O mal-estar no trabalho

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Em 1930, Freud publicou O Mal-Estar na Civilização, que segue sendo um dos textos mais atuais dele. Se você não leu, recomendo. Quase cem anos depois da publicação, percebo que seguimos tentando responder a mesma pergunta do texto: por que viver em sociedade produz tanto sofrimento?Há quase um século, ele já tinha uma hipótese. Para Freud, existem três grandes fontes de sofrimento psíquico: o corpo, que envelhece, adoece e insiste em nos lembrar que não é uma máquina; a natureza, que não controlamos; e as relações humanas. Para ele, esta última talvez fosse a mais complicada de todas.O outro nos frustra, nos decepciona, nos critica, nos rejeita. Compete com a gente, exige coisas e nós fazemos exatamente a mesma coisa com ele. O outro é onde nos constituímos e, em certa medida, onde nos destruímos também. E, se existe um lugar onde todas essas relações aparecem ao mesmo tempo e em alta concentração, esse lugar é o trabalho.No trabalho convivemos diariamente com pessoas que não escolhemos, que não têm necessariamente os mesmos valores que nós e que, em alguns casos, jamais convidaríamos para um almoço de domingo. Ainda assim, dependemos delas, somos avaliados por elas, precisamos cooperar com elas e, por vezes, competir com elas.Para que tudo isso funcione de forma minimamente harmoniosa, precisamos controlar impulsos, administrar frustrações, medir palavras, sustentar relações difíceis e participar de reuniões em dias nos quais gostaríamos apenas de fechar o notebook e desaparecer. Um job dentro do job.Mas se o trabalho é um espaço privilegiado de encontro com o outro, vale lembrar que a cultura organizacional exerce um papel importante na forma como essas relações serão vividas.Organizações que estimulam rivalidades excessivas, ambiguidade, isolamento, competição predatória ou relações marcadas pelo medo tendem a intensificar um mal-estar que já faz parte da experiência humana. Por outro lado, culturas que favorecem cooperação, reconhecimento, diálogo e segurança para lidar com conflitos podem tornar essa convivência bem mais sustentável.O mal-estar não desaparece completamente, claro, e nem deveríamos ter essa expectativa. Freud provavelmente desconfiaria bastante de qualquer promessa de felicidade plena no trabalho. Mas a forma como uma organização estrutura suas relações pode aumentar ou reduzir significativamente a intensidade desse sofrimento.Se o trabalho é um dos lugares onde o mal-estar da vida em sociedade se manifesta com mais força, a cultura organizacional também pode ser uma das principais ferramentas para evitar que ele se transforme em adoecimento.Sartre dizia que “o inferno são os outros”. Mas vale lembrar que somos sempre o outro de alguém. E, convenhamos, muitas vezes estamos bem longe de sermos os alecrins dourados da história.