O fortalecimento do dólar global deve pressionar mercados emergentes, incluindo a América Latina, mas o Brasil pode apresentar maior resiliência relativa em meio ao cenário de aperto das condições financeiras internacionais, segundo análise do estrategista David Beker e equipe, do Bank of America (BofA). Em relatório divulgado nesta quarta-feira (24), o banco aponta que os riscos de apreciação da moeda norte-americana estão aumentando diante da expectativa de juros mais altos nos Estados Unidos. A instituição projeta alta de 0,75 ponto percentual nas taxas em 2026, acima do que o mercado precifica atualmente. Cabe ressaltar que o dólar ultrapassou os R$ 5,20 nesta quarta, seguindo o movimento de alta global da divisa americana. De acordo com o BofA, períodos de fortalecimento do dólar costumam coincidir com desempenho mais fraco de ativos de mercados emergentes. Desde 2002, ações desses países tiveram queda média de cerca de 9% ao ano, em dólares, durante ciclos de alta do DXY (índice que mede a força do dólar). Na América Latina, o efeito é similar ou até mais intenso. Historicamente, as bolsas da região recuaram cerca de 10% ao ano em momentos de dólar forte, refletindo tanto a saída de capital quanto a pressão sobre moedas locais. Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai com petroleiras e VALE3Bolsas dos EUA avançam, enquanto barris de petróleo caem 3%O movimento oposto também é verdadeiro: quando o dólar enfraquece, os mercados emergentes tendem a registrar fortes ganhos, com retornos médios superiores a 50% ao ano, segundo o banco. Fluxos podem ser mais resilientes, mas atenção a commoditiesApesar do histórico negativo, o BofA destaca que os fluxos de investimento para emergentes podem se mostrar mais resilientes do que o mercado costuma assumir.Dados do banco indicam que, em cinco dos últimos sete episódios de fortalecimento do dólar, houve aumento de aportes para mercados emergentes — padrão que também se repetiu na América Latina. Esse comportamento sugere que fatores estruturais, como posicionamento global e busca por retornos, podem suavizar o impacto negativo de um dólar mais forte sobre os fluxos de capital.Um dos canais mais relevantes de transmissão do dólar forte para a América Latina é o mercado de commodities, setor central para várias economias da região.Historicamente, a valorização da moeda americana tende a pressionar preços de petróleo, minério de ferro e cobre, o que afeta exportadores e empresas ligadas a esses segmentos.Ainda assim, o BofA ressalta que o cenário atual pode trazer um amortecedor parcial, especialmente no caso do petróleo, em função de choques recentes de oferta global que ajudam a sustentar os preços da commodity. Dentro da América Latina, o Brasil surge como um dos países mais preparados para lidar com um ambiente de dólar forte, segundo o banco.Um dos principais fatores é o elevado diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. A diferença entre a Selic e a taxa do Federal Reserve está próxima de máximas em duas décadas, o que tende a sustentar o real e atrair investidores estrangeiros (em estratégia conhecida como “carry trade”).Além disso, o banco destaca que a dívida pública brasileira é majoritariamente denominada em moeda local, o que reduz a vulnerabilidade direta a movimentos cambiais adversos. Câmbio e inflação no radarMesmo com essa proteção relativa, o câmbio continua sendo um ponto sensível. A equipe de estratégia do BofA estima que uma depreciação de 10% do real pode gerar impacto próximo de 1 ponto percentual na inflação acumulada em 12 meses.Já a combinação de juros elevados e fluxo de capital pode ajudar a limitar essa pressão, contribuindo para uma maior estabilidade da moeda brasileira em comparação a outros emergentes.Exportadoras ganhamEm termos de estratégia de investimento, o banco aponta que empresas exportadoras são as principais beneficiadas em um cenário de dólar forte, já que receitas em moeda estrangeira ganham valor quando convertidas para moedas locais.Entre os nomes destacados com maior sensibilidade ao câmbio estão companhias brasileiras como Vale (VALE3), JBS (BDR: JBSS32) e siderúrgicas como Gerdau (GGBR4) e CSN (CSNA3), além de empresas ligadas ao agronegócio, como SLC Agrícola (SLCE3). O relatório também destaca oportunidades em alguns segmentos específicos no México, como o setor imobiliário, que pode se beneficiar do movimento cambial.Apesar do cenário externo mais desafiador, o BofA avalia que o Banco Central do Brasil pode ter menos necessidade de elevar os juros. Isso ocorre justamente por conta do elevado nível atual da Selic e do diferencial frente aos juros americanos, que já funciona como uma espécie de “amortecedor” contra choques externos. Ainda assim, o banco observa que o custo de financiar a dívida pública permanece como risco relevante, já que a maior parte do estoque está atrelada a taxas flutuantes, como a própria Selic.The post Dólar forte ameaça ações de emergentes, mas Brasil pode resistir melhor, diz BofA appeared first on InfoMoney.