A conta da clareza: o que a semana revela sobre o futuro das criptomoedas

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Na última semana, quatro movimentos aconteceram em paralelo de uma forma que raramente acontece por acaso. O Senado americano derrubou o Clarity Act, o projeto que o setor perseguia havia mais de um ano. Um dia depois, a Câmara aprovou em comissão uma reforma tributária específica para ativos digitais. No Brasil, a Lemon anunciou que deixa o país e atribuiu a decisão às novas exigências do Banco Central, dois dias depois de a Crypto.com comunicar o encerramento da sua conta em reais. E, em Genebra, a Organização Mundial do Comércio publicou um estudo dizendo que o gargalo das stablecoins no comércio internacional não é tecnológico, é regulatório.O que une essas histórias aparentemente dispersas é um único fio: a clareza regulatória tem preço, e esta semana ele apareceu nos dois sentidos. Onde a regra chegou, ela chegou com uma fatura operacional que já está selecionando quem fica. Onde ela não chegou, o vácuo também cobra o seu. Para o Brasil, que tem data marcada no calendário, isso importa mais do que parece.Bastidores de Washington O Clarity Act não conseguiu avançar no Senado na terça-feira. A votação de procedimento, que exigia 60 votos, terminou em 49 favoráveis e 50 contrários. O projeto já havia passado pela Câmara em julho de 2025, por 294 a 134, com o apoio de 78 democratas, e chegou à reta final com mais de 600 páginas de compromissos negociados. Mesmo assim, travou em dois pontos: as regras de ética para autoridades públicas com negócios em ativos digitais e a disputa sobre recompensas pagas por stablecoins, tema em que as associações bancárias pressionavam por restrições mais duras.O senador Thom Tillis mudou seu voto para não no fim do processo, movimento que lhe permite apresentar uma moção de reconsideração. Mas o calendário joga contra: as eleições legislativas americanas acontecem em 3 de novembro, e qualquer novo acordo ainda precisaria percorrer o processo inteiro. Se não houver avanço nesta legislatura, a próxima tentativa fica para o Congresso que assume em janeiro de 2027.Enquanto isso, a construção continua por outros canais. Na quarta-feira, o Comitê de Meios e Recursos da Câmara aprovou o projeto de certeza fiscal para ativos digitais, que classifica recompensas de mineração e staking como renda ordinária, simplifica o cálculo de imposto para stablecoins de dólar negociadas perto do valor de resgate e cria uma isenção para taxas de rede de até US$ 10 a partir de 2028. E SEC e CFTC seguem avançando com os poderes atuais, depois da interpretação conjunta publicada em março e da proposta de regulação de ofertas apresentada pela SEC em agosto.A leitura prática é desconfortável para quem opera nos Estados Unidos: o país segue construindo regra, só que em pedaços, por agência, sem o mapa único que uma lei de estrutura de mercado daria. Isso não paralisa ninguém, mas mantém o custo de incerteza jurídica no orçamento de todo mundo por mais um tempo.No Brasil, a conta chegou com dataDo outro lado do hemisfério, o problema é exatamente o oposto, e o efeito é igualmente concreto.A Lemon, plataforma criada na Argentina, anunciou nesta quinta-feira que encerra a operação brasileira e afirmou, em comunicado a clientes, que a nova regulamentação criou regras e exigências que não favorecem o desenvolvimento de produtos do setor. O cartão que a empresa lançou no Brasil em agosto, em parceria com a Pomelo, deixa de funcionar em 30 de setembro, e as contas brasileiras serão encerradas em 16 de outubro. A decisão é restrita ao Brasil e não afeta Argentina, Colômbia e Peru.Dois dias antes, na terça-feira, a Crypto.com comunicou aos clientes que encerra a conta em reais em 25 de outubro. Depósitos, saques e negociação direta contra o real deixam de existir, e saldos remanescentes serão convertidos automaticamente em USDC. A empresa não anunciou saída do país, mas o aplicativo deixa de funcionar como porta de entrada e saída entre o sistema bancário brasileiro e os criptoativos.Nenhuma das duas datas é coincidência. Pelas Resoluções BCB 519, 520 e 521, publicadas em novembro de 2025 e com o núcleo em vigor desde fevereiro, as empresas que já operavam têm até 29 de outubro para protocolar o pedido de autorização. A partir de 30 de outubro, instituições financeiras e de pagamento reguladas pelo Banco Central ficam impedidas de viabilizar determinadas operações com prestadoras que não estejam autorizadas ou em processo de autorização.E há um número que explica boa parte das decisões desta semana. As exigências de capital e patrimônio variam conforme o risco e o conjunto de atividades, indo de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões. Para operações menores ou com modelo mais enxuto, esse é o tipo de linha que define permanência, não estratégia.O outro lado da mesma réguaSeria fácil ler essas saídas como custo