Ansiedade, distração e más notas: o preço da infância hiperconectada

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Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), 70% das crianças até aos 10 anos já possuem um smartphone. Aos 15 anos, essa percentagem sobe para 98%. A utilização intensiva de dispositivos digitais começa cada vez mais cedo e prolonga-se ao longo do dia: mais de 80% das crianças passam pelo menos uma hora diária em frente a ecrãs, enquanto quase 20% ultrapassam as cinco horas durante os fins de semana.Os efeitos desta realidade já são visíveis. De acordo com o Observatório de Hábitos Digitais em Menores da SaveFamily, 53,3% das crianças e adolescentes afirmam sentir ansiedade ou stress quando o acesso ao telemóvel é limitado.A nova proposta britânica prevê mecanismos obrigatórios de verificação de idade para impedir que menores de 16 anos utilizem plataformas como TikTok, Instagram, Facebook, Snapchat, YouTube ou X. O Governo admite ainda a introdução de limites de utilização e outras restrições destinadas a proteger o bem-estar digital dos mais jovens.A medida acompanha uma tendência internacional crescente. A Austrália já implementou restrições semelhantes, enquanto França e Itália reforçaram limitações ao uso de telemóveis e redes sociais em contexto escolar.Impacto no rendimento escolarEspecialistas e famílias alertam para as consequências do uso excessivo das redes sociais no desenvolvimento infantil. Entre os efeitos mais frequentemente apontados encontram-se dificuldades de concentração, irritabilidade e menor capacidade para lidar com a frustração.No plano académico, quase 38% das famílias inquiridas associam o uso de smartphones e redes sociais a uma deterioração do rendimento escolar.«Os números confirmam algo que vemos todos os dias: os menores acedem demasiado cedo a ambientes para os quais não estão emocionalmente preparados. Não se trata apenas do tempo que passam ligados, mas da forma como utilizam a tecnologia», afirma Jorge Álvarez, CEO da SaveFamily.O responsável considera que o problema não está na tecnologia em si, mas na ausência de regras claras e de uma introdução gradual ao mundo digital. «Quando o telemóvel e as redes sociais entram em cena, a atenção fragmenta-se e a aprendizagem ressente-se. É fundamental promover a literacia digital e adaptar o acesso à tecnologia à idade de cada criança», acrescenta.Portugal debate limitaçõesEm Portugal, o tema também está na agenda política. O Governo já avançou com limitações ao uso de telemóveis em ambiente escolar e tem sido discutida a possibilidade de restringir o acesso às redes sociais a menores de 16 anos.A decisão britânica poderá, por isso, reforçar o debate nacional sobre os riscos associados à utilização precoce destas plataformas, frequentemente concebidas para maximizar o tempo de permanência e a interação dos utilizadores.Cresce procura por relógios inteligentesPerante as preocupações relacionadas com o uso de smartphones, muitas famílias procuram alternativas que permitam manter o contacto com os filhos sem lhes dar acesso pleno às redes sociais.Segundo a SaveFamily, a procura por relógios inteligentes para crianças aumentou cerca de 40% nos últimos anos. Estes dispositivos permitem efetuar chamadas, partilhar localização em tempo real e acionar funções de emergência, mas limitam o acesso à internet e às redes sociais.Os modelos mais recentes incluem ainda ferramentas educativas, sistemas de inteligência artificial adaptados a menores e modos específicos para evitar distrações durante o período escolar.«Os relógios inteligentes permitem uma entrada gradual no mundo digital. A criança familiariza-se com a tecnologia num ambiente controlado e educativo, sem a pressão constante das redes sociais», refere Jorge Álvarez.Os especialistas em psicologia infantil defendem que o adiamento da entrega do primeiro smartphone pode trazer benefícios ao nível da concentração, da socialização presencial e da autonomia. Além disso, reduz o risco de o telemóvel se transformar num mecanismo de regulação emocional.Os dados da SaveFamily reforçam essa preocupação: mais de metade dos menores admite sentir ansiedade quando o acesso ao telemóvel é restringido, um sinal que os especialistas consideram preocupante.A conclusão é partilhada por vários especialistas: o acesso precoce e sem supervisão às redes sociais pode representar riscos significativos para o desenvolvimento infantil. Para além da regulação, defendem, será necessário apostar na educação digital e numa utilização progressiva da tecnologia, ajustada às diferentes etapas do crescimento.O conteúdo Ansiedade, distração e más notas: o preço da infância hiperconectada aparece primeiro em Revista Líder.