O Supremo Tribunal Federal é a mais alta aula de Direito do país, e o que ele ensina chega às faculdades antes de qualquer ementa. Percebemos isso numa seleção de estagiários, quando perguntamos o básico: o que é estudo técnico preliminar, termo de referência, edital e contrato administrativo. Silêncio, hesitação e respostas decoradas. Não era pegadinha: a Lei nº 14.133/2021 define esses instrumentos logo no art. 6º. É o pão de cada dia de quem advoga para prefeituras ou para empresas que vendem ao poder público. Mas, na nossa educação jurídica, isso é “coisa de escritório”. Academia, mesmo, é discutir hermenêutica numa sala onde ninguém jamais viu um edital.Os números explicam o resultado. O Brasil tem mais de 1.800 cursos de Direito, mais que o resto do mundo somado. Segundo o presidente nacional da OAB, apenas cerca de 10% são recomendados pela Ordem. Na primeira fase do Exame de Ordem, dois em cada dez candidatos são aprovados, e o candidato médio precisa de três tentativas. Quem forma, no fim, não é a faculdade, é o cursinho, pago à parte, depois de cinco anos de mensalidade. Estima-se que mais de três milhões de bacharéis nem sequer estejam inscritos na Ordem. Chamamos isso de democratização do acesso. O nome certo é outro: vendemos esperança no atacado e entregamos frustração no varejo.Norma não falta. As Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Direito (Resolução CNE/CES nº 5/2018) tornam a prática jurídica obrigatória, mas fixam em até 20% da carga horária o espaço para estágio e atividades complementares. Até. É teto, não piso. Na vida real, o Núcleo de Prática Jurídica virou uma sala, um computador e um carimbo, e o professor virou locutor de um livro que copiou outro livro. Dizemos isso como quem esteve dos dois lados do balcão: demos aula, avaliamos cursos, dirigimos instituições e, confessamos, também já aplaudimos esse teatro.Enquanto isso, o aluno mudou. Ele é da Geração Z; depois dela vieram a Alfa e, desde 2025, a Beta, que crescerá com a inteligência artificial embutida no cotidiano. A Enciclopédia Barsa dele mora no polegar. O Pisa 2025 mostrou que 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos usam IA toda semana para aprender, acima da média da OCDE. Discutimos se o celular entra na sala, e a IA já sentou na primeira fila e fez a chamada. O professor também a usa, de madrugada, em casa, para na manhã seguinte anunciar no palco o fim da civilização ocidental.Mas seria hipocrisia culpar apenas a sala de aula, porque o aluno aprende mais olhando para o andar de cima do que lendo a ementa. Ele vê que 75% dos brasileiros acham que os ministros do Supremo têm poder demais, segundo o Datafolha deste ano. Vê a crise de setembro, com o presidente da Corte suspendendo decisões de colegas e redistribuindo relatorias. Vê que a indicação cabe a uma única autoridade, sob o critério elástico do “notório saber”, e que o Senado não rejeita um nome desde 1894. Vê decisões individuais que valem para milhões e sabatinas que viraram cerimônia de cortesia.Então ele faz a conta que fingimos não fazer: se lá em cima o critério é a relação, para que o esforço aqui embaixo? Para que um termo de referência impecável, se o edital já nasce com dono? Para que estudar, se posso ser amigo do filho do ministro? Esse é o currículo oculto mais eficiente do país, e nenhuma disciplina compete com ele. Não formamos bacharéis despreparados por acidente: formamos o profissional que este ambiente encomendou. A sala de aula não é exceção do Brasil; é o seu retrato.O caminho não tem mistério, tem trabalho: prática desde o primeiro período, com casos reais; avaliação por entrega, não por decoreba; professores que tenham exercido o que ensinam; piso de prática, não teto; regras claras de uso da IA, ensinando o aluno a auditar a máquina, porque ela não vai aposentar o advogado que pensa, vai aposentar o professor que só repete. E, lá em cima, critérios objetivos e transparência, porque, enquanto o topo parecer loteria de relacionamentos, o mérito na base será folclore.Até quando chamaremos de aula a leitura de um livro copiado de outro? Até quando teremos Núcleos de Prática que não praticam? Até quando a lei dirá “até 20%” e entenderemos “tanto faz”? Até quando pediremos ao jovem que acredite no mérito enquanto o Supremo lhe ensina o contrário no noticiário da noite? E a pergunta que importa: quem se desconstrói primeiro, nós, os professores, ou ninguém?Inácio Feitosa e Ariston Flávio, advogados e professores de Direito.O post O exemplo que o Supremo dá ao país — e à sala de aula apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.