António José Seguro: «É necessário voltar ao livro para chegar ao pensamento profundo»

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O livro atravessou séculos a mudar de pele. Foi pedra, barro, papiro, pergaminho, papel e agora também ecrã. Em cada mudança, ficou alguma coisa para trás e outra coisa começou. A tecnologia foi mudando o suporte, a velocidade e a escala daquilo que somos capazes de guardar e de transmitir uns aos outros, mas nunca resolveu, apesar de todos os seus artifícios, a pergunta mais elementar e mais incómoda de todas: o que fazemos, afinal, com tudo aquilo que julgamos saber?Foi, de certo modo, algures entre essa pergunta antiquíssima e uma resposta ainda por inventar, que se desenrolou o segundo dia do BOOK 2.0, a 16 de setembro, no Centro Cultural de Belém. Na quarta edição do encontro organizado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), sob o mote «Back to Basics. Back to Books.», o livro foi colocado no centro de uma discussão que rapidamente extravasou os seus próprios limites e deixou de ser apenas sobre livros, para se tornar também sobre inteligência artificial, transformação digital, administração pública, literacia, algoritmos, desigualdade, democracia e, no fundo, sobre a própria capacidade de uma sociedade continuar a pensar demoradamente num tempo que parece ter desaprendido, definitivamente, o ofício de esperar.A Líder foi ouvir Gonçalo Saraiva Matias, Ministro Adjunto e da Reforma do Estado, numa conversa com a jornalista e escritora Isabel Nery intitulada «Transformação Digital: O Futuro de Portugal». E talvez, contra todas as expectativas, a primeira resposta tenha chegado ainda antes de qualquer discussão sobre políticas públicas, no preciso instante em que Isabel Nery lhe perguntou, sem rodeios, o que estava a ler.A resposta foi The Coming Wave, de Mustafa Suleyman, cofundador da DeepMind, um livro sobre inteligência artificial e sobre as transformações tecnológicas que, apesar de contar já três anos de existência (uma eternidade, convenhamos, para quem acompanha de perto a tecnologia), Gonçalo Saraiva Matias considera continuar extraordinariamente atual.Mas havia uma segunda resposta, porventura mais reveladora do que a primeira: estava a lê-lo em papel.«Gosto do cheiro do livro, gosto de manusear o livro, gosto de andar com o livro para trás e para a frente», explicou, reconhecendo, sem qualquer contradição aparente, as vantagens das plataformas digitais, mas descrevendo essa relação física com o objeto como algo que aprendeu desde criança e que considera, até hoje, insubstituível. Explicou-o sem grandes rodeios: o que procura no papel é o próprio livro – o cheiro, o peso, o gesto de o abrir e folhear, essa relação física que um ecrã nunca chega a oferecer.A pequena confissão literária acabou por ser uma excelente porta de entrada para uma conversa que depressa abandonou o livro enquanto objeto e entrou, de rompante, no Estado enquanto máquina. E foi aí que surgiu uma das expressões mais contundentes de toda a intervenção do ministro: primeiro simplificar, depois digitalizar.A guerra à burocracia começa antes do computadorA ideia parece, à primeira vista, quase óbvia, mas encerra uma crítica nada trivial a uma certa forma de modernização administrativa que se tornou, com o tempo, um lugar-comum: digitalizar um processo complexo não o torna, por artes mágicas, necessariamente simples. Pode, pelo contrário, limitar-se a transformar a antiga papelada numa nova e mais sofisticada burocracia digital, tão labiríntica como a anterior, ainda que revestida de um verniz tecnológico.Fotografia: André Antunes«Digitalizar aquilo que é complexo é um erro», afirmou Gonçalo Saraiva Matias, explicando que já existem processos que, ao migrarem do papel para o digital, se tornam ainda mais complicados, precisamente porque ninguém se deu ao trabalho de os simplificar antes de os transpor. A lógica que o Governo está a seguir, segundo esclareceu, é, portanto, radicalmente outra: primeiro redesenhar o processo, torná-lo simples e prepará-lo para o ambiente digital; só depois, e não antes, introduzir a tecnologia.Dois exemplos deverão começar a dar corpo a essa mudança já a partir de 1 de outubro, com a entrada em vigor da nova lei da construção e da alteração ao Código dos Contratos Públicos. Em ambos os casos, a promessa passa por simplificar procedimentos e, só num segundo momento, aplicar tecnologia e inteligência artificial para acelerar decisões que, até aqui, se arrastavam.No licenciamento da construção, o Governo está a preparar uma plataforma com inteligência artificial destinada a concentrar num único lugar o processo de quem pretende erguer uma casa ou uma fábrica. O objetivo anunciado por Gonçalo Saraiva Matias é, sem exagero, ambicioso: reduzir processos que hoje podem demorar quatro ou cinco anos para «poucos meses».A mesma lógica será aplicada à contratação pública, área em que o ministro deu como exemplo os processos associados à