puro. O Banco Central apresentou a outra metade da conta no mesmo dia, em painel no Digital Assets Conference.Nagel Paulino, chefe de divisão do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro, colocou a questão em termos comerciais: sem um regulador claramente responsável pela sua supervisão, determinadas instituições e investidores estrangeiros sequer conseguem negociar com você. Nas palavras dele, quem chega a um institucional sem esse tipo de qualificação não tem condições de fechar a operação. É a definição mais direta que já ouvi de licença como ativo competitivo, e não como despesa de conformidade.Paulino também sinalizou a próxima etapa. Staking e stablecoins ainda devem receber tratamento mais específico, com balizas e qualificações mais precisas. Desde fevereiro, a Instrução Normativa BCB 713 já obriga o envio mensal de informações sobre provas de reservas e operações de staking. E, desde julho, as prestadoras estão enquadradas como instituições Tipo 3, com exigências prudenciais de gerenciamento de risco, capital e divulgação a partir de janeiro de 2027.A régua, portanto, não para em outubro. Ela continua subindo, com calendário publicado.Padrão GlobalO padrão não é brasileiro. É global, e a semana ofereceu o contraponto exato.O estudo da OMC apresentado em Genebra registra que os pagamentos transfronteiriços em stablecoin cresceram 35 vezes entre 2020 e meados de 2024, e que esses ativos respondem hoje por cerca de 3% do total dos pagamentos internacionais. Segundo Juan Marchetti, diretor de comércio em serviços e investimento da organização, a restrição não está na tecnologia, e sim na falta de desenvolvimento dos arcabouços regulatórios. Apenas 39% das jurisdições pesquisadas pelo Financial Stability Board, 11 de 28, concluíram seus marcos para stablecoins.Ao mesmo tempo, o Banco da Itália determinou que prestadores de serviços de criptoativos implementem controles internos para aplicar as sanções financeiras da União Europeia nas transferências. Nas Filipinas, o banco central propôs suspender por doze meses a aceitação de novos registros de operadores de sistemas de pagamento, enquanto revisa sua taxonomia. E a AUSTRAC, na Austrália, cancelou, suspendeu ou recusou renovar 45 registros de empresas de cripto e remessas nos últimos doze meses.As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. A adoção trava onde falta regra, e onde a regra chega ela vem com exigência operacional real. O custo de entrada no mercado regulado está subindo de forma previsível, e isso pesa muito mais em quem está começando do que em quem já tem estrutura.Os números por trás do movimentoEnquanto a política discute, a infraestrutura segue sendo contratada.Vinte e um dos maiores bancos e gestoras do mundo, com Goldman Sachs, Bank of America e Citi à frente, se comprometeram a criar uma empresa para emitir uma stablecoin em dólar, com meta de lançamento no primeiro semestre de 2027 e uma versão em euro na fila. O grupo mais que dobrou desde a exploração inicial de dez bancos, anunciada em outubro de 2025.A Visa passou a financiar programas de cartão em stablecoin com crédito onchain, combinando dados de liquidação da VisaNet com registros em blockchain para que credores avaliem risco. O volume de liquidação em stablecoin da rede passou de um ritmo anualizado de US$ 20 bilhões, alta de mais de quinze vezes, e o volume de pagamento nos mais de 160 programas de cartão ligados a stablecoin cresceu quase 200% em um ano.E o Nubank lançou o Nu Global, conta internacional em que todo depósito é convertido em USDC ou EURC, com rendimento diário, cartão Mastercard virtual e envio para mais de 35 países. Repare na divisão de papéis: o banco não emite a stablecoin, ele distribui. A emissão é da Circle. Esse desenho vem se firmando como o caminho padrão.O que isso significa para o BrasilO Brasil chega a outubro em uma posição incomum. Tem prazo definido, custo dimensionado, regulador que já anunciou a etapa seguinte e um mercado em que as stablecoins deixaram de ser categoria e viraram a maior parte do volume. Poucos países têm essa combinação, e nenhum deles chegou a ela sem alguma reorganização do próprio mercado.As saídas desta semana não são um veredito sobre a regra brasileira. São o retrato de um mercado passando por um filtro que já estava publicado no Diário Oficial havia dez meses. O que separa quem fica de quem sai não é tamanho, é a decisão de tratar autorização como parte do produto e não como um item de custo a ser adiado.Sobre o autorCaio Barbosa é fundador e co-CEO da Lumx, empresa brasileira de infraestrutura blockchain voltada a soluções de pagamento com uso de stablecoins. Foi eleito Forbes Under 30 em 2022 e selecionado para o Latitud Fellowship, programa que reúne os empreendedores mais promissores da América Latina.O post A conta da clareza: o que a semana revela sobre o futuro das criptomoedas apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.