António Damásio: «A consciência não é o fim do caminho. É o início.»

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António Damásio passou grande parte da sua vida científica a contrariar uma das ideias mais persistentes da cultura ocidental: a de que pensar bem exige afastar a emoção. Tal, fez parte de uma interpretação errada que, durante séculos, fizemos sobre o mundo – a de que a racionalidade e a razão, em geral, são objeto de maior respeito e atenção, ao contrário da emoção e o sentimento.A partir do desafio de avistar o Depois do Amanhã, a conversa projetou-se para 2056 e mais além. Sendo que para começar fomos ao passado, ao verão de 1995 quando eu, caloira do 1º ano do curso de Comunicação Social e Jornalismo, li o livro, acabado de publicar, O Erro de Descartes. Desde então, conhecer e entrevistar o neurocientista, tornou-se um desejo e uma ambição. Nada disto é particularmente racional, o que, tratando-se de António Damásio, talvez seja a melhor forma de começar.  Neurocientista, neurologista e investigador, António Damásio é University Professor e David Dornsife Professor of Neuroscience, Psychology and Philosophy na University of Southern California, em Los Angeles, onde dirige o Brain and Creativity Institute. O seu trabalho transformou a compreensão científica das relações entre cérebro, corpo, emoção, sentimento, decisão e consciência.Nesta Grande Entrevista, o neurocientista desmonta uma das grandes ilusões do presente: a ideia de que uma máquina que imita a consciência humana possa ela própria ter consciência. Não há consciência sem vida, corpo, sistema nervoso e capacidade de sentir o próprio estado. A Inteligência Artificial poderá reconhecer emoções e produzir comportamentos complexos, mas isso não significa que tenha consciência da sua existência. O risco, sublinha, não está numa suposta ‘má intenção’ das máquinas, mas, sim, na responsabilidade humana de as conceber, limitar e usar.  A conversa atravessa ainda a dependência dos dispositivos, o enfraquecimento das relações presenciais, a perda de autonomia na tomada de decisão e um mundo cada vez mais movido pelo medo e a inveja.  A consciência, defende, não está no topo da inteligência, mas começou ‘humildemente’ como um ‘sistema de sentinela’ ao serviço da vida. E talvez seja aí, no bom senso e no sentir, que se encontra a fronteira mais difícil de atravessar entre os humanos e as máquinas.  Ao contrário da Arte, a Ciência, quando projeta o futuro, tende a fazê-lo de uma forma positiva, pela continuidade e a descoberta de novos caminhos para a vida. Enquanto na Arte há uma tendência para uma degradação da condição humana, da vitória do mau sobre o belo, do perverso sobre a bondade. Concorda? Há muito tempo que a Ciência nos tem proporcionado perspetivas mais positivas, porque lida com factos, e muitos desses factos explicam o que tende a ser visto como positivo. A Arte é, em geral, um pouco mais aberta. Mas, neste momento, isso não é necessariamente verdade porque a Ciência apresenta, na verdade, perspetivas extremamente sombrias no que diz respeito à natureza humana. Estamos agora a descrever um grande número de doenças que antes não conseguíamos descrever, muitas das quais com consequências terríveis.Quando se lê muito do que está a acontecer, por exemplo, no que diz respeito a problemas relacionados com infeções, em termos da evolução das sociedades, diria que a Ciência está a apresentar uma perspetiva muito mais negativa do que a Arte. Especialmente se estivermos a falar de comédia, em oposição ao drama. Acho que isso diz mais respeito ao passado do que ao presente. O presente é, na verdade, extremamente sombrio, de uma forma geral. O mundo está realmente, numa situação complicada, in a pickle como diriam os ingleses, e, neste momento, a perspetiva da Ciência também é, por isso, negativa. Se pudesse observar a vida em 2056, o que procuraria para perceber se continuamos verdadeiramente humanos? Tenho sérias dúvidas de que nessa altura sejamos ‘humanos’, na nossa maioria, mas observaria, por exemplo, o que se vê nas ruas. Teremos casais? Crianças? O ano 2056 está demasiado próximo; não vai ser tão sombrio como imagino, partindo do princípio de que chegamos a 2056, o que também é uma grande incógnita. A primeira coisa que observaria é como as pessoas se relacionam umas com as outras na rua, partindo do princípio de que ainda haja ruas. Acho que será um mundo muito diferente.Uma coisa interessante de se ver é se haverá, de facto, coisas a sair das cabeças das pessoas. É bem possível que, daqui a 20 ou 30 anos, tenhamos dispositivos que estejam ligados aos nossos corpos para fins de comunicação.   