Selo de verificação não impediu golpe: Google exibiu anúncios falsos de programas do governo

Wait 5 sec.

“Parabéns! Seu CPF foi aprovado para o Desenrola 2026.” Ao lado da frase, uma mulher sorridente e o símbolo do “gov.br”. A composição remete à identidade visual do governo brasileiro, mas o anúncio não era da administração federal.Era um golpe que passou pelo processo de verificação do Google antes de chegar à tela de usuários que procuravam, de boa-fé, renegociar uma dívida.O caso foi identificado por pesquisadores do NetLab, laboratório da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que encontraram dezenas de anúncios fraudulentos entre 12 e 25 de agosto. As peças exploravam políticas públicas, como Desenrola Brasil, Sistema Valores a Receber (SVR) e CNH Brasil, para direcionar cidadãos a sites falsos.Os resultados fazem parte de uma nota técnica do NetLab. Segundo os pesquisadores, não foram identificadas infrações às leis eleitorais relacionadas à propaganda político-partidária. Eles afirmam, porém, que os anúncios violam as próprias regras do Google e que o fato de os anunciantes terem passado pela verificação da empresa representa um problema de governança da infraestrutura publicitária.Para o NetLab, a situação indica que o Google coloca sua infraestrutura de publicidade a serviço de anunciantes que procuram se passar pelo Estado brasileiro para enganar usuários.Dezenas de anúncios fraudulentosOs pesquisadores encontraram as peças ao vasculhar a Central de Transparência de Anúncios do Google.Foram identificados:50 anúncios falsos relacionados ao Desenrola Brasil;17 anúncios sobre o Sistema Valores a Receber (SVR);Duas peças relacionadas à CNH do Brasil;44 anunciantes responsáveis pelas campanhas;35 sites diferentes usados para direcionar os usuários.Nenhum dos 35 endereços terminava em “gov.br”. Seis deles, porém, imitavam o layout de canais oficiais do governo, em processo conhecido na cibersegurança como phishing. As campanhas também reproduziam símbolos e marcas associados ao governo federal, como Gov.br, Canal Gov, Caixa Econômica Federal e o Brasão de Armas do país.As peças utilizavam chamadas apelativas para tentar atrair pessoas interessadas em programas públicos ou em resolver problemas financeiros. Entre as mensagens encontradas estavam:“Seu nome está na lista para desenrolar. Você foi selecionado para desenrolar!”“Valor Disponível em Seu Nome? Veja Agora”“Inscrição habilitação grátis – Programa CNH gratuita”Segundo os pesquisadores, a escolha dos programas também revela como os golpistas acompanham o noticiário oficial.O Desenrola Brasil, por exemplo, foi o alvo mais recorrente. O programa havia sido lançado em maio para pessoas inadimplentes quitarem débitos e apareceu nas propagandas falsas até agosto, quando foi encerrado pelo governo federal.Todos os anunciantes eram verificadosUm dos pontos destacados pelo NetLab é que todos os anunciantes identificados haviam sido verificados pelo Google.O selo é apresentado pela empresa como uma forma de comprovar a identidade e a legitimidade do anunciante. Depois da checagem de identidade e da operação comercial, o nome e a localização de quem pagou pelo anúncio aparecem na Central de Transparência.A Central de Transparência reúne anúncios exibidos em serviços, como Pesquisa Google, YouTube, Gmail e na Rede de Display, formada por sites e aplicativos de terceiros que utilizam a infraestrutura programática da empresa.Na prática, segundo o material, um anúncio fraudulento pode aparecer inicialmente em uma busca e reaparecer minutos depois em um jogo de celular ou em um site de receitas.Na própria Pesquisa Google, uma pessoa que procura termos, como “desenrola” ou “dívida esquecida”, pode ser exposta a uma peça fraudulenta.Os pesquisadores também destacam que o posicionamento desses anúncios e a dificuldade de parte dos usuários em distinguir publicidade de resultados orgânicos ampliam o potencial de impacto das campanhas.Golpe passou pelo processo de verificação do Google antes de chegar à tela de usuários – Imagem: Reprodução/NetLabLeia mais:Google testa remuneração para sites que ajudam suas ferramentas