Clara Capitão, diretora editorial da Penguin Random House Grupo Editorial, conversou com a Líder nos bastidores da quarta edição do Book 2.0, que decorreu nos dias 15 e 16 de setembro, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. Organizado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), sob o lema «Back to Basics. Back to Books», o encontro reuniu cerca de 50 oradores nacionais e internacionais em torno de três eixos: o cruzamento entre cultura, educação e economia na promoção da literacia; o impacto dos direitos de autor e da inteligência artificial no setor editorial; e a relação entre democracia e liberdade de expressão.Entre os presentes contaram-se o cardeal José Tolentino Mendonça, a ex-primeira-ministra finlandesa Sanna Marin, o atual Presidente da República António José Seguro e responsáveis governamentais e autárquicos. À margem do painel em que participou, a editora falou sobre o lugar dos livros num tempo de saturação digital, o papel dos algoritmos na curadoria da leitura e o que falta fazer, em Portugal, para devolver tempo e hábito à leitura. Vivemos rodeados de mais informação e mais livros do que nunca. Porque é tão difícil fazer alguém parar para ler?Acho que temos dois movimentos em paralelo. Por um lado, há uma grande ascensão digital, inegável, em todas as suas formas, que necessariamente retira tempo, atenção, concentração e dedicação, tempo que poderia ser aplicado à leitura. Por outro lado, e falou-se muito nisso aqui no Book 2.0, há uma certa fadiga digital. Ao mesmo tempo que as pessoas procuram informação sobre os seus interesses nas plataformas digitais, também fogem delas. Não é uma coisa generalizada, é mais de grupos restritos, mas procuram nas plataformas informações sobre os seus interesses, sejam livros, cinema, arte ou dança, e depois acabam por arranjar tempo para a leitura, para se encontrarem com os seus autores ou para irem a festivais ou a festas de leitura, que é uma coisa que está muito em voga.Portanto, o digital é evidentemente um sorvedouro de atenção, isso é inegável. Os resultados do relatório do PISA revelaram precisamente isso, o que é particularmente preocupante nas camadas mais jovens, mas também a partir da adolescência e nos chamados jovens adultos: as plataformas começam a ser esse lugar onde se encontra a informação para depois as pessoas se recolherem aos seus interesses. As duas coisas convivem.Mas as redes sociais não são só essa ameaça. Também têm um papel na promoção da leitura?Na verdade, as redes sociais revelaram-se uma plataforma fundamental para a promoção e a divulgação dos livros e do amor pela leitura. Esta exclusão que tem havido nos leitores dos quinze aos trinta anos, mais ou menos, deve-se muito também ao digital, mas a partilha, o querermos partilhar os livros que gostamos, os eventos sobre livros ou com livros em que estivemos, criou uma comunidade, ainda que virtual, uma espécie de bolha mágica que se vai propagando. Para os livros existirem também é necessária essa comunidade.Nós, na APEL, temos sentido isso precisamente na Feira do Livro de Lisboa. Nunca como nos últimos anos a feira teve tantos visitantes jovens, e uma fatia muito importante desses visitantes vai precisamente com essa vontade, em grupos de amigos, não vão sozinhos.Param para folhear os livros em conjunto, trocam livros entre si, estão muito com os autores, nas sessões de autógrafos com autores jovens. Essa interatividade é fundamental. As redes sociais acabaram por permitir esse regresso à partilha da leitura que já existia, do século XIX ao início do século XX, nas tertúlias em cafés, isso deixou de existir e agora acontece de outra forma. É um regresso ao lazer sério, no fundo.Quem faz hoje a curadoria da nossa memória de leitura? São os editores ou são os algoritmos que decidem e circunscrevem os caminhos?É um tema bastante complexo. Há um tempo, o Adolfo Mesquita Nunes falava aqui sobre isso, sobre não termos sequer a quem nos queixar dos algoritmos que nos impõem determinados tipos de conteúdos, não há nenhuma entidade a quem nos queixar sobre isso. Eu tento estar no mundo dos livros, e as minhas redes sociais são muito exemplo disso, só me aparecem conteúdos sobre livros, porque é o que pesquiso, e o conteúdo que me aparece é muito segmentado e leva-me a descobrir autores e editoras estrangeiras que não conhecia.Acho que os algoritmos podem ser positivos. As editoras, ou outros produtores culturais, tentam mostrar a sua curadoria e a sua seleção, segmentar também a forma como a informação é apresentada, e isso é cada