LUND, Suécia — O empreendedor sueco de tecnologia Jonas Birgersson se lembra de ter visto a imagem de satélite da Ucrânia, uma cicatriz escurecida no rosto da Europa, depois que a Rússia atacou a rede elétrica do país em 2022.Os apagões deixaram milhões de ucranianos sem eletricidade, aquecimento e água enquanto as temperaturas caíam abaixo de zero. Também evidenciaram, de forma assustadoramente clara, a vulnerabilidade das grandes redes elétricas da Europa.“Esse foi o gatilho”, disse Birgersson. O episódio o levou a iniciar um experimento inovador em sua cidade natal, Lund, na Suécia. Seria possível desenvolver um novo sistema de produção, armazenamento e compartilhamento local de eletricidade que fosse ao mesmo tempo mais barato e mais seguro?A solução criada por ele vem atraindo atenção. A empresa de Birgersson, a ViaEuropa, assinou um acordo para desenvolver pequenas redes elétricas com uma associação que representa empresas de habitação em toda a Suécia. Juntas, essas companhias administram cerca de 1 milhão de apartamentos.Nesta semana, Birgersson apresentou o projeto durante a Climate Week, em Nova York. Mas especialistas ao redor do mundo já haviam tomado conhecimento da iniciativa. Kingsmill Bond, diretor da organização global de energia Ember, sediada em Londres, classificou o projeto como “uma ideia cuja hora chegou”.Necessidade urgente de novas redesA questão de como modernizar as redes elétricas tornou-se urgente para todas as grandes potências industriais.As redes de energia são maravilhas da engenharia dos séculos XIX e XX. Mas estão cada vez mais ultrapassadas. Muitas não têm capacidade para lidar com a crescente demanda provocada pela expansão dos data centers, dos veículos elétricos, das bombas de calor e de outras tecnologias.Na Dinamarca, a operadora da rede elétrica suspendeu temporariamente novas conexões neste ano devido à capacidade limitada. Em toda a Europa, estima-se que a demanda por eletricidade aumente 60% até 2030.Essas estruturas envelhecidas e altamente centralizadas também são vulneráveis a falhas catastróficas, seja por ataques, seja por problemas técnicos.Em janeiro de 2021, um problema em uma subestação na Croácia quase derrubou todo o sistema elétrico europeu. No ano passado, Espanha e Portugal sofreram interrupções generalizadas de energia.Os Estados Unidos enfrentam problemas semelhantes. Uma forte tempestade de inverno no Texas, em 2021, paralisou usinas elétricas e deixou milhões de moradores sem energia e aquecimento por dias. Neste ano, o órgão responsável por monitorar grande parte do sistema elétrico norte-americano alertou que dezenas de milhões de pessoas enfrentam um risco crescente de apagões nos próximos cinco anos.Birgersson e um grupo de empreendedores e especialistas do setor defendem que a resposta para essas vulnerabilidades está em uma nova arquitetura elétrica: sistemas descentralizados compostos por pequenas redes.Os defensores da ideia reconhecem que convencer governos e empresas exigirá uma mudança filosófica radical. Na prática, significaria abandonar um modelo que abastece o mundo moderno há cerca de 140 anos.Ainda assim, a abordagem oferece diversas vantagens. Sistemas descentralizados seriam mais baratos de construir e operar. Também permitiriam transmitir energia renovável com menor risco de sobrecarga, poderiam ser implantados gradualmente e seriam mais resilientes, sem um único ponto crítico de falha.O modelo seria semelhante ao da internet, uma vasta rede interconectada.Uma equipe de cientistas financiada por um conselho de pesquisa da União Europeia trabalha em um projeto ambicioso chamado SAFEr GRID, que busca demonstrar que um sistema conectado de pequenas redes elétricas independentes poderia funcionar em toda a Europa.Essa abordagem impediria que um problema local se transformasse em uma falha de escala continental, afirmou Antonello Monti, integrante do projeto, que reúne pesquisadores da Universidade RWTH Aachen, na Alemanha, e da Universidade de Aalborg, na Dinamarca.“Muitas. Pequenas. Baratas.”Birgersson compartilha dessa visão. Em vez de gigantescas operadoras centralizadas, ele imagina um futuro com centenas, milhares ou até milhões de microrredes inteligentes conectadas entre si e compartilhando eletricidade. Roteadores administrariam a transferência de energia entre elas da mesma forma que fazem com dados na internet.As famílias poderiam, no futuro, comprar energia por uma taxa fixa e baixa, assim como ocorre hoje com a banda larga.