BlackRock explica por que agentes de IA preferem Bitcoin à moeda fiduciária, e brasileiro mostra que a resposta tem 134 anos

Wait 5 sec.

Em estudo citado pela gestora, nenhum de 36 modelos de IA escolheu a moeda fiduciária, algo que a Escola Austríaca de Carl Menger já explicava em 1892, e João Paulo Mayall atualiza a teoria para a era das máquinas com a salabilidade prática, proposta em paper no SSRN.A BlackRock publicou em setembro um relatório sobre a economia nativa das máquinas, em que cita um estudo com 36 modelos de inteligência artificial, e nenhum deles escolheu a moeda fiduciária como primeira opção. Para o empresário João Paulo Mayall, cofundador da QR Capital e responsável pelo QBTC11, primeiro ETF de Bitcoin da América Latina, os motivos que a gestora aponta já estavam num artigo que o economista austríaco Carl Menger publicou em 1892.“A BlackRock acabou de publicar um paper sobre agentes de AI que, sem citar o Menger uma única vez, confirma a resposta dele”, escreveu Mayall em thread publicada no X nesta quinta-feira (24). O nome de Menger, fundador da Escola Austríaca de economia, não aparece em nenhuma das 11 páginas do documento.Em 1892 Carl Menger respondeu uma pergunta que parece boba: "por que todo mundo aceita dinheiro?" A BlackRock acabou de publicar um paper sobre agentes de AI que, sem citar o Menger uma única vez, confirma a resposta dele. 🧵👇 pic.twitter.com/EFOFWxLaC2— J. P. Mayall (@jpmayall) September 24, 2026O que as máquinas escolheramO estudo citado pela BlackRock foi conduzido pelo Bitcoin Policy Institute (BPI), organização de pesquisa com sede em Washington, e testou 36 modelos de 6 desenvolvedoras (Anthropic, DeepSeek, Google, MiniMax, OpenAI e xAI) em 9.072 cenários monetários abertos, sem sugerir nenhuma moeda.No total, o Bitcoin foi a escolha mais frequente, com 48,3% das respostas, seguido pelas stablecoins, com 33,2%. A moeda fiduciária e o dinheiro bancário ficaram com 8,9%, e nenhum dos 36 modelos colocou essa opção em primeiro lugar.O resultado muda conforme a função. Em cenários de reserva de valor por vários anos, o Bitcoin levou 79,1% das respostas (1.794 de 2.268), contra 6,7% das stablecoins e 6% da moeda fiduciária. Em pagamentos, a ordem se inverte, com as stablecoins em 53,2%, o Bitcoin em 36% e a moeda fiduciária em 5,1%.Preferências dos 36 modelos de IA em reserva de valor e em pagamentos. Fonte: Bitcoin Policy Institute (moneyforai.org)A BlackRock menciona o levantamento na página 4 do relatório como apoio preliminar à ideia de uma arquitetura monetária em que as stablecoins servem para transacionar e o Bitcoin para guardar valor. A gestora ressalva que se trata de respostas simuladas pelos modelos, e não de comportamento observado de agentes.As barreiras que a BlackRock apontaNa página 5, a gestora lista por que os trilhos de pagamento atuais servem mal a transações de alto volume e baixo valor feitas por agentes. Entre os problemas estão os processos de abertura de conta, credenciamento e autorização que podem exigir um humano, as tarifas de aceitação que tornam antieconômicas as transações de valor muito baixo e as restrições de liquidação, já que a maior parte do volume do ACH americano liquida em até 1 dia útil.“Um agente não tem CPF, não espera o banco abrir e não paga tarifa maior que a compra. Pra máquina, essa é a dimensão que decide o jogo antes de qualquer outra”, afirma Mayall.A lista de 1892Para Mayall, a lista é praticamente a mesma que Menger publicou no artigo “On the Origin of Money”, na revista britânica The Economic Journal, em 1892. No texto, o economista austríaco explica que o dinheiro não foi inventado por decreto nem por convenção. Ele surge porque cada pessoa troca o que tem pelo bem mais fácil de revender, qualidade que Menger chamou de Absatzfähigkeit, ou vendabilidade.