No entanto, por detrás destes resultados esconde-se um dos maiores desafios de liderança que Portugal enfrenta: quem vai assegurar a gestão das explorações agrícolas, produzir alimentos e gerir a floresta nas próximas décadas?A idade média da mão-de-obra familiar agrícola passou de 46 para 59 anos em três décadas e apenas 12% dos gestores agrícolas da União Europeia têm menos de 40 anos. A renovação geracional deixou de ser um tema setorial para se tornar uma questão estratégica para a competitividade, a segurança alimentar e o desenvolvimento económico do país.É precisamente esta reflexão que esteve no centro do B-Rural Summit, promovido pela CONSULAI, a 23 de junho, em Lisboa. Falámos com Rui Almeida, Diretor Operacional, Sócio-Gerente e Diretor da Área de Marketing e Comunicação da CONSULAI, sobre por que razão a agricultura precisa de uma nova geração de líderes e não apenas de novos agricultores, sobre como um dos setores mais tecnológicos da economia continua a enfrentar um défice de atração de talento, e sobre o que está verdadeiramente em jogo se Portugal não agir. Olhando para a agricultura hoje, que já tem drones, dados e automação, por que persiste ainda a ideia de que é um setor tradicional?É uma questão muito importante e nós achamos que tem muito a ver com a percepção. Existe ainda uma percepção de que a agricultura é um setor muito tradicional, mas isso acaba por não ser verdade. E existem várias razões que explicam este desfasamento.No fundo, se dissermos que praticamente três quartos do nosso território — estamos a falar do território rural — estão ocupados por agricultura e por floresta, e depois sabemos que setenta por cento da nossa população vive nas grandes cidades, existe aqui um desfasamento claro sobre o que acontece no território. E há também uma questão geracional. O meu avô tinha uma quinta no Norte e eu no verão ia lá sempre passar as férias, quase que obrigado, por vezes, mas eu até gostava.Ia-se à terrinha, era a expressão que havia. Depois, entretanto, os avós morreram, a casa foi vendida e as minhas filhas já perderam essa ligação. E isto acontece com muita gente. Esta ligação à terra, dos avós, perdeu-se. As pessoas vivem muito nas grandes cidades, são todos os dias desafiadas com coisas novas e o setor agrícola e florestal ficou esquecido.Mas também ficou esquecido por culpa do próprio setor.O setor não soube comunicar?Exatamente. Houve ali um hiato de tempo em que o setor deixou de comunicar. E isso criou este afastamento e esta percepção de que a agricultura ainda é feita de enxadas, como os nossos avós a faziam. Sabendo que isso, atualmente, não é verdade de todo.A agricultura é uma agricultura muito moderna. Aliás, no B-Rural tínhamos um claim logo ao início que era bastante direto: «A agricultura evoluiu, só você é que não viu.» Era um bocadinho de choque, não é? Era mesmo para ir de frente. Porque foi isso que aconteceu: a agricultura evoluiu muito, só que não se viu por alguma culpa do recetor da mensagem, mas também por grande culpa do emissor, que era o próprio setor.Estamos então a falar de um rebranding profundo, para tornar o setor mais apelativo, à semelhança do que aconteceu com outros setores tecnológicos?Eu diria que o setor precisa de contar a sua história. É uma história de evolução brutal nos últimos anos. Quando digo brutal, é mesmo uma revolução tecnológica, uma revolução digital. Historicamente, a agricultura é sempre o setor que mais demora a absorver novas tecnologias. Foi assim com a internet, foi assim com tudo. Demorou um bocadinho, mas agora está num ritmo estonteante: com sensorização, com drones, com tratores autónomos, com robotização, com inteligência artificial, com algoritmos preditivos. É uma loucura, atualmente. Só que isto ainda não está a ser transmitido.Foi para isso que surgiu a iniciativa B-Rural. Nós, na CONSULAI, somos uma empresa de consultoria agrícola, agroindustrial e florestal, e sentimos que devíamos devolver algo ao setor que tanto nos dá. Fomos desafiados pelas principais associações e confederações – «vocês deviam iniciar uma campanha destas» -, e, com o seu patrocínio, começámos este trabalho há três anos, a tentar desmistificar os mitos existentes e a contar a história do nosso setor, mostrando como ele é atrativo para as novas gerações, que é quem queremos captar.Os salários têm vindo a crescer acima