Quando imaginamos o futuro, pensamos em máquinas inteligentes e menos em seres humanos conscientes. Estamos a investir no progresso errado? Estão a acontecer coisas fabulosas na ciência; não sou 100% negativo, mas sou negativo em relação ao que as pessoas se tornaram, à maneira como interagem e comunicam. Na minha universidade, quando olho à volta no campus, é difícil ver algum jovem que não ande com um telemóvel na mão. Muitas vezes, nem sequer olham para os outros. Agora, decidi que, quando ando pelo meu caminho, no passeio, se houver alguém a olhar para o telemóvel, não me desvio e continuo a andar. As pessoas acabam por tropeçar em mim, e faço isso de propósito, só para perceber como estão completamente absortas.Ontem ao jantar, a minha mulher e eu, estávamos num restaurante onde havia vários casais; os mais jovens estavam nos telemóveis, sem falar uns com os outros, o que é realmente notável. Os casais mais velhos, por sua vez, conversavam entre si. Mais uma vez, estes são sinais um tanto preocupantes. Quando saímos do restaurante parámos num semáforo e um rapaz, que devia ter uns 25 anos, atravessou a passadeira a olhar para o seu telemóvel. Caminhava, como que diríamos ‘paulatinamente’. Ele nunca olhou para nós, nunca olhou para nada e limitou-se a atravessar muito, muito devagar. Estes são sinais do isolamento dos seres humanos em torno de um dispositivo e da incapacidade de se relacionarem com outros seres humanos de forma direta e física.  Mas o professor é um especialista do cérebro, dir-se-ia que esta nossa relação ‘tóxica’ com os aparelhos se deve também ao facto de ativarem áreas do nosso cérebro que nos deixam completamente absortos? Sim, isso sucede em grande parte. Mas, acima de tudo, é um efeito psicológico, é a ideia de entrar em contacto com outro mundo, é a curiosidade. É interessante que as pessoas tenham tanta curiosidade sobre o que podem encontrar – é perfeitamente compreensível. Acho que aquilo a que se refere é o facto de que isso, no fim de contas, constitui uma adição, um vício. Está-se a obter tanta satisfação com a utilização do dispositivo que se acaba por voltar a ele. É como ser viciado em comprimidos, vinho ou drogas.  Então, qual é o nosso problema com as emoções? Porque quanto mais nos relacionamos com os dispositivos, menos nos relacionamos com as nossas emoções, afastamo-nos delas. Há algo nesta pergunta que é muito interessante e que tem a ver com o facto de as sociedades, em geral, terem suspeitado das emoções e dos sentimentos. Agora, isso já acontece menos, e na verdade, no final do século passado e nas primeiras décadas deste século, o trabalho de pessoas, como o nosso, chamou a atenção para os sentimentos e as emoções e para os papéis que desempenham na nossa vida quotidiana e na tomada de decisões. Mas, no fim de contas, as sociedades têm-se mostrado, em grande medida, céticas em relação às emoções e aos sentimentos.Sempre foram considerados como algo superficial, algo em que não se devia confiar. A razão, a racionalidade, era o que se devia seguir. Era suposto ser-se objetivo, basear-se nos factos e esquecer as emoções; é como um mantra que herdámos, e penso que a situação melhorou porque as pessoas estão mais instruídas e têm mais respeito pelo afeto. No que diz respeito às emoções e aos sentimentos, tudo tem a ver com a quantidade de recompensa que se recebe. A utilização dos dispositivos é gratificante, dá-nos algo que se estivéssemos no século XVIII poderíamos tê-lo obtido ao olhar para outra pessoa, e agora obtêmo-lo ao olhar para um dispositivo ou ao fumar erva. Todas estas