Pelo menos três hospitais do governo de Goiás, administrados por uma organização social de saúde, estão encerrando contratos com empresas que, conforme o Metrópoles mostrou, tinham ligações com intermediários apontados pela polícia como integrantes da rede de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).Agora, esses hospitais contrataram pelo menos uma empresa de uma médica investigada na Justiça.Uma das sócias da Fabermed FMC, a médica Gleycianne França, responde a um inquérito no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), junto com o deputado federal e ex-secretário de Saúde Ismael Alexandrino (PSD-GO), por suspeita de simular disputa para favorecê-lo. A apuração policial foi aberta a partir de reportagem do Metrópoles.A Fabermed FMC ganhou contratos com três hospitais do governo de Goiás administrados pelo Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (Imed). Os contratos somam R$ 8,9 milhões por mês. Num deles, a proposta da empresa de Gleycianne ficou R$ 770 mais barata que a da firma na segunda posição. As demais quatro concorrentes foram desclassificadas.Procurada pela reportagem, a Secretaria de Saúde isentou-se de responsabilidade pelas contratações das empresas. O Imed não comentou. A defesa do deputado e ex-secretário Ismael Alexandrino disse que as suspeitas são “pura leviandade”. Gleycianne negou atuar com combinação de preços e ter relação com Alexandrino (veja mais abaixo). Empresários substituídos pelo Imed se mostraram surpresos. Leia também Andreza MataisGoverno de Goiás pagou R$ 200 milhões a grupo investigado por ligação com PCC Andreza MataisPolícia diz que empresário da Saúde movimentou R$ 5,6 milhões com PCC São PauloQuais são as 12 empresas de ônibus da capital suspeitas de elo com PCC São PauloPCC nos ônibus: Milton Leite e outros 5 alvos ainda não foram localizados O Imed administra três hospitais e duas políclínicas em quatro cidades de Goiás: Trindade, Formosa, Uruaçu e Posse. Com recursos do Ministério da Saúde, o estado repassou R$ 1,7 bilhão à organização social entre 2020 e 2025.Pelo menos desde junho, depois de o Metrópoles revelar as ligações de fornecedores do governo do Estado com intermediários do PCC, o Imed passou a encerrar ou avisar que encerraria esses contratos com empresas citadas.Como mostrou a reportagem, a organização social mantém relação com o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD). Gestores do Imed e das empresas “quarteirizadas” investigadas pela polícia organizaram um evento do Lide em Campinas (SP) para o ex-governador de Goiás palestrar sobre sua gestão e possível candidatura à Presidência.O Imed permanece na gestão dos hospitais de Goiás, enquanto as empresas são substituídas.Juiz diz que Alexandrino favoreceu empresa de irmão e que médica simulava concorrênciaPolícia apontou 11 declarações falsasEm 2022, o Metrópoles mostrou que a empresa Amme Saúde Ltda, ligada ao irmão do ex-secretário de Saúde de Goiás e deputado federal Ismael Alexandrino, tinha contratos de R$ 9 milhões com o governo estadual, por meio da organização social de saúde Instituto Brasileiro de Gestão Compartilhada (IBGC).A partir da reportagem, a Polícia Civil abriu um inquérito e fez uma operação em 2023. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra Alexandrino e outras 16 empresas e pessoas, como a médica Gleycianne França. Hoje, o caso tramita na Polícia Federal e no Tribunal Regional Federal da 1.a Região, em Brasília.Na investigação, os delegados da Polícia Civil Francisco Lipari e Caio Menezes apontaram “diversas irregularidades envolvendo subcontratação de empresa (…) no intuito de beneficiamento de Daniel Alexandrino Gonçalves, irmão do então secretário estadual de Saúde, Ismael Alexandrino”. Para “simular concorrência inexistente”, usaram empresas como as de Gleycianne, sustentam. As afirmações dos delegados foram registradas pelo juiz que autorizou buscas e apreensões.“Gleycianne da Silva França – representante da empresa Fluir Gestão em Saúde que supostamente simulou a concorrência no processo de contratação. As investigações apontam que a investigada promoveu declarações falsas em 11 (onze) processos de seleção de fornecedores, com o fim de simular falsa concorrência inexistente que favoreceu a vitória da empresa Amme Saúde Ltda”, escreveu o juiz Alessandro Pacheco, da 2ª Vara de Repressão ao Crime Organizado de Goiânia.Alexandrino (esq.) nega favorecimento e relacionamento com médicaEmpresa ganhou R$ 8,9 milhões em contratosAgora, Gleycianne e o médico Lucas Nogueira Taveira Adorno, sócios da empresa Fabermed FMC Soluções em Saúde, ganharam contratos para fornecer médicos para os três hospitais de Goiás administrados pelo Imed: Formosa, Uruaçu e Trindade. O custo do serviço será de R$ 8,9 milhões por mês. A diferença entre proposta em um dos serviços foi de apenas R$ 770 para o segundo colocado, de acordo com documentos obtidos pelo Metrópoles.Ao Metrópoles, Gleycianne e Nogueira negaram quaisquer irregularidades na contratação com o Imed. “A gente faz um trabalho árduo de precificar isso, que é difícil porque tem vários pacotes, tentando colocar o mais justo possível para os médicos receberem”, disse Nogueira.Gleycianne acrescentou que os preços parecidos entre os concorrentes decorrem de informações já conhecidas no mercado de saúde. “Você vai saber quanto o cara ganha num plantão”, iniciou ela. “E o contrato está no portal da transparência: o médico ganha R$ 1.500 no plantão. Não tem como a gente inventar. Quem tá lá fala para todo mundo. Você faz a conta, aumenta o imposto…”“É mixaria quando você vê no final. Você ganha menos que os médicos.” – Gleycianne França, médica e empresáriaApós semanas de espera da reportagem, Gleycianne e Lucas se negaram a entregar emails com a proposta da empresa ao Imed para comparar as datas e horários de envio e as respostas do Imed. A Secretaria de Saúde e o instituto também não enviaram as informações depois de quatro pedidos da reportagem.Gleycianne negou suspeitas contidas na investigação da Polícia Federal no TRF-1, como fazer propostas de coberturas falsas para a empresa ligada a Alexandrino. “Não tinha isso, não. É falso. Eu nunca nem vi o pessoal da Amme.” Seu advogado, Guilherme di Ferreira, reforçou a negativa em nota.“Gleycianne nega categoricamente ter participado de qualquer simulação de disputa entre empresas ou de qualquer ajuste destinado a favorecer Ismael Alexandrino, Daniel Alexandrino ou empresas a eles eventualmente relacionadas.” – Guilherme di Ferreira, advogadoO advogado do deputado Ismael Alexandrino, Demóstenes Torres, negou qualquer irregularidade de seu cliente, chamando as afirmações dos policiais de “leviandade”.“Pura leviandade. Ismael não conhece Gleycianne. Nenhuma contratação de empresa ou médico passava pela Secretaria de Saúde.” – Demóstenes Torres, advogadoO advogado da médica endossou. “Gleycianne não possui e nunca possuiu relacionamento pessoal, profissional ou empresarial com Ismael Alexandrino ou Daniel Alexandrino”, disse di Ferreira, em nota. O atual sócio dela, Lucas Nogueira, que não é investigado pela PF, também não tem contato com o deputado, continuou o advogado. O defensor de Gleycianne no inquérito destacou que ela não foi denunciada pelo Ministério Público.O Imed não informou quais outras empresas retirou quais contratou para substituí-las.“A gente foi pego de surpresa”, diz empresário após contrato encerrado