de IA a gerar respostas mais úteisAnthropic, OpenAI, SpaceXAI e Google são acusadas de fazer acordo ilegal para frear avanço da IAGoogle leva multa de R$ 2,37 bilhões na Europa por rastrear a localização de usuários em segredoPublicidade e usuários vulneráveisPara o NetLab, os dados permitem concluir que o Google está lucrando com anúncios fraudulentos relacionados a políticas públicas destinadas a parcelas vulneráveis da população.O Desenrola, por exemplo, é voltado a pessoas com dívidas.A publicidade segmentada é parte central do modelo de negócios do Google. Segundo o material, a empresa faturou R$ 1,51 trilhão com publicidade somente em 2025, valor equivalente a mais de 73% de toda a receita arrecadada no período.Os critérios utilizados para definir o público dos anúncios, porém, não estão disponíveis.“Mas, quando a gente analisa como o Google promove e apresenta os seus serviços de publicidade, a promessa é atingir o público ideal, que muitas vezes é vulnerável. Parte da lógica da publicidade microssegmentada é encontrar o usuário que tem mais chance de clicar, comprar, consumir o conteúdo”, afirmou Salles.Central de Transparência também é questionadaOutro problema apontado pelos pesquisadores é a falta de transparência sobre o próprio sistema de consulta aos anúncios.A Central de Transparência não permite pesquisas por palavras-chave. Com isso, campanhas fraudulentas só podem ser localizadas quando o pesquisador já conhece o nome do anunciante ou do site promovido.A ferramenta também não disponibiliza informações, como o valor gasto, a quantidade de pessoas impactadas ou o download dos dados.Anúncios desapareceram durante o levantamentoO estudo também identificou que 25 dos 50 anúncios fraudulentos relacionados ao Desenrola desapareceram ao longo do período de levantamento. Não há informação sobre se eles foram moderados pelo Google, removidos por outras razões ou simplesmente expiraram.Para o NetLab, essa ausência de registros reforça a possibilidade de que o problema seja maior do que o identificado na pesquisa.Sem histórico dos anúncios que estiveram no ar, foram excluídos e deixaram de aparecer na ferramenta, fica inviável identificar falsidades que podem ter enganado usuários enquanto estavam ativas.Os pesquisadores, porém, não descartam a possibilidade de que parte dos anúncios tenha desaparecido em decorrência de ações do próprio Google para combater fraudes.Histórico de regras e fiscalizaçãoEm 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu novas exigências de transparência para publicidade político-eleitoral na internet. O Google optou por proibir esse tipo de anúncio em sua plataforma e, dessa forma, não precisou cumprir regras, como a criação de um repositório específico das peças eleitorais com informações sobre investimento, impressões, segmentação e período de veiculação.Ainda assim, segundo o NetLab, foram encontrados naquele ano anúncios de candidatos veiculados pelo Google depois da proibição.Em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a interpretação mais permissiva do artigo 19 do Marco Civil da Internet e estabeleceu presunção relativa de culpa dos provedores em casos de conteúdo ilícito veiculado por anúncios ou impulsionamento.O que diz o GoogleEm posicionamento, o Google afirmou que possui políticas para definir as regras de publicidade no Google Ads e que combina IA com revisores humanos para monitorar os anúncios.“Temos políticas claras que definem as regras para anunciar no Google Ads e utilizamos uma combinação de inteligência artificial, atuando de forma preventiva, e revisores humanos para monitoramento. Quando identificamos uma violação, agimos imediatamente.”A empresa também afirmou que, no Brasil, bloqueou ou removeu 374 milhões de anúncios ao longo de 2025 e suspendeu 1,3 milhão de contas no mesmo período, segundo dados do Relatório de Segurança de Anúncios.“Oferecemos uma ferramenta para que os usuários possam contribuir e também denunciem possíveis violações”, afirmou o Google.O post Selo de verificação não impediu golpe: Google exibiu anúncios falsos de programas do governo apareceu primeiro em Olhar Digital.