coisas acabam por produzir os mesmos resultados.O que tudo isto significa é que as pessoas estão a deixar de pensar por si próprias e de ser capazes de tomar decisões autónomas. Estão a permitir que as máquinas e a comunicação interfiram e assumam parte da responsabilidade pela sua decisão; é como se, de certa forma, lançassem a decisão ao ar.Se olharmos para os governos, em todo o espectro político, seja na Europa ou nos Estados Unidos, o que as pessoas nos dirão é para valorizarmos a razão, os factos e a objetividade. Esqueçam essas coisas sentimentais, e, claro, sabemos que isso é totalmente falso. A nossa realidade é muito emocional e sentimental, pela boa razão de que esse é o motor principal que move as nossas vidas. As nossas vidas são movidas pelo afeto, para começar.  O que é uma das principais mensagens do seu último livro A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência. Sim, exato, o que é fundamental é a consciência, algo que as pessoas tentaram desesperadamente explicar de uma forma cognitiva, imparcial. A afirmação que fazemos, e toda a investigação que realizámos, apontam para o facto de que a consciência não é um efeito cognitivo tardio que surge na idade adulta, ou na maturidade da civilização. Pelo contrário, a consciência é algo que começou muito humildemente com o sentimento e evoluiu a partir daí; é, na verdade, algo que provém do afeto, de sentir uma emoção, em vez de provir da cognição, da razão e de um olhar frio e imparcial sobre o mundo. Quando nos perguntamos por que razão as pessoas têm menosprezado, ou não apreciado as emoções e, pelo contrário, têm valorizado a razão. Essa tem sido a atitude da humanidade durante muito tempo, historicamente, e agora, finalmente, as coisas estão a mudar graças à Ciência.  O facto de a Ciência revelar a realidade do sentimento e de agora podermos demonstrar que essa realidade pode, de facto, explicar a consciência, vai fazer com que as coisas mudem.  Intitulei o livro Inteligência Natural & a Lógica da Consciência pois queria sublinhar o facto de que existe uma inteligência natural que possuímos e que acaba por fazer parte de tudo isto, do sentimento, da consciência, e que é muito diferente da variedade artificial que também existe. E é só disso que as pessoas falam hoje em dia, como se nada mais existisse para além da Inteligência Artificial. É aí que está a atenção e é aí que está o dinheiro.  Podemos dizer que a consciência surge realmente muito cedo, desde que somos bebés? Sem dúvida, a consciência tem a ver principalmente com o corpo. A razão pela qual precisámos de desenvolver a consciência ao longo da evolução é que precisávamos de estar cientes do estado da nossa vida, para que pudéssemos evitar situações adversas.Veja, por exemplo, algo que faz todos os dias, como beber, comer, reagir ao bem-estar ou ao mal-estar, à dor, à fadiga. Todas essas sensações são as que lhe permitem gerir melhor a sua vida. Se não sentisse dor, se não tivesse fome nem sede, morreria em poucas semanas. O tema principal do livro é chamar a atenção para o facto de que a consciência é um sistema de sentinela, um sistema de alerta. Ao contrário da visão tradicional, a consciência é algo que surge numa fase extremamente precoce do desenvolvimento de organismos complexos dotados de sistemas nervosos e que lhes permite sobreviver. A consciência tem a ver com a sobrevivência e vem de baixo, não de cima.É muito cómico quando se lê toda a obra filosófica que tentou colocar a consciência no auge. Era, de certa forma, o fim do caminho. Não, é o início. É exatamente o oposto e faz parte da mesma interpretação errada que fizemos sobre o mundo.  Em 2024 e a propósito da celebração dos 30 anos da Fundação Bial, deu uma palestra em Lisboa onde afirmou: «Após muitos anos de investigação, finalmente há a coragem de dizer, e de escrever, que os sentimentos homeostáticos são a origem da consciência». Ou seja, não é o pensamento, mas o sentir, que nos devolve a experiência de existir? É exatamente o que estava a dizer – é o começo e não o fim. E isso tem de ser respeitado, tem de se lhe atribuir valor. Posso dizê-lo porque estudei o assunto. Penso que uma das coisas importantes na Ciência, em oposição à Literatura ou à Filosofia, é que o que dizemos enquanto cientistas deve ser sustentado pelos factos científicos. E, felizmente, neste caso, os factos científicos são muito claros, não se trata apenas de uma ideia, não é apenas uma hipótese. Trata-se, na verdade, da nossa vida e de salvar a nossa vida, e a consciência é um sistema que serve esse objetivo de manter a vida.   