Subir num ranking nem sempre significa uma melhoria. É o que acontece com Portugal no Global Gender Gap Report 2026, do Fórum Económico Mundial: passa da 34.ª para a 32.ª posição entre as economias avaliadas, mas a sua pontuação recua de 0,767 para 0,763. Segundo a metodologia do índice, o país fechou 76,3% da diferença entre mulheres e homens nas dimensões analisadas.A distinção é relevante, uma vez que a classificação traduz a posição relativa de cada economia, enquanto a pontuação permite acompanhar a distância à paridade. O universo avaliado também varia entre edições, abrangendo este ano 145 economias.Publicado a 16 de setembro, o relatório acompanha quatro áreas: participação e oportunidades económicas, educação, saúde e sobrevivência e participação política. Na sua 20.ª edição, mostra que os avanços acumulados continuam a coexistir com desigualdades no acesso ao rendimento, à progressão na carreira e ao poder de decisão. De facto, a igualdade entre mulheres e homens continua a 120 anos de distância, se o ritmo de progresso se mantiver.Leia também: 90% das executivas sentem que são julgadas com mais rigor do que os homens Portugal aproxima-se da paridade na educação, mas fica mais longe na políticaO desempenho português é desigual entre as quatro dimensões. A educação apresenta uma pontuação de 99,7%, seguindo-se a saúde e sobrevivência, com 97%, e a participação e oportunidades económicas, com 75,6%.A maior distância encontra-se na participação política, com uma pontuação de 33%, abaixo dos 34,2% registados na edição anterior. Esta dimensão considera a representação parlamentar, a presença em cargos ministeriais e o tempo com mulheres à frente do país nos últimos 50 anos.Na esfera económica, Portugal ocupa o 31.º lugar. Os dados reunidos no perfil nacional mostram uma taxa de participação no mercado de trabalho de 55,7% entre as mulheres e 63,5% entre os homens.As mulheres representam ainda 38,9% da categoria que reúne legisladores, altos funcionários e gestores, face a 61,1% de homens. Já entre os profissionais e técnicos, a presença feminina é maioritária, com 52,6%. A diferença evidencia como a representação em funções qualificadas não se traduz numa presença equivalente nos lugares de decisão. Ao ritmo atual, a paridade global demorará 120 anosNas 145 economias analisadas, o índice considera encerrados 69,2% do fosso de género. Nenhuma alcançou a paridade plena. A Islândia mantém o primeiro lugar pelo 17.º ano consecutivo, com 93%, seguida da Finlândia, com 87,2%, e da Noruega, com 85,7%. Espanha surge na 12.ª posição, com 79,6%.Para estimar o tempo necessário até à paridade, o Fórum Económico Mundial acompanha uma amostra constante de 97 economias presentes em todas as edições desde 2006. Se o ritmo histórico de progresso se mantiver, serão necessários mais 120 anos. Trata-se de uma projeção condicionada à evolução observada.As diferenças entre áreas são expressivas: a estimativa aponta para oito anos na educação, 129 anos na participação e oportunidades económicas e 194 anos na participação política. A presença feminina reduz-se a metade entre a entrada e o topoO relatório analisa também o acesso a posições de liderança, recorrendo a dados do LinkedIn. Numa amostra de 57 economias, com observações até junho de 2026, as mulheres representam, em média, 46% dos profissionais em funções de entrada, mas apenas 23% nos cargos executivos de topo, habitualmente designados por C-suite.Esta comparação mostra a diferença de representação entre níveis hierárquicos; não significa que metade das mulheres tenha abandonado a carreira.As funções ocupadas também contam. Noutra análise, que abrange 39 economias e utiliza dados até dezembro de 2025, as mulheres representam 19,1% dos CEO e apenas 8,6% dos diretores de tecnologia. Em contrapartida, ocupam cerca de dois terços das funções de direção de recursos humanos e de pessoas.O relatório salienta que as mulheres continuam sub-representadas em cargos que frequentemente antecedem a chegada a CEO, como a direção financeira ou de operações. Mesmo entre profissionais com experiências comparáveis nessas funções, persistem diferenças no acesso à liderança máxima. As interrupções de carreira continuam a pesarO equilíbrio entre vida profissional e pessoal é outra dimensão relevante. Segundo os dados do LinkedIn relativos a 60 economias, as mulheres têm quase o dobro da probabilidade de registar interrupções de carreira.As pausas para cuidar dos filhos a tempo inteiro são muito mais frequentes entre as mulheres. A análise identifica também diferenças na progressão depois do regresso ao trabalho, com os homens a apresentarem maior probabilidade de chegar a um nível hierárquico superior.Estes resultados apontam para a importância de acompanhar o que acontece ao longo do percurso profissional: quem interrompe a carreira, em que condições regressa e que oportunidades encontra depois. A inteligência artificial reproduz desigualdades existentesA expansão da inteligência artificial também não está a eliminar os desequilíbrios. Nos dados analisados pelo LinkedIn para 19 economias, as mulheres representam 44,8% dos profissionais que preparam e classificam dados para treinar sistemas, mas apenas 19,3% dos engenheiros de IA e 20,6% dos engenheiros de aprendizagem automática.A distribuição importa porque estas funções oferecem diferentes possibilidades de remuneração, influência e progressão. A participação na economia da IA depende, assim, tanto do acesso ao trabalho como do lugar ocupado no desenvolvimento da tecnologia.Vinte anos depois da primeira edição, o relatório mostra avanços, mas também os seus limites. Para as organizações, o desafio passa por acompanhar quem é contratado, quem progride e quem chega às funções onde se decide o futuro do negócio.O conteúdo Igualdade de género: Portugal sobe no ranking, mas afasta-se da paridade aparece primeiro em Revista Líder.