Formados em ciência da computação agora têm mais chance de estar desempregados do que formados em humanidades. Releia essa frase.A taxa de desemprego entre formados em ciência da computação nos Estados Unidos chegou a 6,1%. Em engenharia da computação, 7,5%. O curso que era sinônimo de “garantia de futuro” agora tem desemprego maior do que letras e filosofia.Essa é talvez a descoberta mais contraintuitiva de tudo que pesquisei para esta coluna, e é a que mais deveria tirar o sono de quem me lê.Quem a IA mira de verdadeUm estudo da Anthropic sobre o impacto real da inteligência artificial no mercado de trabalho revelou que os profissionais mais expostos à automação são: mulheres, acima de 40 anos, com ensino superior e salários mais altos. Não é quem trabalha no chão de fábrica. É quem está no escritório climatizado achando que está protegido.Programadores têm 75% das tarefas já cobertas por IA. Profissionais com pós-graduação são quatro vezes mais expostos do que trabalhadores de baixa qualificação. A narrativa de que “a IA vai substituir os trabalhos braçais e os trabalhos intelectuais estão seguros” é uma mentira reconfortante que precisa morrer agora.A geração que já nasceu sem chãoSe o cenário geral é grave, para os jovens é catastrófico. E uso essa palavra com todo o peso que ela carrega.Vagas de desenvolvedor júnior — aquele primeiro emprego que formava a base da carreira em tecnologia — caíram 67% desde 2022O emprego de desenvolvedores de software na faixa de 22 a 25 anos caiu quase 20%As Big Four — as quatro maiores firmas de auditoria e consultoria dos Estados Unidos — reduziram em 44% as vagas de programas para recém-formadosAs matrículas em ciência da computação caíram 11,2% no ano letivo 2025-202654% dos líderes de engenharia declararam que planejam contratar menos juniores por causa da IAA porta de entrada da profissão está sendo emparedada. E os estudantes já entenderam antes dos pais: o diploma que era passaporte virou papel. O abismo entre quem tem e quem não tem diploma encolheu. A diferença na taxa de desemprego era de mais de 8 pontos percentuais. Hoje é de aproximadamente 1 ponto. O diploma deixou de ser escudo.Na minha mesa, isso já aconteceuEu vivo a prova do que escrevo. Na Tributo Devido, meu plano original para 2026 era chegar a 100 colaboradores. Voltei das férias no final de 2025, olhei para o que a inteligência artificial fazia naquele exato momento — não no futuro — e reescrevi tudo. Primeiro reduzi para 50. Depois para 30.Hoje opero com 27 pessoas e entrego mais do que entregaria com o triplo desse time. Cada uma das 27 é extraordinária e indispensável. Mas as outras 73 vagas que existiriam num mundo sem IA? Não existem mais. Não foram congeladas. Não estão em espera. Foram eliminadas pela raiz.E se eu — um CEO que opera no 0,04% mais avançado de uso de IA, no ambiente tributário mais complexo do mundo, onde 99% do código é escrito por inteligência artificial — cortei 73% do quadro que planejava ter, imagine o que vai acontecer nas empresas que ainda estão acordando para essa realidade.E o Brasil?Tudo que descrevi até aqui usa dados dos Estados Unidos e da Europa. Países com redes de proteção social, seguro-desemprego robusto, sistemas de retreinamento profissional. Agora pense no Brasil. Um país onde 38 milhões de pessoas trabalham na informalidade. Onde a CLT é o único colchão entre o trabalhador e o abismo. Onde a maioria dos cursos universitários ensina o que era relevante há dez anos.Não temos fundo de riqueza pública. Não temos projetos-piloto de renda básica. Não temos sequer um diagnóstico oficial do impacto da IA no mercado de trabalho brasileiro. Voamos às cegas numa tempestade que os americanos e europeus pelo menos tentam mapear.O que fazer com issoNão vou terminar com falsa esperança. A verdade é mais dura e precisa ser dita sem anestesia.Se você é jovem e entra no mercado: esqueça o plano que fizeram para você. Diploma não é escudo. Especialização em uma única ferramenta não é estratégia. Sua vantagem é aprender mais rápido do que a máquina evolui. Quem se define pelo que sabe vai ser substituído. Quem se define pela velocidade com que aprende vai sobreviver.Se você é profissional experiente, acima de 40, com diploma e cargo: você é o perfil mais exposto. Não o menos. Aceitar isso é o primeiro passo. O segundo é parar de terceirizar inovação para o estagiário ou para o “pessoal de TI” e colocar as mãos na massa. A IA não respeita hierarquia, tempo de casa ou currículo. Respeita quem a usa.O terremoto não avisa. Só derruba.Referências: Anthropic Research, “Labor Market Impacts of AI: A New Measure and Early Evidence” (março de 2026); Stack Overflow Developer Survey 2025; dados de matrícula: CRA Taulbee Survey 2025-2026; Big Four, relatórios de recrutamento 2025-2026; LinkedIn Workforce Report, vagas entry-level Q1 2026; IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (informalidade).