da média da economia no setor. Isso já é, por si só, um argumento suficiente para atrair a nova geração?Os salários têm vindo a aumentar a uma taxa bastante superior à de outros setores de atividade. É uma realidade. Muito também pela formação, pois as pessoas jovens e formadas que têm vindo para o setor elevam o patamar. Mas também porque as empresas se tornaram muito mais profissionais, muito mais competitivas. A partir do momento em que começamos a trabalhar numa componente mais digital, atraímos outros perfis de profissionais que, naturalmente, exigem outro tipo de remuneração. A média salarial tem aumentado bastante no setor agrícola, e isso a uma taxa superior à dos outros setores.Com apenas 12% dos gestores agrícolas da União Europeia abaixo dos 40 anos, a articulação com as instituições académicas parece fundamental. O setor está a trabalhar nessa frente?Esse é precisamente o problema da renovação geracional. E importa deixar clara a mensagem que queremos passar: não estamos apenas a querer substituir quem sai. O que queremos mostrar é que o nosso setor é atrativo para as novas gerações e a pergunta que surge sempre é: «Atrativo para quem?»Não é só para engenheiros agrónomos, engenheiros alimentares ou engenheiros florestais. A exigência atual, pela diversidade que temos, passa por captar analistas de dados, gestores, engenheiros aeroespaciais – que já temos a trabalhar em muitas explorações agrícolas -, engenheiros mecânicos, profissionais de comunicação e de marketing. Toda esta gente é agora necessária. Quando falamos de renovação geracional, falamos disto.Neste momento, os jovens estão a fazer os exames nacionais e a escolher as suas universidades. Estamos a trabalhar para que numa das cruzinhas possam pôr o setor da agronomia, florestal ou alimentar. Mas também queremos atrair quem já acabou o curso de gestão, de marketing, de comunicação, de engenharia de dados. E estamos a dizer-lhes: atenção, não só há espaço, como nós precisamos de vocês. E, como disse, com uma remuneração já muito mais atualizada.Que competências vão definir o líder agrícola do futuro? Mais engenharia, mais tecnologia, mais gestão, ou a combinação de tudo?Vai ser a combinação de tudo. Hoje já temos um setor onde cerca de metade dos agricultores têm mais de sessenta e cinco anos. Mas o futuro vai ser o inverso disso. Vamos ter profissionais mais qualificados, mais tecnológicos, mais orientados para a gestão e competitividade das empresas e integrados em cadeias de valor cada vez mais complexas.O produto, desde que é semeado na terra até que chega à prateleira de um supermercado, passa por toda esta cadeia de valor. Pense numa alface, numa batata – só o trabalho que leva até chegar às prateleiras já é bastante complexo. Mas se formos falar dos produtos transformados, com que lidamos todos os dias desde o pequeno almoço – o pão, o queijo, o fiambre, a manteiga, o leite, o café – são todos produtos agrícolas transformados, com cadeias de valor altamente complexas e exigências múltiplas, não só a nível de tecnologia e saber fazer, mas também com os novos desafios europeus de produção mais sustentável, mais eficiente, mais amiga do ambiente, de fazer mais com menos recursos.A complexidade é imensa. Vamos passar de uma atividade mais braçal para uma atividade muito mais de pensar, de análise crítica, de estratégia e digital.Que riscos corre Portugal se não acelerar esta renovação geracional na gestão agrícola e florestal?É um risco muito grande e já vemos sinais disso.Temos um défice agroalimentar que anda a rondar os cinco mil milhões de euros. Estamos a importar muito. E há áreas onde esta dependência externa é mesmo estrutural. Se não houver esta renovação geracional, a tendência só pode agravar-se: menos produção interna, maior dependência externa e, acima de tudo, maior exposição a crises, como esta crise geopolítica que estamos a viver agora, maior exposição a preços e à instabilidade global.E isso é um risco estratégico, porque a alimentação não é um bem qualquer. É uma necessidade básica. Se formos ver algumas das nossas fileiras – os cereais, por exemplo, que é uma área crítica -, o nível de auto-aprovisionamento ronda os dezoito por cento. Se não houver renovação, há menos capacidade de produzir, menos capacidade de inovar e menos resiliência a choques externos. Isto coloca em causa não só o