aquisição de comboios, que permaneceram durante anos presos entre procedimentos intermináveis e decisões por decalque adiadas.A tecnologia, neste desenho, não surge, portanto, como um mero verniz moderno aplicado sobre a administração que já existe e que sempre existiu. Surge, isso sim, como uma oportunidade, talvez a última de gerações, para redesenhar a própria arquitetura da administração. E há um mantra: interoperabilidade.A intenção não é substituir as plataformas das autarquias por uma única infraestrutura centralizada e uniforme, mas antes permitir que os diferentes sistemas consigam finalmente comunicar entre si, como vasos comunicantes. A Lei da Interoperabilidade, explicou, está a entrar no Parlamento, para criar condições que permitam à administração central e à administração local deixarem de funcionar como compartimentos estanques, alheios uns aos outros.É uma diferença subtil, mas decisiva. O Estado digital que Gonçalo Saraiva Matias descreve não será, pelo menos na intenção anunciada, um Estado que concentra tudo num único sistema totalizante, mas em que sistemas diferentes conseguem, apesar de tudo, falar uns com os outros.A tecnologia tanto pode aproximar como aumentar o fossoO problema começa, todavia, quando saímos da máquina administrativa e regressamos, sem grande cerimónia, às pessoas.Portugal parte de uma posição menos confortável na literacia digital do que a média europeia, e Gonçalo Saraiva Matias reconheceu, sem grande rodeio, que a aceleração tecnológica pode produzir precisamente o efeito contrário daquele que se procura: em vez de aproximar, pode afastar; em vez de reduzir desigualdades, pode aprofundá-las ainda mais.A resposta passa, segundo o ministro, por regulação e por formação, as duas faces de uma mesma moeda. A inteligência artificial pode transformar-se num instrumento de desigualdade se o acesso aos seus benefícios for distribuído de forma demasiado assimétrica, mas pode igualmente ser usada para promover maior igualdade, desde que existam condições para um acesso suficientemente amplo.É aqui que entra o Pacto para as Competências Digitais, que o Governo pretende fazer chegar a diferentes camadas da população, sem exceções nem privilégios. O objetivo apontado é alcançar cerca de dois milhões de pessoas, abrangendo desde os mais velhos aos mais jovens, passando pelos trabalhadores das empresas, pelas escolas e pelas universidades.Nas escolas, a questão é particularmente sensível, quase melindrosa. Gonçalo Saraiva Matias considera que já não é aceitável que um aluno termine a sua formação sem uma preparação adequada para lidar com a tecnologia e com a inteligência artificial. Nas empresas, a formação terá de acompanhar, passo a passo, o investimento: de pouco servirá a uma pequena ou média empresa adquirir ferramentas de inteligência artificial se os seus trabalhadores não tiverem as competências necessárias para as utilizar com proveito. Nas universidades, a estratégia passa também por formação avançada, doutoramentos e pela atração de talento internacional, disperso pelo mundo.Portugal procura, ao mesmo tempo, tirar partido da sua posição geográfica privilegiada, dos cabos submarinos que atravessam o Atlântico e da capacidade de produção de energia renovável, para atrair infraestruturas digitais e talento especializado que de outro modo escolheria outras paragens.Por baixo de tudo isto está outra expressão que foi ganhando peso, quase sem se dar por isso, ao longo da conversa: soberania digital.Porque uma sociedade que dependa integralmente de infraestruturas, tecnologias e regras definidas por outros corre o risco, nada desprezível, de ficar sem capacidade para decidir sobre o seu próprio destino tecnológico. Para o ministro, desenvolver infraestruturas e competências nacionais é, também, uma forma de garantir essa capacidade de decisão que de outro modo se perderia.O algoritmo também conhece a natureza humanaMas a conversa voltou, finalmente, àquilo que é talvez a questão mais espinhosa de todas: e se a tecnologia não estiver apenas a mudar aquilo que fazemos, mas também, e mais gravemente, a maneira como nos relacionamos uns com os outros?Isabel Nery trouxe ao debate uma frase da escritora alemã Eva Menasse, segundo a qual a tecnologia estaria desenhada para apoiar o conflito e não o compromisso, tendo a fragmentação social como resultado quase inevitável da digitalização.Gonçalo Saraiva Matias não recusou o diagnóstico, nem sequer o tentou atenuar. Pelo contrário, reconheceu que as redes sociais contribuíram para uma certa lógica de trincheira e que os algoritmos tendem a mostrar às pessoas exatamente aquilo que elas já querem ouvir, criando ambientes cada vez mais fechados sobre si próprios, como câmaras de eco.Mas a resposta voltou, uma vez mais, a ser de confiança na capacidade humana. «A digitalização e o mundo digital são reflexos da natureza humana», afirmou. Se a tecnologia tem amplificado algumas das piores características humanas, também poderá, defendeu, amplificar as melhores: aproximar pessoas, facilitar a partilha de informação, criar espaços comuns e contribuir para uma sociedade mais igual e mais justa.