Ainda que nunca tenha sido tão fácil se relacionar e conhecer pessoas com o aumento de aplicativos de relacionamento, o fenômeno dating burnout tem se tornado cada vez mais usual nas dinâmicas afetivas.O termo é usado para descrever o esgotamento emocional provocado pela repetição e pela lógica dos relacionamentos mediados por apps e redes sociais. O sentimento permanente de cansaço ao encarar a construção dos novos relacionamentos é resultado do crescimento de conversas que desaparecem, ghosting, visualizações frias e da sensação permanente de que pode existir alguém “melhor”. Leia Mais Quantidade ou qualidade? Saúde sexual não se mede por frequência de relação Bumble passa a permitir que homens iniciem conversas; veja mais novidades Conheça Raya, aplicativo exclusivo conhecido como "Tinder dos famosos" Para o especialista em comportamento Flávio Calheiros, o desgaste não está necessariamente em conhecer pessoas novas, mas na transformação da interação em uma espécie de performance permanente.“Essa interação deixa de ser prazerosa no exato momento em que conhecer alguém novo deixa de ser sobre desejo e vira sobre performance: performar interesse, performar disponibilidade, performar leveza para não parecer carente. Quando você começa a se cansar antes mesmo do match acontecer, já não é mais uma paquera”, afirma.Para além disso, a quantidade infinita de opções de site, pessoas e modelos de relação também produz um efeito contrário à intenção de aproximar os indivíduos: a dificuldade de escolha e comparação constante.“Quantidade de opção não é o mesmo que qualidade de conexão. O cérebro humano não foi desenhado para processar centenas de possíveis parceiros por semana. Quando você multiplica as opções ao infinito, o sistema entra em sobrecarga de decisão”, explica Calheiros.Assim como em grande parte das questões atuais, o ritmo frenético do cotidiano e a criação de mecanismos que exigem pouca atenção para descrever alguém acabam prejudicando como as relações são criadas e mantidas.Sendo assim, fotos, filtros, biografias curtas e decisões tomadas em poucos segundos transformaram parte da experiência de conhecer alguém em uma avaliação visual momentânea e que exige pouca ponderação por trás.Desinstalar os aplicativos é a solução?Apesar das críticas à dinâmica dos relacionamentos digitais, o especialista em comportamento não defende necessariamente o abandono completo dos aplicativos. A melhor solução para o problema é a modificação e monitoramento pessoal de como cada indivíduo se comporta e responde aos malefícios das redes sociais.Entre as indicações estão reduzir o uso compulsivo, estabelecer horários para acessar os aplicativos e tratar o match como início de uma interação, e não como uma validação pessoal. Além disso, para aqueles que já se sentem em um estado de esgotamento mental, fazer uma pausa das redes pode ser o melhor caminho.“A gente perdeu a tolerância ao intervalo. E é exatamente no intervalo, na espera, que antigamente se construía desejo. Hoje ele só constrói pânico. Pausa digital é o primeiro passo. Trabalhar a própria história afetiva é o segundo, e é o que sustenta a mudança de verdade”, finaliza.*Publicada por Luiza Zequim, sob supervisão de Ana Beatriz Dias, da CNN BrasilRelacionamento aberto é três vezes mais comum entre jovens LGBT+