Setembro Amarelo: como priorizar a saúde mental nas pequenas empresas

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A campanha nacional do Setembro Amarelo, dedicada à valorização da vida, reforça a importância de olhar para a saúde mental como parte do bem-estar como um todo. Ao longo de todo o mês, empresas, instituições e sociedade ampliam o debate sobre o tema. No ambiente corporativo, a data reforça a importância de conectar a saúde mental ao desempenho, satisfação e cultura, sempre com foco nas relações e no acolhimento de colaboradores.A relevância também fica clara diante das estatísticas envolvendo o tema: de acordo com o INSS, o número de afastamentos por transtornos mentais, como ansiedade e depressão, vêm batendo recordes no Brasil nos últimos anos, atingindo a máxima histórica em 2025, com quase 550 mil licenças concedidas. Leia Mais Empresas podem ser multadas se descumprirem regras voltadas à saúde mental Setembro Amarelo: busca online sobre saúde mental sobe 31.037% Brasil "definha" em saúde mental e recorre à IA para tratamento, diz estudo Ao mesmo tempo, a entrada em vigor da normativa NR-1, que incorpora a saúde mental como parte indispensável das políticas de bem-estar e saúde organizacional no trabalho, passou a exigir das empresas um melhor gerenciamento dos riscos psicossociais.Contudo, mesmo com a crescente visibilidade do assunto, alguns cuidados devem ser tomados por lideranças e empreendedores que desejam fazer luz ao tema em suas empresas. Um passo elementar para isso é reconhecer que campanhas isoladas e que não traduzem de fato o compromisso da companhia a longo prazo dificilmente surtirão efeito. “Agir de forma reativa, na realidade, distancia empresas do objetivo de incorporar a saúde mental como um ativo de longo prazo”, avalia Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, que desenvolve programas de saúde mental para empresas —  e cuja clientela é formada, em sua maioria, por PMEs.Por que a saúde mental ainda é um gargalo nas PMEsPara Tatiana, a principal dificuldade de PMEs em avançar nessa agenda está na falta de maturidade ao lidar com o tema.A avaliação é de que, na maior parte das vezes, essas empresas estão presas às fases mais elementares do bem-estar organizacional, definindo estruturas de pagamentos, benefícios e outras ações básicas que compõem a jornada do colaborador, o que as leva a agir de forma reativa ao invés de estruturada e preventiva.“Muitas PMEs acabam lidando com saúde mental de maneira reativa, quando aparece um afastamento, uma crise ou um caso mais grave. O desafio é ajudá-las a avançar nessa jornada de maturidade e entender que saúde mental também precisa fazer parte da estratégia de gestão de pessoas e de prevenção de riscos”, diz.A mesma falta de maturidade é também vista na ausência de números expressivos que reflitam os resultados diretos das ações de empresas em favor do assunto.Ao operar com margens apertadas e sob a necessidade de justificativas constantes para a destinação de orçamentos, as pequenas empresas não são capazes de encontrar informações que embasem a tomada de decisão e sustentem ações sem resultados comprovados, o que sinaliza um problema crônico de “apagão de dados”, avalia.“Sem dados, fica muito mais difícil entender onde estão os problemas, quais grupos estão mais expostos, quanto isso custa para o negócio e onde priorizar recursos”, diz.“A saúde mental acaba sendo percebida como uma pauta subjetiva ou apenas de bem-estar, quando, na realidade, também tem impacto direto sobre produtividade, custos e capacidade de execução da empresa”.Onde está a soluçãoPara uma PME que nunca trabalhou saúde mental de forma estruturada, o início deve ser pelo diagnóstico, defende a especialista. O primeiro passo é conhecer os próprios números, sendo capaz de enxergar e dimensionar o problema atual.“Antes de implementar qualquer iniciativa, a empresa precisa entender o que está acontecendo com suas pessoas e quais indicadores já possui – afastamentos, absenteísmo, rotatividade, sinistralidade, entre outros”, recomenda a CEO da Vittude.O passo seguinte é avançar dos dados para a humanização, preparando as lideranças a capacitar seus times e ampliar o debate da porta para dentro.São os líderes, defende a fundadora, que devem se debruçar sobre as minúcias envolvendo a saúde mental de seus liderados, especialmente na habilidade de identificar riscos psicossociais e preveni-los. São eles também que devem definir responsáveis e prazos ao acompanhar os indicadores ao longo do tempo.Outra recomendação é afastar-se da ideia de que é possível implementar uma agenda ampla de atenção à saúde mental sem dedicar investimentos específicos para isso.Mesmo ao adotar ações de baixo custo, como treinamento de líderes ou oferecer programas de assistência, há um orçamento considerável envolvido, o que faz necessário olhar para o tema sob a perspectiva de “investimentos” ao invés de “gastos”, conclui Tatiana.“Assegurar níveis elevados de saúde e bem-estar em uma população exige investimento estruturado e assertivo. Isso significa conhecer os problemas, identificar onde estão os maiores riscos e direcionar os recursos para as ações capazes de gerar maior impacto”, diz.Além do Setembro AmareloPara ir além de ações pontuais, como o Setembro Amarelo, e transformar a saúde mental em uma prática contínua de gestão, segundo Tatiana, depende da compreensão profunda sobre os custos que uma empresa realmente tem com afastamentos, absenteísmo e rotatividade, questões que impactam diretamente a produtividade e a cultura.“Quando esses números passam a fazer parte da gestão, a saúde mental deixa de depender de uma campanha ou de uma data no calendário e passa a entrar na tomada de decisão da empresa”, diz Tatiana.Para isso, são necessárias ações baseadas na escuta ativa aos funcionários e, então, o acompanhamento de resultados.“Ouça os funcionários e entenda quais são os principais desafios e riscos presentes naquele ambiente de trabalho. A partir disso, priorize os problemas mais relevantes e tome ações concretas sobre aquilo que foi identificado. Depois, acompanhe os indicadores para entender se essas ações realmente produziram alguma mudança”, conclui.De acordo com Michel Cabral, especialista em saúde ocupacional e CEO da startup Vixting, voltada à digitalização da saúde ocupacional e admissional, o mês de conscientização ressalta a importância do diálogo e da quebra de estigmas relacionados à saúde mental, além de servir como ponto de partida para ações que perduram todo o ano.“A saúde mental exige monitoramento nos outros 11 meses do ano”, diz. “Para isso, o RH moderno precisa de instrumentos para entender o que acontece na organização, identificar padrões e atuar antes que o esgotamento vire um afastamento”.Por Maria Clara Dias