vez mais importante. Mas é claro que há mecanismos por trás que nem sempre permitem que isso seja controlado.Ainda acredita que um livro pode mudar uma vida, ou pensamos demasiado em métricas hoje em dia?Eu acredito. Os editores são uns artesãos, temos de acreditar, temos de ser otimistas.Tradicionalmente vemos na inovação, na tecnologia, alguma ameaça ao status quo, ao mundo literário como o conhecemos, mas muitas dessas coisas têm-se revelado oportunidades.Se não fôssemos otimistas, não perseveraríamos neste ofício tão difícil e paciente, que exige tanto tempo, um livro exige no mínimo um ano de trabalho. Se não acreditássemos que os nossos livros chegam aos seus leitores, não estaríamos a fazer o que fazemos.O que é mais difícil: publicar um bom livro ou fazê-lo chegar ao leitor certo?É mais difícil fazê-lo chegar ao leitor certo, porque a oferta é imensa e não controlamos todos os mecanismos por trás da partilha de conteúdos. Mas há uma efervescência ao nível da promoção dos livros, não só a que é proporcionada pelas redes sociais, que por vezes pode chegar ou não ao destinatário correto, mas também com a proliferação de eventos em torno do livro, eventos com autores, mais festivais do que alguma vez houve, muitas feiras do livro por todo o país.Sou editora há vinte anos e nunca vi tanta adesão a eventos presenciais em torno dos livros, seja com autores, seja de discussão, e nunca houve tantos clubes de leitura como há hoje. Mas o negócio da edição tem necessariamente uma alta taxa de fracasso, porque há muitos livros que lançamos, que são muito importantes, que era muito importante que fossem lidos e partilhados, e que passam despercebidos, tendo um ciclo muito curto de vida nas livrarias e na atenção pública. Isso é sempre muito frustrante para um editor ou para um autor que esteve anos a trabalhar no livro. Mas há mecanismos, há comunidades que se podem criar, com persistência, que demoram a construir e dão trabalho a manter vivas, mas que não tínhamos, talvez há dez anos, tão presentes e tão dinâmicos.Quem escolhe os livros que chegam às mãos de uma sociedade está também a escolher, em parte, a sociedade que essa sociedade será. Concorda?Acho que os editores têm hoje mais poder de influenciar o catálogo que fazem do que de influenciar as leituras. A escolha das leituras tornou-se muito mais democrática e muito menos dependente da dimensão e do poder económico de uma editora ou de um grupo editorial do que há dez anos, quando era muito mais determinante o poder comercial de um grande grupo editorial no ponto de venda.Hoje, quem dita muitas vezes o sucesso de um livro são os influenciadores digitais, outros autores que recomendam os livros e criam sucessos organicamente, que as editoras depois perseguem.As editoras têm evidentemente o poder de tentar influenciar essa escolha, mas não é total. É muito mais democrático, tal como aconteceu na música. Continuamos a ter grandes blockbusters, grandes estrelas pop, mas experimentamos muito mais, saltamos muito mais entre géneros e bandas por causa das plataformas. Há uma atomização que se verifica também nos livros, tal como o Spotify permitiu que artistas sem acesso a grandes editoras de música fossem ouvidos.Falávamos de plataformas que decidem o que se ouve ou se lê. O que os editores têm, mais do que nunca, é de ter critério, ter curadoria do seu catálogo, escolher bem o que querem, tendo em conta o público a que se destina a sua marca, a sua chancela ou o seu catálogo. É muito mais importante esse filtro, o que o editor decide publicar e como decide publicar, do que necessariamente o poder de influenciar as escolhas.Esse trabalho de filtragem implica equipas maiores? O setor está em expansão a nível laboral?Creio que sim. No nosso contexto, na Penguin Random House, a equipa que mais cresce é a equipa editorial, porque é onde precisamos de ter mais diversidade, gostos diferentes, editores de idades e de backgrounds diferentes, com gostos distintos. É muito importante que o catálogo de uma editora, sobretudo uma editora generalista como a Penguin e muitas outras, que publica para todo o tipo de leitores e todo o tipo de livros, tente espelhar as necessidades, os interesses e os gostos da sociedade. Não podemos ter só o mesmo tipo de editor a publicar o mesmo tipo de livros, porque não estaríamos a responder ao que as pessoas procuram.Fala-se muito de haver mais jovens a ler. Porquê, na sua opinião?Não é só porque a leitura se tornou sexy e cool, porque é giro andar com um livro debaixo do braço ou ir a festivais e a feiras do