A renúncia de Keir Starmer, anunciada nesta segunda (22), do cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, marca uma profunda crise política dentro do país, que enfrenta, pelo menos há uma década, dilemas e contradições que pressionam o cargo de liderança mais alto da Câmara dos Comuns.Com a saída do atual primeiro-ministro, que será realizada gradualmente e que já foi informada ao Rei,o Reino Unido se prepara para ter seu sétimo primeiro-ministro desde o referendo do Brexit, realizado em 2016, consulta popular que determinou a saída britânica da União Europeia, desencadeou uma sequência de crises políticas, disputas partidárias, mudanças de liderança e eleições antecipadas que derrubaram sucessivamente governos conservadores e, agora, também um governo trabalhista. Ao todo, contando com David Cameron, tivemos mais cinco nomes: Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer. Para compreender como o país chegou a esse novo momento de transição, é necessário analisar os líderes que ocuparam o número 10 de Downing Street desde a renúncia de David Cameron, logo após a vitória do Brexit.Theresa May (13 de julho de 2016 – 24 de julho de 2019)A primeira-ministra britânica Theresa May se emociona e chora depois de anunciar sua renúncia.TOLGA AKMEN / AFPTheresa May era ministra do Interior desde 2010 e uma das figuras mais experientes do Partido Conservador. Após a renúncia de David Cameron, que deixou o cargo depois da vitória do Brexit no referendo de junho de 2016, May venceu a disputa interna do partido praticamente sem oposição e assumiu o governo com a missão de conduzir a saída britânica da União Europeia. Sua gestão foi dominada pelas negociações do Brexit, além de crises como os atentados terroristas de Manchester e Londres e o incêndio da Grenfell Tower.O maior impecílio à continuidade do governo May foi a incapacidade de aprovar no Parlamento o acordo de retirada negociado com a União Europeia. A obtenção desse apoio foi dificultada pela profunda divisão entre os defensores de um Brexit mais rígido e os partidários de uma saída negociada. O texto foi rejeitado diversas vezes pela Câmara dos Comuns, provocando uma grave crise política. Diante da crescente pressão dentro do Partido Conservador e sem conseguir avançar seu plano para o Brexit, May anunciou sua renúncia em 24 de maio de 2019. Em 7 de junho deixou oficialmente a liderança do partido e, em 24 de julho daquele ano, foi substituída por Boris Johnson no cargo de primeira-ministra.“Gostaria de agradecer ao povo britânico. Todos aqueles que amam nosso grande país, que trabalham duro por suas famílias e desejam que seus filhos e netos desfrutem de mais oportunidades do que eles tiveram. Obrigado por depositarem sua confiança em mim e me darem a oportunidade de servir. Este é um país de aspirações e oportunidades, e espero que todas as jovens que viram uma mulher como Primeira-Ministra agora saibam com certeza que não há limites para o que elas podem alcançar”.Boris Johnson (24 de julho de 2019 – 6 de setembro de 2022)Boris Johnson durante o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido.Andrew Parsons/i-ImagensBoris Johnson já era uma figura amplamente conhecida da política britânica por ter sido prefeito de Londres e um dos principais líderes da campanha pró-Brexit. Após a renúncia de Theresa May, venceu a eleição interna dos Conservadores prometendo concluir o Brexit como primeira ação do mandato. Em dezembro de 2019, conquistou uma ampla maioria parlamentar nas eleições gerais, permitindo a aprovação definitiva da saída britânica da União Europeia.Seu governo foi marcado pela pandemia da COVID-19, pela implementação do Brexit e pela guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022. Contudo, uma série de escândalos minou sua autoridade, especialmente o chamado “Partygate”, envolvendo festas em Downing Street durante os períodos de isolamento durante a Covid-19. Em 2022, dezenas de ministros e auxiliares renunciaram em protesto contra sua liderança, tornando sua permanência politicamente insustentável. Johnson anunciou sua saída em 07 de julho e permaneceu apenas como primeiro-ministro interino até a escolha de sua sucessora. O cargo foi assumido por Liz Truss.“É agora evidente que a vontade do Partido Conservador parlamentar é que haja um novo líder para esse partido e, portanto, um novo primeiro-ministro (…) obrigado por esse mandato incrível, a maior maioria Conservadora desde 1987, a maior porcentagem de votos desde 1979 (…)a razão pela qual lutei tanto nos últimos dias para continuar a cumprir esse mandato pessoalmente não foi apenas porque eu queria fazê-lo, mas porque senti que era meu trabalho, meu dever, minha obrigação para com vocês continuar a fazer o que prometemos em 2019”.Liz Truss (6 de setembro de 2022 – 25 de outubro de 2022)Liz Truss discursa em frente ao número 10 da Downing Street, em Londres, Grã-Bretanha, em 6 de setembro de 2022.Henry Nicholls/REUTERSLiz Truss construiu sua carreira ocupando diversos ministérios