Uma máquina capaz de reconhecer as emoções humanas, mas incapaz de as sentir, poderá compreender-nos? Será o início de um entendimento. Uma máquina capaz de reconhecer as emoções humanas poderia ajudar no processo de chegar a um entendimento, mas seria incompleto. O sentimento é a parte subjetiva; a parte que provém do interior das nossas mentes, que é tão essencial, e isso é o sentimento.  Um sistema que proteja a sua própria integridade começará inevitavelmente a desenvolver interesses próprios? Essa é uma pergunta muito boa, e a resposta é não, porque eles não têm vida. Há duas coisas que são absolutamente indispensáveis para a consciência: uma, é ter uma forma de vida, e a outra, é ter a sensação dessa forma de vida, de modo a ter consciência dela. E isso acontece quando não só se tem vida, mas também algo muito importante no interior do sistema vivo, que é o sistema nervoso. Por isso, não se vai ter consciência em sistemas artificiais. Vamos ter imitações de  consciência, mas isso não significa que o sistema artificial saiba o que se está a passar. Podem até representar-se a si próprios, mas não estarão conscientes dessa representação.A ideia de que um sistema de IA venha a desenvolver uma consciência como a nossa é muito improvável. Serão imitações, mas não será uma consciência. Já tivemos várias reuniões no nosso laboratório em que discutimos a história de que, na OpenAI, houve um bot que se tornou rebelde – por outras palavras, estava a fazer coisas que não devia, estava a fazer travessuras. Na verdade, isso também não é totalmente correto. A máquina estava a fazer o que devia fazer, porque não tinha sido concebida para não o fazer. Portanto, a menos que se impeçam ativamente certos desenvolvimentos, a máquina vai fazer o que quiser.O que está errado é atribuir à máquina uma má intenção. A forma como foi noticiado foi como se a máquina tivesse dito: «Ah, ah, agora vou apanhar-te.» «Vou fazer algo maldoso.» A máquina não sabe de nada. A máquina não está a ser malandra, não está a ser desrespeitosa, não está a ser indelicada. A máquina está apenas a fazer o que é suposto fazer, e nós, as criaturas conscientes, ninguém pensou em dizer: «Vamos bloquear este caminho para que ela não faça asneiras.». Por isso, a culpa é nossa, não da máquina. Estão a tentar culpar a máquina por algo de que não pode ser responsabilizada.  «É impossível entender o que estamos a viver hoje, os conflitos entre nações, com base apenas na História, sem levar em conta emoções e sentimentos». Esta sua afirmação tem mais de 20 anos. Hoje, em relação ao momento que estamos a viver, que sentimentos e emoções nos colocaram nesta situação? Na verdade, é uma combinação de vários fatores. O medo é um deles, a inveja é outro, o ódio, a desconfiança e a obsessão pelo poder. A inveja e o medo são causas muito poderosas do mau comportamento humano. A falta de confiança, a ambição desenfreada, as coisas que estão ligadas a recompensas fáceis. Mesmo as melhores pessoas, as mais ‘santas’, apreciam o conforto, as coisas materiais. Os seres humanos têm essa faceta no seu comportamento e todos temos o direito de apreciar o nosso conforto, de ter coisas que nos agradam e nos dão satisfação. Mas isso não significa que nos seja permitido valorizar apenas isso.Quando se analisa a História das religiões, o que há de melhor, independentemente da que se considere, é o facto de tentarem refrear essa ambição desmedida que os seres humanos têm de possuir cada vez mais para si próprios e de controlar. Essa é a principal fonte dos nossos problemas, quer estejamos a falar de problemas políticos, quer, especificamente, de problemas económicos. Trata-se dessa falta de equilíbrio que temos, e que se manifesta mais em certas culturas do que noutras, dependendo da sua história. Estas emoções negativas são, em grande parte, responsáveis pelo que de muito mau em que o nosso mundo hoje se encontra, o que significa, na prática, estarmos à beira de uma terceira guerra mundial.   