonização e na produção de bioenergia, mas principalmente na geração de valor adicional ao negócio”, afirmou.Com isso, a produção de energia passou a representar uma frente adicional de operação. Além de produtos principais como a celulose kraft e a celulose solúvel, a empresa também passou a gerar energia renovável como parte da atividade industrial.Rastreabilidade e mercado internacionalA estratégia de sustentabilidade também está ligada à posição da companhia nos mercados internacionais. Nappo afirma que a rastreabilidade ganhou importância nas cadeias globais, especialmente diante de novas exigências regulatórias relacionadas à origem das matérias-primas e ao desmatamento.Segundo ele, toda a produção da Bracell é certificada por padrões internacionais do setor florestal, com rastreabilidade desde a origem da matéria-prima até a entrega ao cliente. A empresa também desenvolveu um sistema próprio para ampliar o controle sobre a origem do eucalipto.“A rastreabilidade é um conceito que veio para ficar e que vai ditar um pouco a disciplina das cadeias de produção, principalmente de commodities, nos próximos anos”, afirmou.Na avaliação do executivo, a combinação entre rastreabilidade e descarbonização tende a ser cada vez mais relevante para o acesso a mercados. A companhia afirma já ter reduzido em 47% suas emissões em relação à base de 2020 e mantém a meta de chegar a uma redução de 75% por tonelada de celulose produzida até 2030.Nappo também destacou a necessidade de ampliar a estratégia de conservação ambiental. A Bracell mantém o chamado “Compromisso Um para Um”, pelo qual se compromete a proteger e conservar um hectare de mata nativa para cada hectare de eucalipto.Para os próximos anos, a companhia pretende concentrar sua agenda de sustentabilidade em três frentes, o avanço das metas do Bracell 2030; a descarbonização da cadeia de valor com atenção especial à logística florestal e a conservação de ecossistemas naturais.Clima e degradação redesenham o lucro no agro e impulsionam integração