A nova regulação de criptomoedas no Brasil pode alterar a disputa entre bancos e exchanges ao colocar os dois grupos sob exigências mais próximas — e, nesse cenário, os bancos partem com uma vantagem importante: boa parte da estrutura de compliance, governança e controles internos exigida pelo Banco Central já faz parte da rotina dessas instituições.A avaliação é de Bruno Samora, diretor de produtos da Matera. Durante evento realizado pela empresa, ele afirmou que os bancos já cumprem grande parte dos requisitos que agora passam a ser cobrados das prestadoras de serviços de ativos virtuais. Com isso, podem pedir autorização para atuar com cripto sem precisar construir toda essa estrutura do zero.Na prática, isso tende a mudar o equilíbrio competitivo. De um lado, os bancos entram com escala, capital, estruturas de risco e compliance já consolidadas. Do outro, as exchanges preservam vantagens em especialização, tecnologia e experiência acumulada no mercado cripto.“A diferença é mínima” do ponto de vista regulatório, resumiu Ricardo Chisman, presidente da Matera, ao comentar a distância entre o que já é exigido dos bancos e as novas obrigações impostas às empresas cripto.Para Samora, essa disputa pode se tornar interessante justamente porque os dois lados chegam com competências diferentes. Enquanto os bancos conhecem melhor a infraestrutura financeira regulada, as empresas cripto desenvolveram produtos, atendimento e processos específicos para ativos digitais.Bancos estão internalizando conhecimento criptoA vantagem regulatória, porém, não significa que os bancos já dominem todas as competências necessárias para competir nesse mercado.Segundo Chisman, as grandes instituições vêm criando conhecimento cripto dentro de casa e contratando profissionais especializados, um movimento que mostra que os ativos digitais deixaram de ser tratados apenas como uma curiosidade ou aposta lateral.“Passou de ser uma curiosidade, passou de ser um negocinho que o banco grande vai explorar”, afirmou o presidente da Matera. Para ele, as instituições perceberam que precisam dominar a tecnologia e criar capacidade interna para oferecer produtos desse mercado.Samora contou que esse movimento já começou há alguns anos. Ele relembrou o caso de um grande banco que decidiu avançar em cripto depois de perceber que parte dos depósitos de clientes estava migrando para exchanges.Segundo ele, o diagnóstico foi simples: se o dinheiro dos clientes estava saindo para plataformas de criptomoedas, o banco precisava criar uma oferta própria. A tendência, agora, é que esse processo se intensifique com a regulação.Chisman também afirmou que profissionais que antes dificilmente seriam encontrados dentro de bancos tradicionais agora estão ocupando posições nessas instituições, abrindo novas frentes ligadas a ativos digitais.Regulação também pode acelerar consolidaçãoAo mesmo tempo em que facilita a entrada dos bancos, a regulação pode pressionar empresas cripto menores e acelerar uma consolidação que já está em curso.Samora disse que o Banco Central chegou a trabalhar com uma expectativa de 100 a 150 pedidos de autorização, enquanto associações do setor falavam em cerca de 50. Com o avanço das exigências e o peso do processo regulatório, essa expectativa diminuiu e o mercado passou a trabalhar com pouco mais de dez pedidos até o prazo final.Leia também: Coinext encerra operações, culpa BC e amplia onda de fechamento de corretoras cripto no BrasilO executivo ressaltou que isso não significa necessariamente que apenas esse número de empresas opere hoje no país, mas mostra como as exigências reduziram o grupo disposto ou capaz de buscar uma licença.Na avaliação de Chisman, o resultado pode ser um mercado com menos empresas, porém maiores e mais estruturadas. “Provavelmente são empresas que vão ser maiores ou mais intensas no mercado”, afirmou.Samora acrescentou que já percebe movimentos de consolidação, incluindo fusões e aquisições, embora não veja uma ofensiva coordenada de bancos para absorver exchanges.Cripto pode virar produto normal dos bancosPara os executivos da Matera, o movimento mais importante no longo prazo é a redução da fronteira entre o sistema financeiro tradicional e o mercado cripto.Chisman acredita que ativos digitais caminham para se tornar apenas mais uma categoria de produto financeiro, integrada às plataformas que clientes já utilizam para conta corrente, investimentos e pagamentos.Samora fez uma comparação com a transformação digital dos bancos. Há dez anos, segundo ele, era comum falar em “banco digital”. Hoje, praticamente qualquer instituição precisa ser digital para competir, tornando a distinção menos relevante.Na visão do executivo, algo semelhante deve ocorrer com criptomoedas. A tendência é que expressões como “banco tradicional” e “banco que oferece cripto” percam importância à medida que blockchain, stablecoins e ativos digitais sejam incorporados à infraestrutura financeira.Essa convergência pode ser acelerada justamente pela regulação. Bancos ganham um caminho mais claro para oferecer produtos cripto, enquanto exchanges passam a operar dentro de padrões mais próximos aos do sistema financeiro tradicional.Para Samora, a expectativa é que o cliente final perceba poucas mudanças imediatas no relacionamento com sua exchange. Grande parte da transformação acontece nos bastidores, em áreas como governança, segregação patrimonial e controles de prevenção à lavagem de dinheiro.No médio prazo, porém, a disputa tende a mudar. Bancos passam a competir em um mercado que antes evitavam, enquanto exchanges precisam provar que conseguem manter sua agilidade e especialização dentro de um ambiente regulatório mais próximo daquele em que as instituições financeiras tradicionais já operam há anos.Quer investir na maior criptomoeda do mundo? No MB, você começa em poucos cliques e de forma totalmente segura e transparente. Não adie uma carteira promissora e faça mais pelo seu dinheiro. Abra sua conta e invista em bitcoin agora!O post Nova regulação cripto pode dar vantagem aos bancos na disputa com exchanges, dizem executivos apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.