Por décadas, o sutiã ocupou um lugar controverso no guarda-roupa feminino. Se, nos anos 1960 e 1970, a peça foi associada aos protestos feministas e à ideia de libertação do corpo, hoje ela ganha um significado diferente: deixou de ser apenas uma roupa íntima e passou a funcionar como uma peça autônoma. Nas passarelas internacionais, o movimento aparece de forma cada vez mais evidente. Em Milão, grifes como Prada e Fendi levaram o sutiã para fora da função tradicional, enquanto a Maison Margiela também explorou a peça como parte central do visual. A proposta acompanha uma tendência mais ampla observada nas coleções recentes: a valorização de produções menos rígidas, assimétricas e aparentemente imperfeitas.Vem comigo!Fendi primavera/verão 2027 Protestos feministasA relação entre o sutiã e o feminismo é antiga, embora parte dessa história tenha sido simplificada ao longo do tempo. A imagem de mulheres queimando sutiãs ficou associada aos movimentos feministas dos anos 1960 e 1970, mas o episódio que consolidou esse imaginário, durante um protesto contra o concurso Miss America, em 1968, nos Estados Unidos, não envolveu uma queima efetiva da peça. Leia também Ilca Maria EstevãoPrada faz das saias protagonistas em coleção que celebra o imperfeito Ilca Maria Estevão“Lei das burcas” entra em vigor em Portugal com multas de até 3 mil euros Ilca Maria EstevãoSinônimo de poder, roxo representa riqueza e luta feminina Ilca Maria EstevãoDas burcas aos hijabs: entenda as principais vestes islâmicas Durante o protesto do Women’s Liberation Movement contra os padrões de beleza impostos pelo concurso, cerca de 400 ativistas jogaram sutiãs, cintas, saltos altos e maquiagens em uma “Lixeira da Liberdade” como ato simbólico de libertação.Sutiãs, saltos e outros itens foram descartados no protesto Nenhum fogo foi aceso, pois a polícia local proibiu qualquer incêndio em espaço público. No entanto, a imprensa da época comparou o descarte desses objetos à queima de cartões de alistamento militar da Guerra do Vietnã, criando uma manchete sensacionalista que imortalizou a queima de sutiãs como slogan feminista.Protesto feminista nos Estados Unidos, em 1968 Ainda assim, o sutiã se tornou um símbolo recorrente das discussões sobre os padrões impostos ao corpo feminino. A ideia de abandonar a lingerie representava, naquele contexto, uma rejeição às expectativas sociais sobre como as mulheres deveriam se vestir e se apresentar.Cartaz escrito “Poder feminino” Sutiãs protagonizam passarelasSe, historicamente, a libertação feminina foi associada à ideia de abandonar o sutiã, a moda contemporânea apresenta outra possibilidade: usar a peça porque se quer usá-la e também decidir quando ela deixa de ser íntima para se tornar parte do outfit. A peça continua cumprindo uma função prática para muitas mulheres, seja pela sustentação ou pelo conforto proporcionado por determinados modelos. A diferença está na possibilidade de incorporá-la à produção como qualquer outra roupa.Transparência e all-black Na Semana de Moda de Milão, grifes como Prada, Fendi e Maison Margiela levaram a lingerie para o centro das produções. O movimento acompanha uma transformação mais ampla na moda, que tem deixado de lado a necessidade visuais excessivamente polidos para valorizar assimetrias, sobreposições inesperadas, cabelos naturais e construções aparentemente imperfeitas.Peça ganha destaque nas passarelas Na coleção de primavera/verão 2027 da Prada, a ideia aparece de maneira literal. Um dos visuais traz um sutiã preto de renda usado sozinho, combinado a uma saia vermelha de cintura baixa. A escolha conversa com uma das características mais marcantes da coleção: a valorização de uma aparência menos controlada.6 imagensFechar modal.1 de 6Top com formas geométricasOlivier CLAISSE/Gamma-Rapho via Getty Images2 de 6Sobreposição de top com camisaEstrop/Getty Images3 de 6Desfile aconteceu em Milão nesta terça-feira (22/9)Daniele Venturelli/WireImage/Getty Images4 de 6Todos os looks da coleção tinham saiasGiovanni Giannoni/WWD via Getty Images5 de 6Prada primavera/verão 2027Estrop/Getty Images6 de 6Prada primavera/verão 2027Estrop/Getty Images A Fendi também levou a peça para fora do território tradicional da roupa íntima. Em um dos looks, um sutiã verde-claro aparece diretamente sobre a pele e é combinado a um blazer preto de mangas amplas e uma peça de cetim na mesma tonalidade.Desfile Fendi primavera/verão 2027 Na Maison Margiela, a proposta ganha outro significado. Um sutiã vermelho de renda aparece à mostra sob uma peça azul-marinho usada de maneira desconstruída, com a parte superior aberta. O resultado aproxima a lingerie de uma das linguagens mais reconhecíveis da maison: a desconstrução.Peça em tonalidade vibrante Nesse caso, o sutiã funciona quase como uma ruptura dentro da própria construção do outfit. A lingerie, que historicamente deveria ficar sob as demais camadas, passa a ser justamente um dos elementos que chamam atenção.Maison Margiela primavera/verão 2027