Reunião do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex) nesta terça-feira (23) decidiu por renovar as cotas de importação de carros elétricos e híbridos desmontados. Entidades da indústria automotiva vinham tentando barrar a medida. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) acusa o governo de quebrar as regras de previsibilidade do setor.A decisão do Camex libera novas cotas para importação com imposto zero para veículos eletrificados desmontados (CKD) e semi desmontados (SKD) e entra em vigor em julho. Interlocutores dizem que a maior beneficiada pela medida será a BYD, que hoje mantém operação de montagem de carros por meio de kits SKD (carros semidesmontados) na fábrica de Camaçari (BA).A BYD ainda não comentou sobre a decisão do Gecex.A liberação estabelece um teto de US$ 463 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões) para que as fabricantes importem dos kits com alíquota zero. Esse volume financeiro é idêntico ao que vigorou entre agosto do ano passado e janeiro deste ano.Esquema mostra como é um kit SKD da BYD, em documento enviado ao governoMDIC/Reprodução Continua após a publicidadePara as marcas que ultrapassarem essa cota, o cronograma original de elevação tarifária segue valendo. O imposto de importação sobe para 35% no caso dos kits SKD já em julho e atinge o mesmo patamar para os veículos CKD em janeiro do próximo ano. Até o fim do ano, os kits CKD que excederem o limite imposto continuam recolhendo a tarifa de 14%.Por outro lado, a importação de carros montados não teve o benefício renovado. Para esses veículos, a tarifa cheia de 35% passa a ser cobrada a partir de 1º de julho, conforme era previsto. Isso tende a encarecer carros elétricos e híbridos importados após o fim dos estoques atuais, forçando a estratégia de montagem local. A GWM já fala que os Haval H6 montados no Brasil terão custo mais baixo do que os importados da China.O fator Camaçari e a estratégia chinesaA prorrogação da cota dá fôlego logístico e financeiro para a BYD. A fabricante chinesa argumentou, por meio de seu vice-presidente Alexandre Baldy, que o prazo adicional de seis meses já estava previamente alinhado com o governo. Continua após a publicidadeFábrica da BYD em Camaçari (BA)Mauro Balhessa/Quatro RodasA justificativa da marca é a necessidade de tempo hábil para concluir as etapas de estamparia, pintura e soldagem na fábrica de Camaçari (BA), com inauguração de novas fases da planta prometida para o segundo semestre.Com a importação de kits de caros desmontados para serem finalizados no Brasil, a fabricante consegue importar seus carros em contêiners convencionais em vez depender de navios específicos para o transporte de automóveis. Continua após a publicidadeFabricantes já instaladas no Brasil, que investem na nacionalização plena, alegam falta de previsibilidade por parte do Governo Federal. A decisão consolida uma vantagem temporária para quem aposta na montagem de kits importados em detrimento da produção local com fornecedores nacionais.Indústria nacional fala em judicializaçãoA Anfavea divulgou uma nota afirmando que a alteração foi intempestiva e tomada sem consulta ao setor produtivo. Na visão da entidade, o prolongamento do benefício altera a política de transição que havia sido pactuada no fim do ano passado e reduz os incentivos para a atração de fornecedores locais de autopeças.O nível de insatisfação chegou ao ponto de o presidente da associação, Igor Calvet, afirmar, um dia antes da decisão oficial do Gecex, que a entidade estuda ir à Justiça contra a criação das novas cotas. A associação defende que a mudança repentina de rumo coloca em risco a viabilidade de parte dos R$ 140 bilhões em investimentos prometidos pela indústria automotiva até 2033. Continua após a publicidadeDe um lado, o governo tenta garantir a implantação das fábricas asiáticas com alívios fiscais temporários. Do outro, as fabricantes já estabelecidas exigem a aplicação rigorosa do imposto para forçar a nacionalização imediata, evitando que o país sustente a montagem de componentes externos sem adensamento tecnológico local.A produção nacional de veículos eletrificados já vinha respondendo aos estímulos iniciais da nova política, representando 25,9% das vendas do segmento em 2025. No acumulado até maio deste ano, o mercado atendido por eletrificados produzidos no Brasil cresceu 57% na comparação com o mesmo período do ano passado. Publicidade