setor, mas o país como um todo.Por isso, eu nem digo urgência, digo quase emergência. É uma emergência renovar a geração no nosso setor, trazer novas ideias, novas convicções, novos conhecimentos.A agricultura portuguesa está preparada para integrar automação e inteligência artificial sem perder a identidade territorial e a sustentabilidade ambiental?Sim, e eu acho que uma coisa casa exatamente com a outra. Existe uma retórica, um dos mitos que queremos desmistificar, que coloca a agricultura de um lado e o ambiente e a sustentabilidade do outro. Importa dizer que a sustentabilidade dos territórios está muito alicerçada na agricultura e também na floresta.Enquanto antigamente quem lá estava era uma população bastante envelhecida, hoje temos empresas altamente qualificadas e modernas do nosso setor estabelecidas no interior do território, e essas empresas estão a atrair talento. Porquê? Porque os jovens de agora querem trabalhar em algo tecnológico, mas também em algo com que se identifiquem. E se tivermos atividades que são competitivas à custa dos recursos naturais, isso nunca será bem visto por esta nova geração, nem por quem já cá está, que somos nós, os agricultores.O que temos agora são empresas altamente modernas e eficientes a trabalhar uma agricultura amiga do ambiente, uma agricultura sustentável e tecnológica e isso atrai esta nova geração, que quer fazer mais, melhor, com tecnologia, mas sem impactos negativos no ecossistema que nos rodeia. Já tivemos a revolução verde, da sustentabilidade. Agora é a revolução digital. E é entre estas duas que está a atração dos mais jovens.Isto também é um papel do Estado. Se a agricultura é estratégica para o país, por que razão a carreira agrícola não é tratada como uma das mais prestigiadas do sistema educativo? O papel do Estado vai mudar?O papel do Estado sempre foi fundamental, nem que seja pelas políticas públicas. Aqui eu dividiria em dois patamares.O primeiro, que é muito importante, é que existem apoios ao setor agrícola que sempre foram e continuam a ser essenciais para a manutenção desta atividade. E é muito importante perceber para que servem: os apoios dados aos agricultores existem para que o consumidor possa ter produtos na prateleira a preço justo. Porque se não houvesse esses apoios, muitos agricultores deixavam a sua atividade ou mantinham-na, mas os produtos que temos nas prateleiras – aquela alface, em vez de estar a um euro, teria que estar a quatro ou a cinco euros, com os preços que temos atualmente dos adubos, dos fertilizantes, do gasóleo, da energia. Para manter esse equilíbrio, a diversidade de produtos a preços justos, têm que ser dados apoios aos agricultores.Mas qual é o problema que temos atualmente para os mais jovens?O acesso à terra. Existe uma Bolsa de Terras – uma iniciativa interessante do Estado -, mas o acesso continua a ser uma dificuldade. E depois há o financiamento: um agricultor que vai à banca ainda tem imensas dificuldades.Um banco, nos seus sistemas de análise de crédito e de risco, trata o agricultor como um caso muito difícil porque quem está a financiar não percebe a lógica da agricultura.Se eu vou plantar um amendoal, só vou começar a ter algum retorno passado oito ou nove anos. Isso não é visto dessa forma perante uma entidade bancária.Mas há ainda outro nível que quero acrescentar, que pega muito na vertente da educação dos mais novos. Estamos a tentar estabelecer uma ligação com o Ministério da Educação, porque existem ainda muitos manuais escolares – maioritariamente em disciplinas como Geografia ou Estudos Sociais – onde se demoniza muito a agricultura. Chego a ver manuais onde, entre as principais fontes de poluição no país, está listada a agricultura. Isso tem que ser reformulado rapidamente. Esses manuais estão desatualizados há dezenas e dezenas de anos. É um trabalho duro que estamos a tentar fazer não só com o ministério, mas também com os próprios professores. Porque se os miúdos começam a ver isto a partir dos seis, sete, oito anos, é quando começam a formar as suas opiniões. E se a agricultura entra nessa formação como algo negativo, a batalha começa por se perder muito antes de qualquer campanha de comunicação a poder ganhar.O conteúdo «A ligação à terra dos avós perdeu-se. A agricultura e o setor florestal ficaram esquecidos», explica Rui Almeida aparece primeiro em Revista Líder.