“Ninguém inventou o dinheiro. Um pescador que quer sapato não consegue trocar com um sapateiro que não quer peixe, e o peixe apodrece antes de ele achar quem queira. A saída é trocar o peixe primeiro pelo bem que qualquer um aceita, e esse bem vira dinheiro sozinho, sem decreto”, explica.Nas páginas 246 e 247 do artigo, Menger enumera os fatores que limitam a vendabilidade de um bem. Mayall destaca 3 deles, que são as limitações impostas política e socialmente à troca, o custo de transporte em proporção ao valor do bem e a periodicidade do mercado.Trechos de Carl Menger (1892) e do relatório da BlackRock (2026) comparados por João Paulo Mayall. Imagem: @jpmayall“Quando a BlackRock diz que abrir conta exige um humano, ela está descrevendo o que Menger chamou de limitação política à troca. Quando fala que a tarifa inviabiliza pagamentos de centavos, é o custo proporcional ao valor. Quando reclama da liquidação em dia útil, é o mercado que só abre em certos dias. É o problema do peixe 134 anos depois, com outra roupa”, diz Mayall.A contribuição do brasileiroA parte original do argumento vem de um paper que Mayall publicou no SSRN, repositório internacional de pesquisa acadêmica, com o título “Bitcoin as Validation of the Regression Theorem: An Austrian Synthesis with Szabo and Ammous”. No trabalho, ele compara ouro, moeda fiduciária e Bitcoin em 10 propriedades monetárias derivadas de Menger e do economista Saifedean Ammous, autor de O Padrão Bitcoin, e acrescenta uma 11ª, que chamou de salabilidade prática.A nova dimensão mede se um ativo pode ser usado agora, sem pedir permissão e sem perder valor no caminho, com base em 3 critérios observáveis, que são o spread, o horário de liquidação e o acesso sem intermediário. Na avaliação do paper, que o próprio autor descreve como qualitativa, o ouro recebe nota 4, a moeda fiduciária 6 e o Bitcoin 9.As 11 dimensões monetárias comparadas no paper, com a salabilidade prática em destaque. Fonte: Mayall (2026), SSRN 5376225“Menger mediu a vendabilidade do bem num mundo de feiras e mercadores. Na era digital, é preciso medir também o trilho, ou seja, se dá pra usar o dinheiro agora, sem pedir permissão a ninguém e sem perder valor no spread. Foi isso que eu chamei de salabilidade prática”, afirma Mayall.Segundo ele, as barreiras listadas pela BlackRock correspondem ponto a ponto aos critérios da nova dimensão. “A BlackRock descreveu a salabilidade prática sem dar nome a ela. Os mesmos critérios que eu uso para pontuar ouro, moeda fiduciária e Bitcoin aparecem no relatório como os motivos pelos quais o sistema bancário não serve às máquinas.”Guardar em Bitcoin, gastar em stablecoinMayall resume a escolha dos agentes em 2 filtros. O primeiro é a salabilidade prática, que elimina o dinheiro bancário tradicional. O segundo é o horizonte de tempo, que separa o que o agente usa para pagar do que usa para guardar.“Pra máquina, o dinheiro passa por 2 filtros. A salabilidade prática elimina o banco, depois o horizonte decide entre stablecoin e Bitcoin. É a mesma divisão que Menger fez entre vender no espaço e vender no tempo”, diz.RessalvasO próprio estudo do BPI mostra que a preferência varia bastante entre desenvolvedoras. A fatia do Bitcoin foi de 91,3% no Claude Opus 4.5, da Anthropic, a 18,3% no GPT-5.2, da OpenAI, embora os resultados tenham se mantido estáveis em diferentes configurações dos modelos.“São respostas de simulação, não comportamento observado, então é hipótese e não prova. Só que é uma hipótese que a Escola Austríaca formulou há 134 anos, e agora a maior gestora do mundo chegou nela por outro caminho”, pondera Mayall.Quem é João Paulo MayallMayall é empresário e executivo do mercado de ativos digitais e cofundador da QR Capital, gestora vendida em 2025. Liderou o primeiro ETF de Bitcoin da América Latina (QBTC11) e outros três ETFs cripto pioneiros na B3, o primeiro fundo 100% em criptoativos do país e um dos primeiros projetos de tokenização aprovados no sandbox da CVM, além de estruturar a certificação CCA® da Ancord, ministrar o maior curso de criptomoedas já realizado pela B3, com 27 mil participantes, e assessorar a Anbima em Web3. Paralelamente, publica no SSRN papers de teoria monetária sob a ótica da Escola Austríaca, entre eles o estudo em que propõe a salabilidade prática como 11ª propriedade monetária, base da análise desta reportagem, e outro sobre a exposição indireta de reservas soberanas de ouro a títulos do U.S. Treasury.Veja mais em:Thread de João Paulo Mayall no X: https://x.com/jpmayall/status/2103124950701715872Paper no SSRN: https://ssrn.com/abstract=5376225Relatório da BlackRock: https://www.blackrock.com/us/individual/literature/whitepaper/the-machine-native-economy.pdfEstudo do Bitcoin Policy Institute: https://www.moneyforai.orgCarl Menger, On the Origin of Money (1892), scan original: https://archive.org/details/sim_economic-journal_march-december-1892_2_5-8Fonte: BlackRock explica por que agentes de IA preferem Bitcoin à moeda fiduciária, e brasileiro mostra que a resposta tem 134 anosVeja mais notícias sobre Bitcoin. Siga o Livecoins no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.