Valter Hugo Mãe inventou o Pessivista em seu livro O Século dos Imbecis.Desconfio que por aqui criamos outra espécie: o Deixapralista.Conheci um numa tarde em que o céu estava desabando.Quando a água chegou aos tornozelos, explicou que tinha chovido demais. Nos joelhos, disse que uma cidade desse tamanho é difícil de administrar. Na cintura, falou da falta de recursos.Vieram outros.Formaram uma Horda.Não tem saneamento? Um absurdo. Falta moradia? Uma vergonha. Professor, médico, fiscal? Onde já se viu? E os impostos, altíssimos.A Horda reclama de tudo. No sofá, no elevador, no grupo do condomínio, na fila do café, nas redes sociais.E reclama bem.Sabe o que está errado, quem deveria cuidar, quanto custa, quanto demora para resolver. Conhece até alguém que conhece alguém que sabe como resolver.— Isso é um escândalo. Alguém precisa fazer alguma coisa!Nisso, o Deixapralista é incansável. Discute, esbraveja, encaminha mensagem, manda áudio que envelhece quem está ouvindo: começa com opinião e termina em podcast. Se indignação resolvesse alguma coisa, o Brasil já estava resolvido.Mas sua atividade termina onde começa o trabalho.Depois, fica na espera.Alguém vai resolver.O problema começa quando alguém pergunta:— E se esse alguém for a gente?Aí complica.Tem que cobrar, acompanhar, perguntar, pesquisar para descobrir quem decide, lembrar quem prometeu, quem votou, ir atrás.E voltar.E insistir.Quem faz isso, logo vira o chato da Horda. Vira “ativista”.— Lá vem.Pergunta, confere, volta ao assunto e não sabe deixar as coisas quietas.A água chegou ao peito.Um disse que não adiantava.— Sempre foi assim.A água bateu no pescoço.Alguém sugeriu esperar mais um pouco enquanto procurava um lugar mais alto para se abrigar.Concordaram que a situação estava mesmo muito ruim.Mas fazer o quê?