Há mais portugueses a ler livros, mas esse crescimento não se traduz numa maior compra por parte de todos os leitores. Em 2025, 78% dos portugueses com 15 ou mais anos afirmaram ter lido pelo menos um livro, enquanto 62% compraram livros. Os dados constam do estudo Hábitos de Compra e Leitura em Portugal, desenvolvido pela Nielsen | GfK para a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).Apresentado no âmbito do BOOK 2.0, que decorreu a 15 e 16 de setembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o estudo revela uma evolução positiva da leitura, acompanhada por mudanças na forma como os livros chegam às pessoas. O desafio para o setor é perceber como transformar esse interesse numa atividade sustentável para autores, editores e livreiros.Leia também: Portugueses usam mais redes sociais e IA, mas confiam na televisão e nos jornais Mais leitores, menos livros por compradorA proporção de portugueses que afirma ler passou de 73% em 2023 para 76% em 2024 e 78% em 2025. Também a intensidade da leitura aumentou: cada leitor leu, em média, oito livros no último ano, acima dos 7,2 registados em 2024.Na compra, a recuperação é menos consistente. Os 62% que adquiriram pelo menos um livro em 2025 continuam abaixo dos 65% de 2023. E a média de exemplares por comprador tem vindo a diminuir: passou de 7,5 para sete e, depois, para 6,9.O livro está também a perder espaço como presente. A compra para oferta caiu de 44% em 2023 para 29% em 2025. O consumo próprio mantém-se como a principal finalidade, referido por 81% dos compradores, enquanto a aquisição de livros para crianças e jovens do agregado familiar sobe para 32%. Ler sem comprar ganha expressãoSegundo o estudo, 18% dos inquiridos leem livros sem os comprar, um segmento que quase duplicou face a 2023. Outros 60% são simultaneamente leitores e compradores.Este crescimento chama a atenção para diferentes formas de acesso, como bibliotecas, empréstimos, presentes e conteúdos digitais. Para a APEL, importa compreender melhor estes circuitos e a sua relação com a sustentabilidade do setor.Entretanto, o mercado mantém uma trajetória de crescimento. O valor das vendas passou de 187 milhões de euros em 2023 para 218 milhões em 2025, cerca de 17% acima de dois anos antes. No mesmo período, o número de exemplares vendidos subiu de 13,2 milhões para 14,9 milhões.Os dois indicadores medem realidades distintas: o painel de retalho acompanha as vendas do mercado, enquanto o inquérito recolhe os hábitos declarados pelas pessoas. O crescimento comercial não significa, por isso, que todos os compradores estejam a adquirir mais livros. Livros digitais crescem, mas o papel mantém a preferênciaA leitura digital é utilizada por 22% dos portugueses, acima dos 17% registados em 2023, embora sem alteração face a 2024. Entre os leitores digitais, 49% utilizam um e-reader, mais quatro pontos percentuais do que no ano anterior.Ainda assim, o papel mantém uma posição dominante: 92% dos leitores preferem o suporte físico e 95% dos compradores adquiriram livros impressos.As lojas físicas continuam igualmente no centro da compra, utilizadas por 86% dos compradores, enquanto 47% recorrem a lojas online. Os canais podem coexistir nos hábitos de uma mesma pessoa. Acesso gratuito não permite medir, por si só, a piratariaEntre os leitores digitais, 68% recorrem a conteúdos gratuitos. Dos que descarregam livros sem pagar, 64% utilizam plataformas de armazenamento na cloud, 30% o WhatsApp e 15% o Telegram.Estes dados preocupam a APEL pelo potencial de circulação não autorizada de obras. Contudo, o acesso gratuito e o uso destas plataformas não demonstram, por si só, que exista pirataria: podem também envolver conteúdos disponibilizados legalmente.A associação considera necessário compreender melhor o fenómeno, distinguindo a oferta autorizada da partilha ilegal e avaliando as consequências para os profissionais da cadeia do livro. Jovens lideram a leitura, mas o tempo continua em disputaOs grupos dos 15 aos 24 anos e dos 25 aos 34 anos apresentam os índices de leitura mais elevados: 91% em ambos os casos. Lisboa destaca-se no território, com 86% de leitores e 71% de compradores.A diferença entre mulheres e homens na proporção de leitores reduziu-se para dois pontos percentuais: 79% das mulheres e 77% dos homens afirmam ler livros. Apesar do crescimento, a leitura por lazer continua atrás de outras atividades. É referida por 62% dos inquiridos, enquanto 85% utilizam redes sociais e 75% veem filmes e séries em streaming.Entre quem não lê, a falta de interesse é o principal obstáculo, apontado por 43%, seguida da falta de tempo, com 38%, e da preferência por outras atividades, com 33%.O conteúdo Portugueses leem mais livros. Porque está o setor preocupado? aparece primeiro em Revista Líder.