“Não via esse desconto desde Dilma”: analista vê oportunidade rara na bolsa brasileira

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Entre abril e o início de junho, o Ibovespa (IBOV) registrou a maior sequência de quedas semanais desde a criação do Plano Real, em 1994. A queda acumulada de quase 15%, provocada pela saída de capital estrangeiro, abriu uma nova janela de oportunidade na bolsa brasileira, na avaliação de Victor Bueno, sócio e analista de Equity Research na Nord Investimentos. “De uma forma geral, a correção de oito semanas trouxe uma maior atratividade para o Ibovespa. Essa realização abriu um espaço para algumas empresas que estavam sendo negociadas a valor justo”, afirmou Bueno, em entrevista ao Money Times. Nas contas do analista, o Ibovespa voltou a negociar a um múltiplo de preço sobre lucro (P/L) próximo de 9 vezes o lucro projetado das empresas, patamar considerado atrativo. Ainda assim, ele não recomenda uma exposição ampla ao índice por meio de ETFs, já que alguns setores seguem precificados de forma adequada ou até esticada.“Não recomendamos a compra de ETFs ligados ao Ibovespa, porque ainda existem alguns setores que continuam bem precificados, mesmo depois da correção”, disse.Para ele, porém, as oportunidades de investimento estão fora do principal índice acionário: nas small caps. O índice SMLL acumula queda de 8% desde janeiro, contra uma valorização do IBOV de 4,5%. Vale lembrar que, em abril, a diferença entre SMLL e IBOV atingiu o maior patamar em mais de 20 anos, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. “Fazia muito tempo que eu não via uma janela de oportunidades em termos de valuation tão relevante, tão escancarada, principalmente para as small caps“, afirmou o analista da Nord Investimentos. “A gente não via esse desconto desde a época da crise do governo Dilma, no pré-impeachment”, acrescentou. Segundo Bueno, as empresas de menor capitalização não se beneficiaram da entrada de capital estrangeiro registrada no início do ano. “O gringo não compra a bolsa, ele compra o EWZ, que é um ETF que replica algumas empresas que estão dentro do Ibovespa, mas não são todas. Então, ele vai comprar basicamente Petrobras (PETR4), Vale (VALE3), grandes bancos e empresas de energia”, explicou. Victor Bueno, sócio e analista de Equity Research na Nord Investimentos (Foto: Divulgação/Nord Investimentos)‘Tempestade perfeita’ no radarApesar de avaliar que a bolsa brasileira – e não apenas o Ibovespa – voltou a ficar atrativa, Bueno considera que o cenário ainda exige cautela diante de uma combinação de riscos domésticos e externos, o que criou uma “tempestade perfeita” para a renda variável nos últimos meses.Na visão do analista da Nord Investimentos, as incertezas fiscais e econômicas, a proximidade das eleições presidenciais e as tensões geopolíticas continuam pressionando os mercados.“A gente tem um cenário de riscos ainda elevados na política fiscal e econômica. Além disso, esse é um ano de eleição, o que gera muitas incertezas”, afirmou. Para ele, porém, o cenário eleitoral ainda não está precificado na bolsa brasileira e o tema só deve ganhar força a partir de agosto, com a definição das candidaturas.“Eleições ainda não são um assunto tão forte. Existem muitos outros assuntos acontecendo que estão fazendo mais preço”, afirmou. “A partir de agosto a gente vai começar a ver esse assunto cada vez mais quente.”Do lado externo, Bueno destaca que os conflitos no Oriente Médio elevaram os preços do petróleo e reacenderam as preocupações com a inflação global, reduzindo as expectativas de cortes de juros – cenário que não deve se reverter no curto prazo com o acordo de paz entre Estados Unidos e Irã anunciado no início desta semana. “Isso gera uma pressão de custos, gera inflação, gera um sentimento de juros mais elevados por mais tempo”, disse o analista, em entrevista ao Money Times. Onde investir na bolsa agoraNa visão do analista da Nord Investimentos, as melhores oportunidades na bolsa estão concentradas nas empresas de menor capitalização, principalmente nos setores mais ligados à economia doméstica, como construção civil.“O setor de incorporação é o mais ‘machucado’ na bolsa brasileira hoje”, afirmou. O segmento, segundo ele, foi um dos mais penalizados pelos custos de construção.Segundo ele, o setor vem sofrendo tanto com a alta dos custos da construção civil — pressionados pelo aumento do petróleo e pelo encarecimento de fretes, logística e insumos — quanto com a preocupação do mercado em relação aos possíveis impactos do fim da escala 6×1.Ainda assim, Bueno avalia que algumas companhias do segmento permanecem bem posicionadas. “Existem grandes oportunidades nesse mercado, empresas que continuam com muitas perspectivas positivas de continuarem entregando bons resultados, apesar de um cenário mais desafiador”, disse.Por outro lado, embora esteja negociando a preços descontados, o setor de varejo permanece bastante sensível ao ambiente macroeconômico.“O varejo tem que tomar um pouco de cuidado. Apesar de barato, acaba sendo muito mais sensível ao cenário de juros e ao cenário de inflação”, disse o analista da Nord. Bueno também vê menos espaço para ganhos nos setores de energia e petróleo, que, na sua avaliação, continuam relativamente bem precificados mesmo após a correção recente. “O setor de energia é um setor muito difícil de encontrar boas oportunidades no momento”, afirmou.