importantes nos governos conservadores, culminando no cargo de secretária de Relações Exteriores. Após a queda de Boris Johnson, venceu a disputa interna do Partido Conservador contra Rishi Sunak e assumiu o cargo de primeira-ministra em setembro de 2022. Sua principal proposta era impulsionar o crescimento econômico por meio de cortes de impostos, redução da regulamentação e aproveitamento das oportunidades abertas pelo Brexit.Os problemas surgiram poucas semanas após sua posse. O chamado “mini-orçamento” apresentado por seu governo provocou forte turbulência nos mercados financeiros, desvalorização da libra esterlina e aumento dos custos de financiamento da dívida pública. A crise gerou perda de confiança entre investidores, parlamentares conservadores e parte do próprio governo. Após apenas 50 dias no cargo, Truss anunciou sua renúncia em 20 de outubro de 2022, tornando-se a primeira-ministra com o mandato mais curto da história britânica. Seu sucessor foi Rishi Sunak, derrotado por ela na disputa interna realizada poucas semanas antes.“Apresentamos uma visão para uma economia de baixos impostos e alto crescimento que aproveitaria as liberdades do Brexit. Reconheço, porém, que, dada a situação, não posso cumprir o mandato pelo qual fui eleita pelo Partido Conservador. Portanto, conversei com Sua Majestade o Rei para notificá-lo de que estou renunciando à liderança do Partido Conservador.”Rishi Sunak (25 de outubro de 2022 – 5 de julho de 2024)Rishi Sunak fala com a imprensa ao sair do número 10 de Downing Street após a vitória esmagadora do Partido Trabalhista nas eleições de 5 de julho de 2024.Leon Neal / Getty ImagesRishi Sunak ganhou projeção nacional como ministro das Finanças do Reino Unido durante a pandemia da Covid-19, quando supervisionou programas de apoio econômico destinados a reduzir os impactos da crise. Após o fracasso do breve governo de Liz Truss, consolidou rapidamente apoio entre os parlamentares conservadores e assumiu o cargo de primeiro-ministro sem a realização de uma nova eleição geral. Seu principal objetivo era restaurar a confiança dos mercados e estabilizar a economia britânica.Embora tenha conseguido reduzir parte da turbulência financeira herdada de sua antecessora, enfrentou dificuldades relacionadas ao aumento do custo de vida, à imigração e ao desgaste acumulado após quatorze anos de governos conservadores. Nas eleições gerais de julho de 2024, os Conservadores sofreram uma derrota histórica para o Partido Trabalhista liderado por Keir Starmer. Após a confirmação do resultado, Sunak apresentou sua renúncia ao rei e deixou o cargo, encerrando o ciclo conservador iniciado em 2010.“Dediquei-me inteiramente a este trabalho, mas vocês enviaram um sinal claro de que o governo do Reino Unido precisa mudar, e o julgamento de vocês é o único que importa. Este é um dia difícil, o fim de uma série de dias difíceis. Ouvi a vossa raiva, a vossa disciplina, e assumo a responsabilidade por esta derrota perante todos os candidatos e militantes conservadores que trabalharam incansavelmente, mas sem sucesso.”Keir Starmer (5 de julho de 2024 – junho de 2026)Primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anuncia sua renúncia em frente em 22 de junho de 2026.Chris J. Ratcliffe—Getty ImagesKeir Starmer tornou-se líder do Partido Trabalhista em 2020 e trabalhou para reposicionar a legenda após a derrota sofrida sob Jeremy Corbyn. Em julho de 2024, conduziu os trabalhistas a uma vitória esmagadora nas eleições gerais, encerrando catorze anos de governos conservadores e retornando o partido ao poder.Seu governo buscou estabilizar a economia, reformar serviços públicos e recuperar a credibilidade internacional do Reino Unido. Contudo, enfrentou queda de popularidade, maus resultados eleitorais locais e crescente contestação dentro do próprio Partido Trabalhista. A fragilidade de Starmer no cargo se tornou mais visível após a vitória expressiva de Andy Burnham, principal figura de oposição, em uma eleição suplementar realizada na última semana, resultado que expressou a vontade dos parlamentares trabalhistas de realizar uma renovação na liderança do partido. Burnham, conhecido por sua capacidade de comunicação, é visto por aliados como um nome capaz de recuperar a popularidade da legenda diante do avanço do Reform UK, liderado por Nigel Farage. Em 22 de junho de 2026, anunciou sua renúncia após reconhecer que já não possuía apoio suficiente entre parlamentares e membros do governo, abrindo caminho para a escolha de um novo líder trabalhista. Starmer afirmou que o processo de escolha de um novo líder do Partido Trabalhista seria iniciado em julho e que ele permaneceria como primeiro-ministro até que seu sucessor fosse escolhido, o que levaria à posse em setembro. A decisão já foi comunicada ao rei, e Starmer pontuou que trabalhará para que a transição seja estável.“Todas as decisões que tomei foram pensando em colocar o país que amo em primeiro lugar. É por isso que renunciarei à liderança do Partido Trabalhista.”