“Muitas. Pequenas. Baratas. Orquestradas digitalmente”, explica. “É assim que a internet funciona.”Birgersson sabe do que fala. Ele ajudou a revolucionar o setor de telecomunicações no fim dos anos 1990 e foi cofundador de uma das primeiras empresas a oferecer internet de fibra óptica para residências. Esse foi um dos dois negócios bilionários que ajudou a criar antes dos 30 anos. Na Suécia, ganhou o apelido de “Jesus da Banda Larga”.Quase três décadas depois, ainda com seu jeito de entusiasta da tecnologia aos 54 anos, Birgersson direciona para o setor energético o mesmo entusiasmo que marcou suas inovações em telecomunicações.“Estamos usando a arquitetura genial da internet, mas aplicando-a a um campo diferente”, afirmou a partir da sede da ViaEuropa, instalada justamente no prédio que abrigava a antiga usina elétrica da cidade.Um dos projetos-piloto já está em funcionamento: um edifício que reúne apartamentos, escritórios, espaços comerciais e uma garagem. Desde abril de 2025, o local produz parte de sua energia por meio de painéis solares instalados no telhado, armazena a eletricidade em baterias e compartilha essa energia entre empresas e moradores.Agora, Birgersson trabalha na modernização de um conjunto habitacional público construído nos anos 1960, composto por 10 edifícios e 278 apartamentos.No local, os sinais mais visíveis da transformação energética são buracos no solo e bobinas de tubos amarelos brilhantes que protegem os cabos que conectam os prédios.Grande parte dos equipamentos necessários para criar as microrredes está sendo instalada em salas técnicas já existentes. Antigos incineradores desativados, com suas paredes espessas e isoladas, são ideais para abrigar as baterias de armazenamento.Henrik Adamsson, gestor de energia da autoridade municipal de habitação de Lund, afirmou que sua equipe aderiu ao projeto porque a energia produzida localmente tem “potencial para reduzir nossos custos operacionais no longo prazo”.O novo sistema também deve permitir melhor aproveitamento da energia gerada pelos painéis solares instalados nos telhados.No modelo desenvolvido por Birgersson, o software que controla a microrrede cria uma espécie de firewall entre os produtores locais e a rede principal. Assim, a eletricidade gerada por painéis solares pode ser compartilhada ou vendida entre vizinhos sem sequer passar pela rede tradicional.O projeto habitacional fica a poucos quarteirões das escolas de ensino fundamental e médio que Birgersson frequentou quando criança.Esse subúrbio sueco com menos de 135 mil habitantes pode parecer um lugar improvável para iniciar uma revolução energética global. Mas Lund possui reputação internacional como um importante polo de pesquisa científica. Da cidade saíram invenções como o rim artificial, o ultrassom médico, a tecnologia Bluetooth e os leitores de impressão digital.Lund também abriga uma das mais novas e maiores infraestruturas científicas e tecnológicas do mundo: a European Spallation Source, um acelerador de prótons de alta energia que funciona como um supermicroscópio capaz de visualizar estruturas atômicas fundamentais.Essa concentração de talentos em ciência e tecnologia cria oportunidades únicas de colaboração. Alguns dos conceitos da área de eletrônica de potência, usados para gerenciar a enorme quantidade de energia necessária para o acelerador de prótons, estão sendo aplicados pela equipe de Birgersson na modernização desses conjuntos habitacionais.A aposta da Europa na descentralizaçãoA energia descentralizada costuma ser associada a países em desenvolvimento que não dispõem de recursos ou capacidade para construir grandes redes elétricas. Mas, à medida que autoridades europeias discutem como atender à crescente demanda e reduzir o risco de falhas, a ideia ganha força.O Plano de Ação para Redes Elétricas da União Europeia afirma que essas redes precisam ser “mais digitalizadas, descentralizadas e flexíveis”. O bloco também passou a oferecer mais espaço para que inovadores locais conduzam experimentos nessa direção.O braço de pesquisa da OTAN também vem estudando como a descentralização da arquitetura das redes elétricas pode aumentar sua resiliência.Segundo Monti, do projeto SAFEr GRID, questões de segurança podem acabar sendo o principal fator a acelerar a adoção de sistemas descentralizados pela União Europeia. Contudo, essa transformação exigirá uma profunda revisão de conceitos.Enquanto isso, Birgersson, movido por um entusiasmo quase contagiante, segue instalando microrredes um prédio de cada vez.“Se funcionar aqui”, disse ele, “será uma vitória fácil no restante da Europa.”Este artigo foi publicado originalmente pelo The New York Times.The post O mundo precisa de redes elétricas melhores. E elas podem ser menores appeared first on InfoMoney.