N’O Erro de Descartes, escreve: «No que têm de melhor, os sentimentos encaminham-nos na direção correta, levam-nos para o lugar apropriado do espaço de tomada de decisão onde podemos tirar partido dos instrumentos da lógica». Para chegar a este lugar, de uma humanidade quase perdida, à escala global, há muitas más decisões a serem tomadas. Quem está órfã neste caminho, a razão ou a emoção? Ambas, é sempre ambas, porque existe esta interação interessante – se não tivermos os sentimentos e o afeto certos, acabamos por chegar a factos errados e, consequentemente, a uma lógica errada sobre esses factos, o que agrava o problema. É preciso enfatizar que existe a necessidade de um diálogo entre o afeto e a razão.Os melhores momentos da nossa História, como seres humanos, são aqueles em que há uma tentativa racional de fazer algo de bom, mas fazer o bem traz para a equação a emoção e o afeto. Por isso, nunca se trata de pura emoção e sentimento, nem de pura lógica e razão; trata-se, na verdade, de um influenciar o outro.E isso é muito semelhante ao que se passa nos nossos próprios organismos, quando existe esta interação constante entre o que somos em termos de afeto, sentimentos, e o que precisamos de fazer em termos de controlar os factos ou adotar comportamentos objetivos que nos permitam, por exemplo, comer e beber, ser gentis com os outros e proteger as estruturas culturais que criámos ao longo da nossa História. E, mais uma vez, é importante salientar, tal como faço em todos os meus artigos e livros, a ideia de que a emoção é algo dirigido para o exterior.Gosto de dizer que a emoção é teatro, os sentimentos são interiores. Não conheço os seus sentimentos, não posso conhecê-los, nem vê-los. E a Rita não pode ver os meus. Sabe como estou emocionalmente, como apresento a minha expressão facial, e eu sei como está emocionalmente. Posso presumir que, se está como está agora, tem uma expressão agradável, interessada e inteligente, com um sorriso. Posso presumir que tem um sentimento positivo por trás disso, mas não tenho a certeza. Os sentimentos são privados enquanto as emoções são a manifestação para o exterior.  Sobre a vida das empresas e das organizações. Porque se valorizou, durante décadas, a racionalidade organizacional? Mais uma vez, é algo que faz sentido, do ponto de vista lógico, que se preste atenção à racionalidade, porque somos compostos por ambos, emoção e sentimento, afeto, e por factos e razão. Da primeira vez que o fiz, referi-me a algo chamado «mente emocional» e ao «cérebro», que tem a ver com os factos. E estas duas coisas são dois mundos.Há o mundo dos afetos e o mundo da razão, da inteligência, o mundo da criação artística, de tudo. É um mundo diferente, é um mundo feito de factos, de razão lógica. Temos estes dois componentes na nossa estrutura e, por isso, temos sempre de ter ambos. O que aconteceu ao longo da História foi que, durante muito tempo, valorizou-se a razão, a lógica, em prejuízo das emoções e dos sentimentos. E agora estamos a reequilibrar isso.  Como conseguimos promover organizações com maior inteligência emocional? Precisamos garantir que compreendam que o afeto não é uma característica minoritária, não é uma função de baixo nível e que o intelecto não representa o máximo das nossas capacidades enquanto seres humanos; precisamos da combinação entre emoção e sentimento, por um lado, e intelecto, por outro. E é a combinação destes dois elementos que nos torna seres humanos sérios e produtivos. E isso é realmente muito importante, e é algo que existe porque somos criaturas conscientes e temos a possibilidade de possuir uma componente que é eficaz e que nos leva à consciência de que estamos vivos.   Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. 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