Multipropriedade aposta em educação do consumidor para sustentar nova fase de crescimento no Brasil

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Durante anos, a multipropriedade cresceu impulsionada pelo avanço do turismo imobiliário no Brasil. Agora, a indústria vive um novo desafio: convencer o público de que seu principal produto não é um imóvel, mas uma forma diferente de planejar viagens e férias ao longo da vida.A mudança de percepção é considerada fundamental para sustentar o crescimento dos próximos anos. Embora a modalidade esteja presente em dezenas de destinos brasileiros, ainda é comum que potenciais compradores associem o conceito à aquisição de uma segunda residência, interpretação que, segundo empresas da área, não traduz a proposta do modelo.Os números mostram que o mercado continua em expansão. Levantamento da consultoria Caio Calfat Real Estate Consulting, apresentado durante o ADIT Share 2025, aponta que a indústria brasileira de multipropriedade alcançou R$ 92,7 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) potencial, crescimento de 16,6% em relação ao ano anterior. Hoje, o país reúne 216 empreendimentos distribuídos por 97 cidades de 18 estados.Apesar dos resultados, a compreensão sobre o sistema ainda varia bastante entre as regiões. Em destinos tradicionais, como Caldas Novas (GO), reconhecida como o berço da multipropriedade no país, o conceito já está incorporado à realidade dos viajantes. Em mercados mais recentes, porém, boa parte do trabalho continua sendo explicar como funciona o uso compartilhado e quais são seus diferenciais.“Muitas pessoas chegam imaginando que estamos falando da compra de um imóvel convencional. Quando entendem que o foco está na experiência de férias, na previsibilidade e no uso ao longo do tempo, a percepção muda completamente”, afirma Guilherme Cardoso, diretor da WAM.Segundo o executivo, a transformação também está ligada às mudanças de comportamento observadas entre os consumidores. A valorização das experiências, somada à busca por maior organização financeira, tem levado muitas famílias a repensar a forma como utilizam seu orçamento destinado ao lazer.Nesse cenário, a frequência das viagens tornou-se um dos principais indicadores analisados pelas empresas. A recorrência de determinados destinos, os hábitos de consumo e os gastos acumulados ao longo dos anos ajudam a identificar perfis mais aderentes ao modelo.A lógica é relativamente simples. Em vez de repetir despesas anuais com hospedagem, o cliente passa a contar com períodos de utilização previamente definidos e acesso a uma rede de destinos que pode ser utilizada conforme sua disponibilidade. E , ainda existe a possibilidade de troca de datas ou localidades por meio de programas de intercâmbio ou monetização.“O que observamos é que muitos clientes já possuem um padrão recorrente de viagens. Quando percebem quanto investem ao longo dos anos em hospedagens e entendem as possibilidades de utilização do sistema, passam a enxergar esse formato sob outra perspectiva”, explica Cardoso.Ao mesmo tempo, a tecnologia começa a assumir papel cada vez mais estratégico dentro das operações. Ferramentas de inteligência artificial vêm sendo utilizadas para analisar hábitos de viagem, compreender padrões de comportamento e tornar o relacionamento com os clientes mais personalizado.Na WAM, essas soluções já fazem parte dos processos de qualificação comercial e atendimento. Os sistemas ajudam a identificar perfis com maior potencial de aderência ao produto, além de apoiar atividades como reservas, agendamentos e suporte ao cliente.“O turismo continua sendo um negócio de relacionamento. A tecnologia não substitui as pessoas, mas nos ajuda a entender melhor o viajante e a oferecer soluções mais alinhadas ao seu perfil”, afirma.A busca por personalização acompanha uma transformação mais ampla observada em toda a cadeia turística. Com consumidores mais exigentes e uma oferta crescente de destinos, compreender hábitos e preferências tornou-se um diferencial competitivo tão importante quanto localização ou infraestrutura.O fortalecimento do turismo doméstico também contribui para esse movimento. Nos últimos anos, diferentes regiões brasileiras passaram a atrair investimentos voltados para hotelaria, entretenimento e lazer, ampliando a oferta de atrações para os viajantes.Na avaliação de profissionais do segmento, a propriedade compartilhada tem desempenhado papel relevante nesse processo ao criar uma base recorrente de visitantes para determinados destinos. Além da ocupação dos empreendimentos, o modelo contribui para movimentar restaurantes, comércio, atrações turísticas e diversos serviços ligados à economia local.Atualmente, a WAM administra 10 resorts e hotéis, 4 Parks, e mantém 19 salas de vendas distribuídas em sete estados e reúne mais de 65 mil proprietários. Ao longo de um ano, aproximadamente 2 milhões de hóspedes passam por seus empreendimentos.Nos próximos cinco anos, a meta da WAM é novos resorts para que os clientes da base tenham mais opções de destinos, além de ampliar sua atuação em áreas como gestão condominial, gestão de carteira, Pós-vendas, administração e operação de empreendimentos turísticos.Paralelamente, a companhia trabalha no desenvolvimento de uma nova solução voltada ao mercado de férias, prevista para chegar ao público ainda em 2026. A proposta busca reunir características da hotelaria, do direito de uso e de outros formatos já existentes, acompanhando as transformações observadas no comportamento dos viajantes.Para os executivos da área, a próxima etapa de crescimento dependerá menos da construção de novos projetos e mais da capacidade de tornar o conceito compreensível para o consumidor.Em um ambiente cada vez mais competitivo, a disputa deixa de acontecer apenas entre destinos. Ela passa a envolver flexibilidade, conveniência, tecnologia e a capacidade de transformar as férias em parte de um planejamento de longo prazo. Mais do que vender um imóvel, o desafio agora é mostrar ao público que o verdadeiro produto é o tempo dedicado ao lazer.