Cientistas acabam de revelar uma galáxia totalmente desconhecida orbitando a Via Láctea. A descoberta foi realizada a partir de dados de teste do Observatório Vera C. Rubin, no Chile, mostrando a capacidade impressionante do novo telescópio.A nova vizinha cósmica recebeu o nome de Aquarius IV e pertence à categoria das galáxias anãs ultrafraquíssimas. Essas formações estão entre as menores, mais apagadas e mais distantes já registradas pelos astrônomos.A Nebulosa da Hélice, fotografada pela sonda Galaxy Evolution Explorer, da NASA, está localizada no coração da constelação de Aquário. Ainda mais distante – além da borda da Via Láctea – astrônomos do Observatório Vera C. Rubin descobriram o que acreditam ser uma galáxia anã extremamente tênue e nunca antes vista, orbitando a nossa, chamada Aquarius IV. – Crédito: NASA/JPL-Caltech/SSCEnquanto a nossa galáxia abriga cerca de 100 bilhões de estrelas, a pequena Aquarius IV possui no máximo algumas centenas de milhares – o equivalente a um pequeno vilarejo ao lado de uma metrópole. Além de ser incrivelmente pequena, essa estrutura é composta quase em sua totalidade por matéria escura. Os pesquisadores explicam que entre 99% e 99,9% de toda a massa da galáxia é feita dessa substância invisível que não emite nem reflete luz. Resta apenas uma fração minúscula de massa composta por estrelas visíveis. Por esse motivo, identificar esse tipo de corpo celeste representa um dos maiores desafios da astronomia.Astrônomos calculam que existam centenas de formações parecidas ao redor da Via Láctea, mas a extrema escuridão dificulta a localização. “Dessas galáxias anãs, apenas cerca de 60 foram encontradas até agora”, revelou Aashay Pai, físico da Universidade de Chicago e coautor do estudo, em entrevista ao Live Science. Câmera de 3,2 bilhões de pixels e algoritmos revelam o invisível O grande diferencial dessa descoberta foi a tecnologia de ponta usada nas observações. “O Vera Rubin foi desenhado para atacar quatro áreas científicas, e a primeira delas é justamente sondar a energia escura e a matéria escura”, explica o astrônomo Bruno Quint, doutor em astronomia pela Universidade de São Paulo (USP), cientista de operações e vice-chefe de suporte científico no Observatório Vera C. Rubin. Para alcançar esse objetivo, a estrutura conta com uma engenharia sem precedentes. “O que nos dá a ferramenta certa é uma combinação rara: um telescópio de 8,4 metros acoplado à maior câmera digital já construída para astronomia, com 3,2 bilhões de pixels”, destaca Quint. O equipamento gigantesco – com 1,65 metro de altura, 4,5 metros de comprimento e cerca de três toneladas – consegue capturar luzes 100 milhões de vezes mais fracas do que o olho humano pode enxergar. “Com isso, vamos gerar um novo retrato de todo o céu do hemisfério sul a cada poucas noites, ao longo de um levantamento de dez anos”, completa Quint.Observatório Vera C. Rubin, no Chile, que conta com a maior câmera digital do mundo para mapear o céu. – Crédito: RubinObs/NOIRLab/SLAC/NSF/DOE/AURA/H. StockebrandPara localizar a galáxia satélite Aquarius IV, os cientistas usaram algoritmos no computador que analisaram dados de milhares de estrelas. O sistema identificou um grupo específico cujas cores e brilho indicavam que elas nasceram e evoluíram juntas há cerca de 13 bilhões de anos. Essas estrelas são quase tão antigas quanto o próprio Universo, o que ajudou os pesquisadores a separá-las de outros corpos luminosos ao fundo.O esforço para mapear estruturas tão apagadas faz parte de um plano metodológico robusto e diversificado que orienta os trabalhos do observatório. Conforme destaca Quint, “a beleza do Rubin é justamente a capacidade de utilizar as mesmas imagens para alimentar vários métodos de investigação ao mesmo tempo”, avaliando o cosmos por diferentes ângulos.O primeiro é a lente gravitacional fraca, que mede distorções minúsculas na forma das galáxias causadas pela gravidade da matéria no caminho da luz, revelando como a estrutura do Universo cresceu e como essa expansão é freada pela energia escura – um dos métodos mais poderosos da astronomia atual. O segundo consiste no mapeamento tridimensional das galáxias, que utiliza a distância típica entre elas como uma espécie de régua cósmica para medir a expansão em diferentes épocas. Por sua vez, o terceiro é o estudo de supernovas como velas-padrão em quantidade industrial, com a expectativa de detectar milhões delas em uma década. Já o quarto método se apoia na contagem de aglomerados de galáxias, cujas variações de abundância ao longo do tempo também são extremamente sensíveis à energia escura.Dados do Observatório Vera C. Rubin revelam a galáxia anã ultrafraquíssima Aquarius IV, satélite da Via Láctea, analisando sua densidade espacial, imagem óptica, perfil radial e diagramas cor-magnitude com isócronas. – Crédito: Cerny et al.Vizinha minúscula da Via Láctea funciona como cápsula do tempoCom base nos cálculos realizados pela equipe, a galáxia recém-descoberta está localizada a cerca de 359 mil anos-luz do centro da Via Láctea. O objeto é extremamente leve e aproximadamente 14 milhões de vezes menos brilhante do que a nossa galáxia. Cálculos estatísticos mostram que a chance de a descoberta ser apenas um erro dos aparelhos é quase nula, embora novas análises ainda devam ser feitas.O estudo dessas estruturas tão tênues é fundamental para entendermos do que o Universo é feito. Como a matéria escura compõe a maior parte de tudo o que existe no cosmos, analisar pequenas galáxias dominadas por ela ajuda a decifrá-la. Além disso, por conterem estrelas extremamente velhas, essas galáxias funcionam como cápsulas do tempo que mostram como eram os primeiros sistemas formados no Universo.O post Uma galáxia minúscula estava escondida no quintal da Via Láctea – e o Vera Rubin acaba de encontrá-la apareceu primeiro em Olhar Digital.