É uma visão  otimista, quase desafiante face ao ceticismo ambiente. E por isso a última frase da conversa adquiriu um significado quase involuntário, de quem avisa sem querer assustar: «Assim a dominemos, em vez de ela a dominar-nos a nós.»Depois dos algoritmos, dos sistemas interoperáveis, da inteligência artificial e da burocracia digital, voltava-se, afinal, aos livros. E foi aí que entrou António José Seguro.«É necessário regressar ao livro para regressar ao pensamento profundo»Pouco depois, no mesmo palco, o Presidente da República deslocou a discussão para um lugar menos tecnológico e, sem dúvida, muito mais antigo: o tempo.A intervenção de António José Seguro começou por percorrer a longa história dos suportes da escrita (das carapaças de tartaruga e das tabuinhas da Mesopotâmia ao papiro, ao pergaminho, ao papel e, por fim, aos ecrãs) para lembrar, com a autoridade de quem já viu muitas modas tecnológicas passarem, que cada transformação do livro foi também, inevitavelmente, uma transformação da própria humanidade.Os livros, defendeu, não são meros depósitos de informação, arrumados como quem arruma prateleiras. Guardam memória, conhecimento, pensamento, ciência, filosofia, arte e as próprias formas através das quais aprendemos, geração após geração, a discutir a vida em comum.Foi daí que chegou ao presente, e àquilo que considera um dos grandes problemas deste século: o declínio da leitura e da literacia, silencioso mas persistente.Seguro referiu os dados dos estudos PISA e a diminuição da leitura enquanto fonte de prazer e atividade cultural, associando essa perda a consequências que ultrapassam, de longe, o universo editorial. Menos leitura pode significar menos capacidade para o pensamento analítico, para a criatividade, para a comunicação e para lidar com a complexidade que o mundo, cada vez mais, nos impõe.«É necessário regressar ao livro para regressar ao pensamento profundo», afirmou.A frase parecia responder, por outro caminho e com outras palavras, à conversa que tinha acabado de acontecer momentos antes. Se Gonçalo Saraiva Matias tinha falado da necessidade de preparar o Estado e os cidadãos para um mundo digital, Seguro falava daquilo que não deveria, em caso algum, desaparecer nessa preparação apressada: a capacidade de permanecer diante de uma ideia tempo suficiente para a compreender verdadeiramente.O Presidente defendeu, por isso, leitores mais exigentes, mais informados e menos distraídos por aquilo que lhes chega, em catadupa, através das redes sociais e dos algoritmos. Recuperando Primo Levi e Virginia Woolf, colocou também responsabilidade sobre o próprio leitor: os padrões através dos quais escolhemos e avaliamos livros ajudam a determinar, goste-se ou não, o ambiente cultural em que escritores e editores trabalham.Não basta, nesta perspetiva, publicar mais. É preciso, sobretudo, criar condições para ler melhor. E essa aprendizagem começa muito antes de qualquer algoritmo intervir. «Não haverá regresso ao livro sem antes haver regresso à leitura, ao prazer e à exigência de ler bons livros», defendeu.Entre a inteligência artificial e a inteligência humanaA intervenção terminou onde, talvez, tivesse mesmo de terminar: na língua. Seguro alertou para aquilo que descreveu como um certo «desamor pela língua portuguesa» no espaço público, defendendo que a língua é um bem essencial da vida em sociedade, uma espécie de casa comum onde cabem a memória, a literatura e a própria capacidade de nomear aquilo que nos acontece, dia após dia.«A língua portuguesa é um bem essencial da nossa vida em sociedade», afirmou, antes de terminar com uma palavra simples, quase desarmante: «amor».Entre a intervenção de um ministro que quer simplificar o Estado através da inteligência artificial e a de um Presidente que pede mais leitura para recuperar o pensamento profundo, o BOOK 2.0 acabou por desenhar uma espécie de equação que é bem menos tecnológica do que à partida parece.Podemos digitalizar processos, tornar sistemas interoperáveis, acelerar decisões, ensinar inteligência artificial nas escolas e levar competências digitais a milhões de pessoas espalhadas pelo país. Podemos, como disse Gonçalo Saraiva Matias, tentar garantir que a tecnologia trabalha a favor das pessoas e não o contrário.Mas permanece, obstinada, uma pergunta anterior a todas essas: para quê?Contra todas as tentações do momento, regressar às origens.  O livro pode mudar de forma. A leitura pode ter outro suporte. O Estado pode alterar a interface. Os algoritmos podem escolher aquilo que vemos. A questão, essa, permanece a mesma: saber se continuaremos capazes de escolher aquilo que queremos pensar. Fotografia:  André AntunesO conteúdo António José Seguro: «É necessário voltar ao livro para chegar ao pensamento profundo» aparece primeiro em Revista Líder.