livro. É também porque há muitos mais livros que falam a essas gerações. Há muitos jovens que dizem que antes iam a uma livraria e não encontravam nada que os interessasse, nada que espelhasse a sua realidade, as suas frustrações, os seus medos, os seus interesses, os seus sonhos, e agora publica-se muito mais para esses leitores. Ao corresponder ao que a sociedade procura num livro, também estamos a expandir o mercado e a cumprir mais a nossa missão de promover a leitura.O que perde uma sociedade que não lê?Perde sobretudo a capacidade de viver outras realidades, de entender outros pontos de vista, a empatia. Isto não é novidade nenhuma, mas é a qualidade que mais podemos exercer numa leitura de ficção, por exemplo, em que durante horas, semanas, dias, dependendo da dimensão do livro, estamos mergulhados numa vida completamente diferente, que nos permite perceber que um imigrante não é um criminoso, que temos vidas muito privilegiadas em relação a muitas das que vemos descritas nos livros.Esse músculo da compreensão é o que a leitura mais nos dá, e é cada vez mais relevante num mundo com muita informação não verificada e muita polarização. Um livro dá-nos a atenção, o compromisso e a dedicação que exige, e temos o ganho do enriquecimento do nosso horizonte social, político e geográfico, porque compreendemos muitas mais realidades.Uma última pergunta: daqui a vinte anos, o que gostaria que se dissesse que fizemos para proteger o tempo de ler e de pensar?Em primeiro lugar, gostaria que estivéssemos muito tranquilos, e tenho a certeza de que estaremos, quanto à proteção da propriedade intelectual, que é sempre ameaçada pelas evoluções tecnológicas e, mais concretamente neste momento, pela inteligência artificial. O grande desafio que as indústrias criativas têm, não podendo travar a evolução e a investigação científica, é regular a forma como ela é usada e garantir que a propriedade intelectual, seja ao nível da escrita, da música ou da ilustração, é protegida e remunerada com consentimento do autor e dos produtores associados, e que o papel dos produtores culturais está preservado, com uma intermediação cuidada, com seleção e com critério, para que autores, agentes literários, editores e produtores culturais continuem a ter o seu lugar na sociedade, o de oferecer, nos livros, algumas chaves para decifrar o mundo.Quanto ao tempo para a leitura, nenhuma editora, nenhuma organização do setor consegue fazer este trabalho sozinha, e a intervenção política é, a meu ver, fundamental. Aqui, no Book 2.0, ouvimos falar David Hayman, responsável pelo National Year of Reading no Reino Unido, um ano inteiro dedicado à promoção da leitura que possivelmente se tornará numa década inteira dedicada a isso. Essa iniciativa foi feita de forma muito inteligente: não são só as editoras, as associações do setor ou os livreiros a lutar por isso, associaram-se a pequenas instituições culturais locais, aos clubes de futebol. Termos a primeira liga em Portugal a contribuir para isso seria incrível, mas para isso é preciso um apoio político enorme, que envolve vários ministérios. Não vejo solução que não passe por um grande envolvimento político interministerial, e também das bibliotecas e das escolas, para garantir esse espaço para a leitura, num país que ainda está muito atrás da média europeia em hábitos de leitura.Há medidas simples, como a que se instituiu em Itália, de dedicar quinze minutos à leitura livre nas escolas, que as crianças podem escolher. Desde pequeninos, mesmo antes de saberem ler, temos de tornar os livros apetecíveis, desejáveis, objetos de desejo e curiosidade. Isso tem de começar logo no início. Por exemplo, por que não dar um kit de primeiras leituras quando um bebé nasce? Há muitas famílias que nunca tiveram acesso, para quem o livro não é uma prioridade, e por isso porque não explicar que, ao lado de um pacote de fraldas, também pode estar um conjunto de livros. E isto também passa por os editores não serem eles próprios elitistas. Podemos ter gostos pessoais, podemos distinguir dentro de cada género e de cada faixa etária o trigo do joio e escolher aquilo que achamos mais relevante e mais adequado à missão de cada editor, mas não devemos ser elitistas, nem excluir à partida faixas etárias ou géneros literários por os considerarmos menores. Isso é fazer um grande desserviço à promoção da leitura. E a leitura não pode de todo ser um hábito de elites.O conteúdo Clara Capitão (Penguin Random House): «A leitura não pode de todo ser um hábito de elites» aparece primeiro em Revista Líder.