O turista chinês chegou ao Brasil. O Brasil não chegou ao turista chinês

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StartupiO turista chinês chegou ao Brasil. O Brasil não chegou ao turista chinêsPassei os últimos quinze anos explicando o Brasil para chineses e a China para brasileiros, sempre no mesmo sentido: o brasileiro embarca, eu recebo do lado de lá. O número que a Embratur publicou esta semana diz que o sentido inverteu. O Brasil recebeu 113.228 turistas chineses entre janeiro e agosto, alta de 73,3% sobre o mesmo período do ano passado, e em oito meses já passou tudo o que a China mandou para cá em 2025 inteiro. É o mercado que mais cresce entre todos os que chegam ao país, e chega num ano em que o total de estrangeiros ficou estável, em 6,45 milhões.Cento e treze mil pessoas parece pouco ao lado dos 2,2 milhões de argentinos. Não é assim que se lê esse número. Há sete anos, em 2019, a China era um mercado marginal para o turismo brasileiro. Hoje ela cresce a 73% ao ano num país onde o americano, terceiro colocado, cresce a um dígito. Quem trabalha com China aprende a olhar a taxa, não o tamanho. O tamanho vem depois, e vem rápido.Quem é essa pessoa que desembarcaEu conheço esse viajante, porque convivo com ele há quinze anos do lado de lá. E a primeira coisa que preciso dizer é que ele não é o turista que a indústria brasileira imagina.O chinês que hoje pousa em Guarulhos não é o grupo de bandeirinha e ônibus que a Europa recebeu nos anos 2010. Aquele turista ainda existe, mas quem chega ao Brasil é outro: tem entre 30 e 45 anos, viaja em dupla ou em família pequena, planejou a viagem inteira no Xiaohongshu, que é o Instagram-Pinterest deles, e sabe antes de embarcar qual cafeteria de São Paulo tem a melhor foto, qual mirante do Rio evita a fila e qual churrascaria os influenciadores chineses aprovaram. Ele não vai perguntar nada ao concierge. Ele já sabe.Ele não carrega dinheiro. Na China ninguém paga com cartão há dez anos; paga com o celular, com Alipay ou WeChat Pay. Quando chega a um balcão brasileiro que aceita “cartão ou Pix”, esse viajante fica numa situação que o brasileiro não faz ideia de como é constrangedora: ele tem dinheiro e não consegue gastar.E ele espera ser compreendido em mandarim. Não por arrogância, mas porque em Bangkok, em Dubai, em Paris e em Sydney ele é. O guia de turismo, o cardápio, a sinalização do aeroporto, a página do hotel: nos destinos que aprenderam a receber chinês, isso tudo fala a língua dele. No Brasil, quase nada fala.O turista invisívelAgora, o ponto que a estatística não mostra e que eu vejo todo mês no aeroporto de Xangai.Uma parte grande desses 113 mil não veio ver o Cristo. Veio trabalhar. A BYD está construindo uma fábrica na Bahia. A GWM produz no interior de São Paulo. Empresas chinesas operam porto, rede elétrica, petróleo, mineração e, cada vez mais, energia solar e eólica no Nordeste. Cada uma dessas operações movimenta engenheiro, técnico, diretor, fornecedor e auditor, e cada um deles entra no Brasil pelo mesmo desembarque do turista, dorme no mesmo hotel, come no mesmo restaurante e aparece na mesma estatística da Embratur.Esse é o viajante que tem o maior gasto por dia, que fica mais tempo e que volta. E é o que o Brasil menos enxerga, porque ele não aparece na foto de Copacabana. Quem quiser entender por que o Rio Grande do Sul aparece em terceiro no ranking de desembarques, à frente do Paraná e de Santa Catarina, precisa olhar também para o que a China está construindo no Sul, e não só para a Serra Gaúcha.O que falta, na ordem em que faltaVou dizer o que eu diria a um hoteleiro, a um dono de restaurante ou a um secretário de turismo que me perguntasse por onde começar. São três coisas, nessa ordem.Primeiro, receba o dinheiro. Aceitar Alipay e WeChat Pay no Brasil não é exótico nem difícil: as duas plataformas já operam com adquirentes locais, e a integração é um QR Code no balcão. Um hotel de São Paulo que aceita Alipay hoje é notícia dentro do Xiaohongshu. Um que não aceita é uma reclamação.Segundo, apareça onde ele procura. O chinês não usa Google, não usa TripAdvisor e não lê o seu Instagram. Ele usa Trip.com para reservar, Xiaohongshu para escolher e Dianping para avaliar. Estar nessas três plataformas, em mandarim, com foto boa e preço em yuan, vale mais que qualquer campanha de mídia no Ocidente. E custa uma fração.Terceiro, fale com ele. Não precisa de uma equipe inteira. Precisa de uma pessoa, um guia de mandarim, uma recepcionista, um cardápio traduzido por alguém que entenda o que um chinês quer ler num cardápio, e não pelo tradutor automático. O Brasil tem uma comunidade chinesa de mais de 200 mil pessoas e universidades formando gente em mandarim. O recurso existe; o que falta é quem contrate.Por que agoraA Embratur credita o salto à queda no preço das passagens, às parcerias com operadores e ao Ano Cultural Brasil-China, com um festival em Pequim voltado aos agentes de viagem locais. Tudo verdade, e tudo do lado da oferta. Eu acrescento o lado da demanda, que é o que eu vejo de dentro.A classe média chinesa esgotou a Ásia. Tailândia, Japão, Coreia, Cingapura: já foi, já postou, já voltou. O próximo círculo é o destino distante, exótico, que ainda rende foto que ninguém do grupo de amigos tem. A Europa perdeu parte desse apetite com a burocracia de visto e o clima político. Restam a África e a América do Sul. E, na América do Sul, o Brasil é o único país que o chinês médio consegue nomear: futebol, carnaval, Amazônia, e agora BYD, que virou orgulho nacional por vender carro aqui.Esse apetite existe com ou sem Brasil preparado. A diferença é quanto dele fica no país. O chinês que não consegue pagar, não encontra informação e não é compreendido vai gastar a metade do que gastaria e vai contar isso para os 400 milhões de usuários do Xiaohongshu no dia seguinte.O que eu diria à EmbraturQue separe o turista do profissional na estatística e trate os dois. O primeiro precisa de Alipay, mandarim e conteúdo nas plataformas certas. O segundo precisa de algo que o Brasil ainda não oferece a ninguém: um serviço de recepção corporativa que entenda que o engenheiro de Shenzhen vai passar três meses na Bahia, quer comida que reconheça, quer pagar o aluguel pelo celular e quer um contato que resolva problema em mandarim às dez da noite.Eu faço isso no sentido contrário há quinze anos. Sei quanto vale, para um brasileiro, ter alguém que fala a sua língua esperando na saída do aeroporto de Guangzhou. Vale a viagem inteira. É o que os 113 mil chineses vão procurar quando pousarem em Guarulhos. E é o que o Brasil ainda não tem para oferecer.Por Theo Paul Santana é fundador da Destino China, vive na China desde 2010 e há quinze anos leva empresários brasileiros ao país.Matéria originalmente publicada na Gazeta Mercantil Digital (em www.gazetamercantil.com.br) O post O turista chinês chegou ao Brasil. O Brasil não chegou ao turista chinês aparece primeiro em Startupi e foi escrito por StartupiO post O turista chinês chegou ao Brasil. O Brasil não chegou ao turista chinês apareceu primeiro em Startupi.